Há pouco mais de 24 horas em Portugal, acabados de regressar da China, Filipa Elvas e Álvaro Leite mostram o mesmo entusiasmo que afirmam ter tido no dia em que estiveram na Maratona da Grande Muralha da China. Ela foi a única mulher a terminar a prova. Ele ficou em 4.º lugar na classificação geral. Ambos atletas amadores, tripulantes da TAP e os únicos portugueses na prova realizada a 1 de Maio, afirmam que a maratona foi a mais desgastante em que já participaram mas admitem que não se importariam de repetir os 45 quilómetros, ao longo de 20 mil degraus, sob 30ºC de temperatura.
A conversa com o PÚBLICO foi combinada no Centro Desportivo Nacional do Jamor, em Lisboa. Filipa, 37 anos, de Oeiras, e Álvaro, 41, do Porto, apareceram com as camisolas que usaram na maratona na China e as medalhas e trofeús recebidos. Tal como no dia da maratona, Filipa tinha a bandeira portuguesa colocada nas costas. “Ainda não a lavei”, diz.
Tripulantes na TAP, ela há seis anos, ele há sete mas há 17 na transportadora aérea, regressaram na noite de segunda-feira da China, onde chegaram no dia 27 de Abril para participar numa das maratonas mais duras do mundo. Este ano, a prova decorreu numa parte da muralha localizada em Jinshanling, na província de Hebei. Dos 140 inscritos, apenas dois eram portugueses. Os dados oficiais da prova ainda não foram disponbilizados pela organização, uma das críticas apontadas pelos dois atletas, mas no diploma entregue a Filipa está registado que concluiu a prova em sete horas e 50 minutos, antes das oito horas impostas pelo regulamento. “Fiquei em 9.º ou 10.º lugar na classificação geral”, disse. Álvaro completou os 45 quilómetros, mais três adicionais, por indicações erradas de percurso dadas pela organização, em sete horas e 25 minutos. Estão entre os 15 que concluíram a prova em menos de oito horas.
Por 196 dólares (cerca de 150 euros), além dos custos da viagem, inscreveram-se para participar numa maratona que apenas conheciam por fotografias ou vídeos. “O primeiro degrau foi o primeiro contacto com a prova. Não tínhamos termo de comparação com nada. Ainda por cima a organização decidiu à última hora mudar o percurso para 20.000 degraus”, desabafa Filipa.
Ambos admitem que a prova é de uma “violência inexplicável”. “É uma prova altamente maçadora em termos psicológicos, em terreno complicado”, acrescenta Álvaro. “Foram muitas horas a correr. Olhamos em frente e é só degraus. Tínhamos degraus com meio metro de altura e tínhamos que usar as mãos para subir”.
Terminada a prova, Filipa lembra-se de ter perguntado ao colega que a levou para estas andanças: “O que é que achaste mais difícil? Perguntei isto a um 'Ironman'. E ele respondeu ‘isto’ [Maratona da Grande Muralha da China]. Quando terminei a prova estive duas horas a chorar. Mas a chorar de alegria”. A emoção foi alimentada por um ditado que lhe disseram no final da prova, "ninguém é grande antes de subir à muralha".
Por breves segundos, a portuguesa disse ter um momento de descontração, numa parte mais ampla do percurso, sem degraus. “Parei para respirar e olhei finalmente para a muralha. Era linda!”. Também Álvaro se mostrou deslumbrado. “É um fascínio, ter o privilégio de correr em cima da muralha, a maior fortificação construída pelo homem”.
Ao fim de 45 quilómetros, foram perdidos cerca de dois quilos de peso e bebidos cerca de cinco litros de água por cada um. E como se consegue fazer uma prova de oito horas sem ir à casa-de-banho depois de tantos líquidos ingeridos? “Nunca numa maratona parei para fazer chichi. Continuei a correr. Fiz e pronto, a correr”.
Disciplina rigorosa em quatro meses
Quatro meses antes da maratona na China, Álvaro e Filipa prepararam-se para a prova com o apoio do treinador Manuel Machado, “um amigo e colega”. Manuel Machado enviou-lhes, por email, todas semanas, um esquema de treino que cada um cumpria sozinho e adaptava aos voos para os quais estava escalado como assistente de bordo.
E é assim todos os dias. Em folgas ou em intervalos nas horas de trabalho em qualquer cidade em que estejam, treinam-se. “Em cada cidade nós corremos. Até nos hotéis. Tudo serve para treinar”, desde as escadas de hotel, às escadas do Jamor, diz Álvaro. “Na nossa profissão passamos muitas horas dentro de um avião. Isto é uma forma de nos libertarmos”, acrescenta, para justificar a decisão de participar em provas com elevada exigência física.
A compreensão dos colegas, trocas de turnos e conciliação de voos de trabalho com locais de provas, ajudam a que até agora tenham conseguido participar em quase todas as provas que pretendiam.
Perguntamos a Filipa se há alguma fórmula para se preparar para uma prova como a da Muralha da China. “Nós não paramos um dia. Sem disciplina e sem perseverança ninguém vai a lado nenhum, mas não é só no desporto é em tudo na vida”. Filipa acredita que a “cabeça é o músculo mais importante do corpo” e por isso a parte mental de um atleta é prioritária. Álvaro acha que “tem que haver um equilíbrio”. “40% parte mental e 60%, sem dúvida nenhuma, parte física. Vi atletas em provas de triatlo Ironman, a 500 metros de chegar à meta, com a cabeça a querer terminar e o corpo a não deixar”. O português acrescenta depois à fórmula: boa alimentação, treino e descanso.
Depois da China o Tibete
Tanto Filipa como Álvaro têm já um percurso desportivo considerável. Ele, atleta federado de triatlo e ligado à equipa de triatlo do Clube TAP, participou em várias provas da modalidade, nomeadamente as Ironman, provas em que os participantes têm que percorrer qualquer coisa como 3800 metros a nadar, 180 quilómetros em bicicleta e mais de 42 kms a correr. Ao lado de Filipa, correu ainda a Meia Maratona do Rio de Janeiro, em 2011.
A portuguesa, que começou pelo triatlo e o trocou pela maratona, conta no “currículo” com as corridas Marginal à Noite e das Fogueiras e depois com as maratonas de Helsínquia (2011), a primeira que fez, a de Varsóvia, no mesmo ano, de Miami (2012), e de Chicago.
Cabe agora ao Álvaro, decidir qual a próxima maratona. Vai ser uma “adventure marathon”, a Great Marathon Tibete, em 2014, uma das cinco “maratonas de sonho” da dupla. Filipa quer fazer ainda as maratonas, "apenas duas por ano", de Nova Iorque, Londres, Boston e Berlim. Para a prova na capital alemã, a 29 de Setembro, inscreveu-se há oito meses.
Na meta da Maratona da Grande Muralha da China, uma das provas mais duras de atletismo, disse ter sentido “um orgulho eterno”. Álvaro afirma que terminou com a “sensação de missão cumprida”.
Ambos partilham a ideia de que “cada um de nós faria mais coisas se as julgasse menos impossíveis”. E no Tibete, onde esperam estar no próximo ano, este vai ser mais uma vez o lema do duo português.

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