Tinha oito anos quando te vi pela primeira vez e logo aí ficaste-me atravessado. O teu génio roubou-nos aquela meia-final de Marselha que só nós podíamos ter ganho e eu, a quem as vitórias morais nunca chegaram, jamais te perdoei. Para te esquecer, preferi sempre recordar outras glórias que te ajudaram a ser quem foste: Giresse, Tigana ou Bats, naquela França admirável e romântica de 1984, ou o Boniek da poderosa Juventus, onde jogavas e que então dominava a Europa.
Vem isto a propósito do que disseste há dias sobre quem queres que leve a taça para casa. Espanha ou Alemanha, pouco importa qual, que o Euro está no papo, ouvi-te dizer. O teu problema é que hoje falas como antes jogavas: de mais. E isso, meu caro Platini, às vezes paga-se caro.
Já sei que vais dizer que isto de confrontos Portugal-Espanha é tudo uma questão de alternância, e a história até está do teu lado. Levámos três em Guimarães há nove anos para logo a seguir, naquele Euro 2004 que foi quase uma epopeia, os expulsarmos novamente Portugal fora; correram connosco de África em 2010 e uns meses depois demos quatro na Luz, um estádio inteiro a gritar "olé".
Amanhã será a vez deles, portanto, pensas tu. Simplesmente esqueces-te que a nossa última vitória não durou os 90 minutos de um jogo de futebol. Durou um ano, uma época inteira, a última, em que os portugueses de Madrid finalmente desarmadilharam o imbatível tiki-taka catalão que a selecção espanhola aprendeu a emular. Foi o início do fim de um ciclo que amanhã trataremos de confirmar.
Ou muito me engano ou o próximo golo do Ronaldo já não será para o pequeno Cristiano. O próximo será para um senhor, um grande senhor da bola. O próximo será para ti, Platini.

Comentários