Derry City, campeão das duas Irlandas

A história de uma equipa da Irlanda do Norte que se tornou uma das melhores equipas da República da Irlanda.

Irlanda do Norte e República da Irlanda estão separadas por muitas coisas. A primeira está integrada no Reino Unido, a segunda é uma nação independente. Uma usa a libra esterlina como unidade monetária, a outra usa o euro. Uma tem maioria protestante, a outra maioria católica. Irmãos geograficamente unidos na mesma ilha, mas separados por quase tudo o resto. No futebol, cada um tem o seu campeonato, mas há uma equipa que já foi campeã das duas Irlandas: o Derry City Football Club, clube localizado na Irlanda do Norte e que, actualmente, joga no campeonato da República da Irlanda.

Depois de Belfast, Derry (ou Londonderry) é a segunda maior cidade da Irlanda do Norte e fica junto à fronteira com o Eire. Fundado em 1928, já depois da independência da República da Irlanda, em 1922, o clube tentou desde a sua génese não ser sectário, atraindo adeptos católicos e protestantes, ao contrário do anterior emblema da cidade, o Celtic Derry, que apelava à maioria católica da cidade. Mas a sua associação aos católicos acabou por ser inevitável, até pela localização do seu estádio, o Brandywell, no lado nacionalista da cidade.

Integrado no campeonato da Irlanda do Norte, o Derry City adoptou o equipamento do Sheffield United (riscas vermelhas e brancas verticais) e teve o seu primeiro sucesso em 1935, com a conquista da City Cup, repetindo o feito em 1937. Era difícil para o Derry City quebrar o domínio das equipas de Belfast, o Linfield, o Belfast City e o Glentoran, mas foi conseguindo intrometer-se, conquistando a Taça da Irlanda por três ocasiões (1949, 1954 e 1964). Em 1965, conseguiu finalmente o seu primeiro título de campeão e, com este troféu, ganhou entrada na Taça dos Campeões Europeus, tornando-se a primeira equipa do país a ultrapassar uma eliminatória europeia - eliminou os noruegueses do Lyn com 8-6 no conjunto das duas mãos, mas depois foi destruído pelo Anderlecht por 9-0 na primeira mão, não se jogando a segunda mão porque a federação irlandesa considerou que o campo do Derry não tinha condições.

Em meados dos anos 1960, a Irlanda do Norte caminhava para um clima de quase guerra civil entre católicos e protestantes e os campos de futebol também serviam de palcos para estes confrontos. Apesar de não ter uma política sectária no que diz respeito a adeptos e jogadores, o Derry City era olhado como um bastião dos católicos e deu-se uma escalada de violência nos jogos no Brandywell, especialmente frente ao Linfield. Em 1969, após um jogo ter sido interrompido devido à violência, o clube de Belfast anunciou que nunca mais iria jogar no Brandywell, e, durante os dois anos seguintes, o Derry City foi obrigado a receber o Linfield em casa emprestada.

Em 1971, no auge da violência sectária, um grupo armado invadiu o autocarro de uma equipa visitante e, depois deste incidente, as restantes equipas do campeonato seguiram o exemplo do Linfield, recusando-se a jogar no Brandywell. O Derry City esteve quase um ano a jogar os seus jogos em casa numa cidade protestante perto de Derry, fazendo depois um pedido à federação para voltar a jogar no seu estádio. A proposta foi recusada por um voto e, no dia seguinte, o City retirou-se do campeonato.

Durante 13 anos, o City foi uma equipa em terra de ninguém, vendo todos os anos rejeitado o seu pedido de reintegração na Liga. Até que em 1985 o campeonato da República da Irlanda foi alvo de uma reestruturação e abriram-se vagas. O Derry City candidatou-se, começou na segunda divisão e, de imediato, conseguiu a promoção, tornando-se uma das melhores equipas da Liga com dois títulos de campeão (1989 e 1997), mais cinco Taças e dez Taças da Liga.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos

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