A 12 de Março de 1938, aconteceu algo que estava proibido pelos tratados assinados após a I Guerra Mundial: a Áustria uniu-se à Alemanha. O país onde nascera Adolf Hitler passava assim a fazer parte do projecto de uma Grande Alemanha. Com a Anschluss, também se unificaram as competições desportivas e as selecções nacionais dos dois países passaram a estar sob a bandeira da Alemanha nazi. O futebol não foi excepção.
Nesta altura, os grandes nomes do futebol alemão não eram o Bayern Munique nem o Borussia Dortmund – o Bayern ainda foi campeão em 1932, mas, depois disso, não conseguiu melhor que alguns títulos regionais, enquanto o Borussia também não gozou dos favores do regime porque tinha um presidente anti-nazi. Durante o Terceiro Reich dominaram equipas como o Nuremberga, o Fortuna Dusseldorf, o Dresdner e, principalmente, o Schalke 04, que venceu seis dos seus 12 campeonatos entre 1933 e 1944 – a equipa de Gelsenkirchen só foi campeã por mais uma vez depois do fim do nazismo, em 1958. Mas os “intrusos” austríacos também deixaram a sua marca no campeonato da Grande Alemanha.
Menos de um ano depois da Anschluss, o Rapid Viena vencia a Tschammerpokal, uma precursora da Taça da Alemanha, com um triunfo por 3-1 sobre o FSV Frankfurt. A equipa alemã marcou cedo e esteve a ganhar quase até ao fim, mas o Rapid marcou três golos nos últimos dez minutos e levou a taça. Na temporada seguinte, mais uma equipa de Viena teve uma participação de destaque, o Admira (actualmente Admira Wacker), que conseguiu chegar à final do campeonato, onde foi goleada pelo Schalke 04 por 9-0.
Ao contrário do que aconteceu em alguns países em conflito, o campeonato alemão, para o qual se qualificavam os campeões regionais, não parou com a II Guerra Mundial. Em 1941, o Rapid Viena conseguiu chegar à sua primeira final, depois de eliminar o Dresdner na eliminatória anterior. No jogo decisivo, disputado no Estádio Olímpico de Berlim, teria pela frente a equipa do regime, o Schalke 04, o campeão em título. Tudo parecia encaminhado para o Schalke. 1-0, por Hinz, aos 5’, 2-0 por Eppenhoff aos 8’, 3-0, de novo por Hinz, aos 60’. O avançado Franz Binder, a estrela do Rapid, até tinha falhado um penálti pelo meio. Mas o jogo não estava decidido. Dois minutos depois, Georg Schors reduziu para 3-1, Binder fez o 3-2 aos 63’, de livre directo, e concretizou a reviravolta com dois penáltis, aos 65’ e 67’.
Esta seria a única vez que um clube não-alemão era campeão da Alemanha – o First Viena chegou à final no ano seguinte, mas foi derrotado pelo Schalke. Com a queda do Terceiro Reich, a Áustria voltou a ser um país autónomo e recuperou a sua independência futebolística. O Rapid, que já era o maior clube do país, só reforçou o seu estatuto (32 títulos, o último dos quais em 2008), mas, por um ano, foi o maior clube da Alemanha.
* Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos

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