Opinião

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

1. “Diz-me com quem andas e dir-te-ei (que língua a nossa!) quem és. Pois é: Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas” (Millôr Fernandes, Millôr Definitivo, página 89).

2. Está convidado para jantar, caro Mestre Picanço, mas espero nunca mais o ver num jantar destes.

3. Devo confessar ao leitor que se há coisa que me dá uma satisfação adicional é o confronto entre dois “companheiros de luta”, entenda-se sempre, na expressão desse meu sentimento, de uma “luta” que não tenho por certa, no hastear de bandeira que julgo ser a errada. Um destes dias, após o repasto, Mestre Picanço, convidado de Vicente Moura ainda na qualidade de presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), decidiram trocar, antecipadamente, os seus presentes de Natal, rompendo, pelo menos aparentemente – já tenho alguns anos destas coisas – com a “forte relação” que tinham há anos. Relembre-se que Mestre Picanço é membro da Academia Olímpica, conviveu com Vicente Moura a vários títulos e há quem afirme que, pelo menos em parte, deve o seu lugar de governante (?) ao apoio expresso pelo presidente do COP. Relembre-se ainda que Mestre Picanço foi membro da primeira Comissão Instaladora do Tribunal Arbitral do Desporto do COP, desistiu – após a primeira reunião – de ser membro da Comissão para Justiça Desportiva, que iniciou um processo para um Tribunal Arbitral do Desporto, fora do COP (ter-se-á enganado ao que ia). Resumindo, Vicente Moura era um suporte e um inspirador de Mestre Picanço e este, por seu turno, sempre foi um bom obediente.

4. Pum! Mestre Picanço terá realizado um discurso de resposta a Vicente Moura por recentes declarações deste em termos do estado da nossa política desportiva: “Até porque, muito recentemente, e para grande surpresa do Governo, depois de um ano e meio de intenso esforço, articulação e empenhamento, para criar a melhor relação possível com o COP, ter sido afirmado pelo senhor presidente que este Governo navegava à vista, que não tinha qualquer direcção e que se tinham perdido as ilusões quanto a este Governo”.

Indignação total de Vicente Moura: “Foram completamente inoportunas, isto é um jantar, uma festa, eu fiz a despedida do trabalho que fiz ao longo de 15 anos, que me orgulho, e o discurso do senhor secretário de Estado é completamente desinserido. Aproveitou para fazer uma súmula das acções do Governo, algumas positivas, mas outras inconsequentes. Agora vê-se bem que navega mesmo à vista”. Acusando Mestre Picanço de ter proferido “um discurso propagandístico”, disse ainda Vicente Moura: “Eu fico a pensar que disse que conheci muitos ministros e muitos secretários de Estado, uns que gostei bastante e outros apenas gostei, eu tenho de dizer que deste eu apenas desgosto”. Espectacular e olímpica tipologia de sabores.

5. Desta maravilhosa zanga de “comadres” parece resultar, todavia, uma certa concordância. Mestre Picanço aproveita a última oportunidade para poder dizer aquilo que agora (pode mudar amanhã, pelas 15 horas) pensa de Vicente Moura, em registo de final de mandato. Vais-te embora, não é? Então ainda bem e leva isto contigo. Por seu lado, Vicente Moura também não deixou de apontar a Mestre Picanço o caminho da saída: “É um bom jurista e acho que devia voltar à sua profissão, deixando o Desporto às pessoas que o amam, que o conhecem e que são capazes de encarar com fair-play as críticas e contrariedades da vida”.

6. Boa! Por que não vão os dois e de braço dado?

José Manuel Meirim é professor de Direito do Desporto

josemeirim@gmail.com

 

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