Dívidas dos três "grandes" aos bancos já superaram os 400 milhões de euros

Benfica tem a maior fatia, mas é o Sporting que tem a situação mais preocupante. Sociedade Anónima Desportiva (SAD) "leonina" tem custos salariais superiores às receitas. FC Porto tem em marcha um empréstimo obrigacionista.

Os principais clubes de futebol portugueses continuam com níveis de endividamento preocupantes. Apesar da crise económica, das dificuldades de acesso ao crédito bancário e das novas regras de controlo financeiro da UEFA, os dados da última temporada mostram que Benfica, Sporting e FC Porto devem aos bancos 411,9 milhões de euros (ME), mais 59,8 milhões do que no final de 2010-11.

O Benfica tinha a Sociedade Anónima Desportiva (SAD) mais endividada, tendo os compromissos com a banca subido de 157 milhões em 2010-11 para quase 200 milhões de euros (199,6ME) no fim da época passada. O Sporting também viu a sua dívida bancária aumentar de 95ME para 116,4ME. Consulte a infografia.

A excepção foi o FC Porto, cujos empréstimos bancários desceram de 98ME para 95,9ME – os "dragões", no entanto, lançaram um novo empréstimo obrigacionista (até 30ME) em Novembro.Estes números dizem respeito apenas às operações de futebol das três SAD –, não incluindo, por exemplo, as construções dos estádios – e foram recolhidos pelo PÚBLICO e por António Samagaio, professor do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão), com base nos relatórios e contas anuais, enviados à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

O dado mais assinalável é mesmo o aumento do endividamento em 17%, numa altura em que a conjuntura económica forçaria exactamente o contrário. Surpreendente? "Por um lado, sim. Porque era expectável que houvesse racionalização de investimentos", responde António Samagaio. Mas por outro lado, a banca está a ganhar com este negócio, porque as taxas de juros são elevadas.

O Benfica, por exemplo, contraiu um empréstimo de 20 milhões de euros ao Investec, a uma taxa de 10,35%", aponta este professor de Economia do ISEG, acrescentando outro exemplo: "A taxa média dos empréstimos bancários do FC Porto foi de 7,62%, quando em 2011 tinha sido de 6,78%."

O Sporting paga taxas de juros entre 3% e 9,25% (esta do empréstimo obrigacionista).O nível de endividamento das SAD traduz-se em elevadas facturas com juros. Na época passada, a SAD do Benfica (a nível individual, sem contar com outras empresas do grupo) pagou 14 milhões de euros em juros, a do FC Porto despendeu 7,9 e a do Sporting 6,8. Realidade completamente diferente tem o Sporting de Braga, cujo passivo bancário era de 7,4 milhões no final da época e cuja maior parte já foi, entretanto, liquidada. Os encargos com juros da SAD minhota foram 573 mil euros durante 2011-12.

Sporting, a perder no casino
Se o Benfica tem a SAD mais endividada, é, por outro lado, a sociedade com resultados operacionais mais equilibrados. A nível consolidado (todas as empresas do grupo Benfica), obteve receitas operacionais recorde (91 milhões de euros) e a nível individual supera os 76 milhões, valores muito acima dos 49,7ME obtidos pela SAD do FC Porto e dos 40,8 da SAD do Sporting.

O Sp. Braga é claramente de outro campeonato, com proveitos de 13,2 milhões. A SAD benfiquista foi, aliás, a única que na temporada passada obteve proveitos operacionais (todas as receitas, menos transferências de jogadores) superiores às despesas operacionais (as despesas correntes, sem contar com juros, impostos e transferências), embora também tenha acumulado prejuízos, em grande medida por causa da pesada factura dos juros e também do investimento em contratações.

O fosso em relação ao FC Porto aumentou, uma vez que, no exercício anterior, a SAD portista tinha registado os 15 milhões de euros da transferência de André Villas-Boas para o Chelsea como proveito operacional.Globalmente, a situação mais preocupante é a do Sporting.

"Quem é adepto do Sporting devia estar muito preocupado, porque o clube está a caminhar para o abismo", resume António Samagaio, usando uma metáfora. "Faz lembrar um jogador que perdeu no casino e que agora está a apostar as fichas todas para, desesperadamente, tentar recuperar as perdas." Os três "grandes" terminaram a temporada de 2011-12 em situação de falência técnica (isto é, com um passivo superior ao activo), mas o Sporting é o único que se mantém ainda nessa situação, já que durante o primeiro trimestre de 2012-13 FC Porto e Benfica voltaram a ter capitais próprios positivos.

Este professor de Economia salienta que nos primeiros três meses desta época portistas e benfiquistas aproveitaram as transferências de Hulk e Witsel para "reduzir a dívida financeira", enquanto o Sporting continuou a "aumentar o endividamento a um ritmo preocupante". Mas esse não é o único dado alarmante em Alvalade, onde, aponta António Samagaio, "o principal activo da SAD é uma dívida a receber do próprio clube, que levanta dúvidas ao revisor de contas".

Na época passada, a SAD leonina gastou 42,5 milhões de euros em salários, quando os seus proveitos operacionais (todas as receitas, menos as transferências de jogadores) foram apenas 40,8 milhões. A UEFA recomenda que os clubes não gastem mais do que 70% das suas receitas em salários, algo que só é cumprido pelo Benfica (60,9%). O Sporting é o pior neste capítulo (104%) e o FC Porto gasta 93,4% das suas receitas operacionais em salários.

