O futebol é realmente um espetáculo imprevisível e recheado de acontecimentos surpreendentes. É um jogo coletivo, não linear, estratégico, de grande incidência técnica, onde a inspiração, arte, engenho e o esforço dos intervenientes podem proporcionar momentos de grande espetacularidade, mas é de facto muito mais que isso. Gera emoções vertiginosamente contraditórias, pode ser injusto, cruel, ilógico... O futebol é... futebol! Durante o fim-de-semana passado, vi um jogo na televisão, disputado no Estádio Moustoir, também conhecido por Yves Allainmat, em Lorient, no Sul da Bretanha, o primeiro a possuir relvado sintético na Ligue 1. Defrontaram-se o Lorient e o Paris Saint-Germain, num estádio praticamente lotado, e foi um jogo de festa, alegria, de despedidas, recordes, homenagens... Enfim, emoções.
Este jogo para a 38ª e última jornada nada trouxe em termos competitivos ou na tabela classificativa, mas foi repleto de incidências. O Paris Saint-Germain, já campeão, colocou em campo alguns jogadores menos utilizados, dando-lhes assim o prémio de se sagrarem campeões. Quanto ao Lorient, já tinha assegurado a melhor classificação de sempre. Naturalmente a qualidade de jogo dos parisienses impôs-se e a vitória foi inequívoca: 3-1 para os forasteiros, com golos do inevitável Ibrahimovic e um “bis” de Gameiro.
Em relação aos bretões, apesar do ambiente de festa pelo terminus dum campeonato histórico para o clube, este jogo marcou a despedida do internacional francês Giuly dos relvados, após uma carreira brilhante, o que o levou a afirmar: “Para mim o capítulo futebol terminou, mas a vida continua!” Do lado dos forasteiros, pode ter sido o último jogo de Ancelotti à frente dos parisienses, depois da despedida de Beckham, terminando a sua longa e profícua carreira. A este propósito, o inglês foi homenageado pela direção do Lorient, recebendo do presidente uma camisola deste clube com o número sete e a expressão “Au revoir”. Bonito!
Ibrahimovic, já consagrado rei dos marcadores, marcou o primeiro golo da sua equipa, atingiu a bonita soma de trinta golos e recebeu no final o troféu bota de ouro. Contrariamente ao usual, este jogo foi ainda rico em recordes. O PSG totalizou os 101 golos nesta temporada, batendo um recorde que durou trinta anos e atingiu a marca record de 25 vitórias, algo inédito para o clube da capital na Liga. O jogo mil e quinhentos do PSG na Ligue 1 ditou uma série de onze jogos sem derrotas, permitiu-lhes também alcançar os oitenta e três pontos, igualando o recorde do clube obtido na época 1993-94, a última em que se sagraram campeões. A este propósito, Ancelotti afirmou: “Que bela forma de terminar uma grande época!” Prolífico, diria eu!
Mas os acontecimentos não se ficaram por aqui. Aos oitenta e um minutos, com o resultado de três a zero, o veterano guarda-redes parisiense de trinta e oito anos, motivado pela oportunidade de se despedir em ação, depois de ter defendido a preceito algumas bolas perigosas, foi obrigado a sair-se aos pés dum adversário isolado no centro da área e após contacto, foi assinalada grande penalidade. Le Crom, que entrara vinte minutos antes para substituir o seu colega na baliza do PSG, fazia a última aparição e estava de despedida dos relvados, após uma longa carreira. Naquele instante, e imediatamente após o apito do árbitro a sancionar a falta, quase todos os jogadores, curiosamente também os do Lorient, se acercaram deste para o sensibilizar, pedindo-lhe para alinhar no espírito do jogo e evitar a expulsão. Aquele momento prendeu-me a atenção e desejei que o juiz da partida interpretasse a falta de outra forma, já que havia um colega defensor na jogada. Mas este, não se deixando influenciar, foi objetivo e de uma forma “cruel” mostrou-lhe o cartão vermelho e ordenou a expulsão. Mas que forma de terminar uma carreira e um jogo bonito de final de temporada! Afinal de contas, nada estava em jogo, o resultado feito e sinceramente, já ninguém no estádio, nem tão pouco em casa, estava preocupado com o resultado.
Ao árbitro cabe-lhe tomar decisões, cumprindo as leis de jogo e assumir a imparcialidade que lhe é exigida. Aos olhos do espetador comum, o árbitro pode ter sido um “desmancha-prazeres”, mas a realidade é que ele está no jogo para desempenhar as suas funções e apesar do jogo não ser decisivo para ambas as equipas, pode ter sido para ele, que seguramente estava a ser avaliado. Só temos de culpar o... futebol e as suas incidências! No meio do ambiente festivo, foi na condição de expulso que Le Crom se despediu do futebol. O infortúnio manchou a sua despedida e o orgulho de uma longa carreira.
* Artigo publicado respeitando a norma ortográfica escolhida pelo autor

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