Sem golos o futebol não é a mesma coisa. E não pode deixar de se sentir um sabor a desperdício quando há centenas de golos que quase ninguém vê. Mas, no campeonato de Guam, as coisas são assim: a competição terminou com uma invejável média de 6,5 golos por jogo, embora o número de espectadores nas partidas deixe muito a desejar.
Pelo segundo ano consecutivo, a equipa da Quality Distributors (uma empresa de distribuição alimentar) sagrou-se campeão da Budweiser Soccer League. O patrocínio da cerveja norte-americana não surge por acaso, já que Guam é um território sob jurisdição dos EUA. O Quality Distributors impôs-se à concorrência pela sexta vez nas últimas sete edições da competição, terminando com nove pontos de avanço sobre o segundo classificado, a equipa dos estaleiros navais (Guam Shipyard). Com 91 golos marcados em 20 jornadas, o Quality Distributors ostenta também o galardão de ataque mais concretizador.
“Apesar da margem pontual, foi um campeonato difícil. Jogámos contra os nossos grandes rivais Guam Shipyard na penúltima jornada, ainda só tínhamos três pontos de vantagem. Acabámos por ganhar 4-1, com três golos na segunda parte, e depois também ganhámos o último jogo. O Shipyard perdeu na última jornada, e daí os nove pontos de diferença na classificação”, contou ao PÚBLICO, por e-mail, o guarda-redes do Quality Distributors, Brett Maluwelmeng.
Apesar deste final emotivo do campeonato, nem por isso houve muita gente a ir ao estádio. “Todos os jogos são disputados no recinto da associação de futebol de Guam, porque os clubes não têm campo próprio. Diria que a média de espectadores oscila entre 30 e 50 nos jogos do campeonato, subindo para 70 a 100 num jogo grande como o Quality Distributors-Guam Shipyard”, explicou Brett Maluwelmeng. Muito pouco para uma ilha que, segundo as mais recentes estimativas, conta 160 mil habitantes.
E não se pode dizer que as equipas não fizeram por entusiasmar: logo a abrir, na primeira jornada, o Espada cilindrou o Doosan por esclarecedores 23-0. Foi uma amostra do que Doosan faria ao longo do resto da temporada – a equipa terminou no fundo da tabela, com 20 derrotas em outras tantas jornadas, e um registo de 154 golos sofridos (apenas 17 marcados). “O Doosan perdeu alguns elementos importantes e até entrou de início, nesse jogo contra o Espada, com apenas nove jogadores. Ao longo do ano a equipa conseguiu melhorar, mas leva tempo até que jogadores jovens consigam levar uma equipa a lutar por um lugar na primeira metade da tabela”, analisou o guarda-redes do Quality Distributors.
Brett Maluwelmeng também defendeu as cores da selecção nacional de Guam – Matao, como é carinhosamente tratada a equipa, recorrendo a um termo que, entre a população indígena Chamorro, representa a coragem. “Fui titular da Matao entre 2006 e 2012. A equipa nacional tem evoluído muito. Em parte isso deve-se ao novo seleccionador, [o britânico] Gary White, que foi contratado em 2012 e descobriu muitos jogadores no estrangeiro que elevaram o nível da equipa”, apontou. “Agora a selecção tem quatro profissionais (três deles a jogar nas Filipinas) e alguns jogadores dos campeonatos universitários. Normalmente há cinco ou seis na convocatória que actuam em Guam, um grande contraste em relação aos meus tempos, em que praticamente todos jogavam cá”, acrescentou.
Talvez assim Guam comece a ganhar mais regularmente. A selecção insular começou a fazer os primeiros jogos em 1975, foi admitida na FIFA em 1996, e só em 2009 obteve a primeira vitória sobre uma equipa-membro da FIFA: a vítima foi a Mongólia, e o golo solitário foi apontado por Christopher Mendiola.
* Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos

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