E até mesmo o Sp. Braga, que terminou a temporada com lucros (ao contrário dos três grandes), também gasta quase a totalidade dos proveitos operacionais (95,5%) no pagamento de ordenados a jogadores e treinadores. O Sporting seguiu uma "estratégia de risco", na opinião de António Samagaio, ao aproximar-se do nível salarial de FC Porto e Benfica.

Só que essa aposta não teve efeitos desportivos e nem sequer conseguiu qualificar-se para a Liga dos Campeões, actualmente uma importante fonte de receita para os clubes. E no primeiro trimestre da actual temporada, quase nada mudou.

O Sporting aumentou custos salariais de nove para 10,3ME, algo imitado pelo FC Porto, cuja factura em massa salarial passou de 9,1 para 11,8ME nos primeiros três meses da temporada. O Benfica foi a excepção, ao baixar de 12,8 para 11,3ME.

Fuga para a frente
A conjuntura económica e o facto de, no início da próxima época, entrarem em vigor novas regras da UEFA (fair play financeiro) poderiam significar uma estratégia mais cautelosa dos principais emblemas portugueses. Mas, na verdade, isso não está a acontecer.

Segundo as contas de António Samagaio, os clubes continuam a investir fortemente na compra de jogadores. "A austeridade ainda não é um vocábulo que tenha entrado definitivamente no léxico dos gestores destas SAD. Estão numa fuga para a frente", critica. Nos últimos quatro anos, o FC Porto gastou 213,4 milhões de euros em contratações, o Benfica 175,8 e o Sporting 97,1.

E olhando apenas para a temporada passada (a primeira que contará para o fair play financeiro), não se notou ainda cautela. O FC Porto despendeu 64,3 milhões na compra de futebolistas, o Benfica 47,4 milhões e o Sporting 32,5 – em qualquer dos casos, montantes superiores aos obtidos com vendas de jogadores. Este é também mais um caso em que o Sp. Braga é a excepção, já que gastou 5,2ME em contratações, menos de metade do que recebeu pela venda de futebolistas.

É verdade que a venda de futebolistas é algo que faz parte do negócio dos clubes de futebol, mas, por outro lado, também é certo que as condições do mercado de transferências se estão a complicar. "Será que, em condições normais, o Benfica venderia o Javi García por 20ME ou o Sporting venderia o João Pereira por 3ME?", questiona António Samagaio, resumindo: "A necessidade de gerar mais-valias na venda dos jogadores contribui para que os compradores se aproveitem da debilidade dos clubes portugueses."

Nas últimas janelas de transferências, já foi visível uma redução da actividade dos grandes clubes europeus. As excepções foram o PSG (fruto de investimentos do Qatar) e os clubes russos. O que leva António Samagaio a questionar, por exemplo, a aposta do FC Porto em Danilo, contratado por mais de 17 milhões de euros (incluindo comissões a empresários). "Para gerar uma mais-valia tem de o vender por muito dinheiro. É um investimento de elevado risco", aponta.

As soluções
Os economistas há muito que vêm alertando para a insustentabilidade da actual gestão das SAD e consideram que algo vai ter de mudar, mais cedo ou mais tarde. "O Sporting começou este ciclo (capitais próprios insignificantes ou negativos) há cinco anos [...], mas, sinceramente, a sustentabilidade desta gestão (incluindo FC Porto e Benfica) não é suportável nos cenários macroeconómicos mais prováveis", defende Paulo Reis Mourão, professor de Economia na Universidade do Minho.

"Nos relatórios e contas, os administradores referem a necessidade de gerir os clubes na vertente desportiva e financeira. Isso é dito, mas o histórico de mais de uma década mostra-nos que na prática não é assim", acrescenta António Samagaio, contabilizando quase 438 milhões de prejuízos acumulados das três SAD dos grandes clubes: 222,9ME do Sporting, 129,3M do Benfica e 85,6ME do FC Porto.

O que fazer, então, para sair desta situação? "O caminho parece-me claro. Terá de passar pela redução dos custos com massa salarial e pela redução do investimento na aquisição dos jogadores", responde António Samagaio. Paulo Reis Mourão segue pelo mesmo caminho, referindo "o triângulo de ouro das finanças empresariais": "Reconhecer a necessidade de formatar os custos com pessoal em função dos resultados operacionais", "restringir os custos com endividamento" e "valorizar, substancialmente, os activos intangíveis", isto é, os futebolistas.

Samagaio chama, aliás, a atenção para a importância da aposta na formação de jovens futebolistas e também para o recrutamento no mercado nacional. "As pessoas esquecem-se de que o FC Porto foi campeão europeu em 2004, com jogadores que vinham da União de Leiria, Vitória de Setúbal e da própria formação do FC Porto", diz o professor do ISEG. "Por que não olham mais cá para dentro? O Pauleta nunca jogou na I Divisão portuguesa e o Jimmy Hasselbaink nunca esteve num "grande" português."

Como Paulo Reis Mourão já tinha referido numa recente entrevista ao PÚBLICO, António Samagaio também destaca a importância de os clubes ampliarem as suas receitas. E isso, "dada a dimensão reduzida do nosso mercado", passa por experimentar novos mercados, como "Angola ou os países árabes", sugere este professor do ISEG.
 
 
 

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