Qual é o clube escocês com mais títulos conquistados nas competições europeias? Se pensou em Celtic ou Rangers pense outra vez, porque a equipa em questão não faz parte do Old Firm. Essa medalha pertence ao Aberdeen, que viveu na década de 1980 os melhores dias da sua história: bateu o poderoso Real Madrid na final da Taça das Taças faz neste sábado 30 anos. Mais tarde, ainda em 1983, derrotou o Hamburgo na Supertaça europeia. Dois troféus em provas da UEFA, tantos quantos somam Celtic e Rangers juntos – os católicos conquistaram a Taça dos Campeões Europeus em 1967, frente ao Inter de Milão, na final realizada no Jamor, e os protestantes venceram o Dínamo Moscovo na final da Taça das Taças em 1972, em pleno Camp Nou.
Este feito do Aberdeen é obra de um homem que, por então, dava os primeiros passos na carreira de treinador. Alex Ferguson, que deixa o comando técnico do Manchester United com 38 troféus, celebrou dez conquistas ao serviço do emblema escocês: três títulos de campeão da Escócia, quatro Taças e uma Taça da Liga escocesa, para além dos dois troféus europeus. De resto, o derradeiro título de campeão conquistado pelo Aberdeen de Ferguson, em 1984-85, é o último de uma equipa fora do Old Firm. Nos 28 anos que já passaram, o Rangers foi campeão 17 vezes e o Celtic 11.
A carreira europeia do Aberdeen gerou enorme entusiasmo na cidade escocesa. A final frente ao Real Madrid realizou-se no Estádio Ullevi, em Gotemburgo. E foram milhares os adeptos que fizeram a viagem até à Suécia para assistir ao jogo decisivo da Taça das Taças. Por terra, mar e ar. “Houve kilts, cartolas vermelhas e brancas, laços e até um sombrero dos dons quando os primeiros adeptos chegaram a Gotemburgo”, podia ler-se na edição de 10 de Maio de 1983 do Glasgow Herald.
“Pouco depois de ter partido o primeiro Boeing 737, o ferry St Clair zarpou do porto de Aberdeen ao som de gaitas de foles”, prosseguiam os jornalistas Graeme Smith e George MacDonald, que davam conta da deslocação massiva de adeptos – incluindo em barcos de pesca: “A maioria vai voar para Gotemburgo. (...) Já há autocarros a caminho, alguns adeptos vão viajar de comboio, e vários barcos de pesca descarregaram as suas capturas na Dinamarca e seguiram para Gotemburgo”. Havia até dois aventureiros que planeavam ir de bicicleta. “Mas não conseguiram obter patrocínios e vão acabar por viajar à boleia para a Suécia”, explicava o Glasgow Herald, estimando em 12 mil o número de adeptos escoceses que marcariam presença em Gotemburgo.
O resto da história é conhecido. Numa noite de chuva torrencial, Eric Black adiantou os dons logo aos sete minutos, mas Juanito restabeleceu a igualdade pouco depois. O empate persistiu até ao final do tempo regulamentar. Só que, no prolongamento, John Hewitt fez, de cabeça, o golo da vitória do Aberdeen. E deu ao emblema escocês o primeiro troféu europeu da história. Segundo o Glasgow Herald, um adepto de 23 anos morreu de ataque cardíaco no estádio, após o golo que deu vantagem ao Aberdeen.
Com a conquista deste troféu, os dons garantiram o direito a discutir a Supertaça europeia com o campeão europeu Hamburgo. E alcançaram outro feito: após um empate sem golos na Alemanha, venceram 2-0 em casa e voltaram a celebrar. A festa foi dos adeptos, sempre correctos, por vezes acusados de “excesso de civismo”. “Ferguson ficou espantado, quando chegou ao Aberdeen, ao ver as bancadas a aplaudir as equipas adversárias que conseguiam fazer alguns passes seguidos”, contava o Glasgow Herald. A glória europeia não podia ser mais merecida.
* Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos

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