Espectadores nos estádios atingem o valor mais baixo dos últimos seis anos

Todos somados, os oito jogos da 10.ª jornada da Liga atraíram menos público do que o Benfica-Sp. Braga. Adeptos denunciam preço "absurdo" dos bilhetes. Provedor lembra que o futebol não escapa à crise

Há bem menos adeptos nas bancadas dos estádios da I Liga Luís Efigénio/NFactos

O último jogo do primeiro terço do campeonato trouxe a pior das notícias: o Paços de Ferreira-Marítimo de terça-feira registou a mais baixa assistência da época, com 900 adeptos no estádio. Um indicador que confirma a 10.ª jornada da Liga como a pior da temporada e a tendência de quebra no número de espectadores. Em relação ao mesmo período de 2011-12, venderam-se menos 184.231 bilhetes, o que traduz uma redução de 16,8%.

O cenário é pouco animador e a mais recente ronda da Liga agrava as perspectivas futuras. Nos últimos oito jogos, as assistências combinadas de todos os estádios ficaram aquém do encontro com melhor assistência da época, o Benfica-Sp. Braga (50.613 contra 53.357 espectadores na Luz). De acordo com os dados da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP), houve 911.141 adeptos nas bancadas do principal campeonato português em 2012-13, contra 1.095.372 na temporada passada.

As causas não são novas e a solução não é fácil de encontrar. Os preços dos bilhetes (inflacionados pela subida do IVA para 23%), a "concorrência" da televisão e os horários dos jogos são apontados pelos adeptos como elementos dissuasores e pelos responsáveis pelas competições como factores decisivos para o equilíbrio do sector.

"Tudo contribui [para esta quebra], mas acho que o factor primordial é o aspecto económico. Eu creio é que, no resto dos sectores da economia, o abrandamento é capaz de ter sido maior que o do futebol. Não acho que a paixão pelo jogo tenha diminuído", aponta Jorge Sequeira, provedor do adepto na LPFP.

O que diminuiu foi o hábito de ir ao futebol, tendo em conta que estamos na presença dos piores indicadores dos últimos seis anos. É preciso recuar até 2006-07 para encontrar um valor mais baixo à 10.ª jornada (812.520 espectadores, segundo dados recolhidos pelo PÚBLICO), com a atenuante de, nessa época, o V. Guimarães, um dos clubes que mais adeptos arrastam, ter estado arredado do primeiro escalão.

"O IVA ajudou, mas não é tudo. Enquanto o valor dos bilhetes for de tal modo absurdo, não há forma de inverter a situação", denuncia Costa Pereira, presidente da Associação Portuguesa do Adepto. Na última jornada, e a título de exemplo, os ingressos para o Benfica-Olhanense, para não sócios, variavam entre os 18 e os 48 euros, enquanto no Sp. Braga-FC Porto começavam nos 35 e acabavam nos 60 euros. "O futebol não é um espectáculo, é visto só como um jogo de interesses", acrescenta.

Em causa estão também os condicionalismos impostos pela Olivedesportos, detentora dos direitos televisivos, no que diz respeito aos horários dos jogos e à duração das jornadas. Costa Pereira lamenta a multiplicação daquilo a que chama "adepto passivo" - que assiste aos jogos no sofá -, Jorge Sequeira lembra que não há forma de mudar completamente as regras do jogo.

"Não há solução. A televisão é um player incontornável. Não se pode, em detrimento de um horário mais confortável, acabar com a televisão", sustenta, considerando, porém, que a renegociação dos contratos poderá, no limite, ter um impacto positivo até no preço dos ingressos. "Com a centralização dos direitos, os clubes ganham mais e, por essa via, até podem reduzir um pouco o preço dos bilhetes. E assim atraem mais adeptos", anota, usando um argumento que foi uma das bandeiras eleitorais do actual presidente da LPFP, Mário Figueiredo.

Na actual conjuntura, defende o provedor, não há grande margem para moderar os preços, mesmo que o Benfica tenha, recentemente, avançado com um pacote mais convidativo, denominado Bancada Família, que avalia como uma "boa iniciativa". "Os clubes não geram receitas para pagar um espectáculo que fica muito caro", assinala, lembrando que todos atravessam dificuldades.

Neste primeiro terço de campeonato, que contabiliza os mesmos clássicos que o anterior (um, no caso o FC Porto-Sporting), o Benfica, que é o clube com mais espectadores (média de 34.400 por jogo), regista a pior performance desde que a Liga é disputada a 30 jornadas, o mesmo acontecendo com o FC Porto (ver caixa). A excepção, curiosamente, é o Sporting, que mesmo em profunda crise desportiva já superou as épocas de 2009-10 e 2010-11.

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