A vitória que ninguém (ou toda a gente) quer

A Síria bateu o Iraque na final do Campeonato da Ásia ocidental. O que vale este troféu num país virado do avesso?

Por estes dias, na Síria, onde todo um povo luta pela própria vida, o futebol é a última das preocupações. Os combates entre rebeldes e as forças do regime, desencadeados pela contestação ao presidente Bashar al-Assad, duram há quase dois anos. E, desde então, já foram contabilizados mais de 45 mil mortos, segundo os dados do Observatório Sírio dos Direitos Humanos.

O poder de atenuar as diferenças e unir as pessoas, que é reconhecido ao futebol, tem pouco para oferecer aos sírios, na situação desesperada que estes vivem. O campeonato nacional está suspenso devido à violência que assola o país, e várias dezenas de futebolistas viram-se obrigados a deixar a Síria, para poderem prosseguir a carreira. E, no entanto, a realidade por vezes supera a melhor ficção. Porque um grupo de 20 rapazes, a maioria deles na casa dos 20 e poucos anos, colocou o país nas notícias por outros motivos que não o conflito.

Mesmo que apenas por alguns - breves - instantes, ninguém falou de bombardeamentos ou de corpos amontoados nas ruas. O combate na mente de toda a gente foi aquele entre duas equipas de 11 jogadores, travado num relvado. Mais especificamente, no Estádio Al-Sadaqua Walsalam, no Kuwait, palco da final do Campeonato da Federação da Ásia ocidental. Frente-a-frente estiveram Síria e Iraque. E, no final, pela primeira vez, venceram os sírios (1-0). A selecção síria já tinha estado duas vezes no encontro decisivo da competição (2000 e 2004, ambas perdidas para o Irão).

“Este é o primeiro grande torneio que a Síria ganha, e, tendo em conta que tivemos apenas um mês para nos prepararmos, é um feito que não pode ser menosprezado. Como capitão da equipa, senti-me extremamente orgulhoso por levantar o troféu”, confessou o guarda-redes Mosab Balhous à página oficial da FIFA na Internet. Balhous é parte da maioria na selecção: aqueles que continuam ligados a clubes sírios e, portanto, estão sem actividade. Apenas três dos seleccionados jogam foram do país: dois no Iraque e um no Kuwait.

A televisão estatal síria interrompeu a programação para anunciar a vitória da Síria no Campeonato da Ásia ocidental, e transmitiu a cerimónia de entrega do troféu em directo. Mas o triunfo foi recebido com sentimentos contraditórios, perceptíveis mesmo durante a final contra o Iraque: os adeptos sírios foram divididos por dois sectores do estádio, devido à possibilidade de desacatos. Algo que foi patente também nas redes sociais, lembrou a agência AFP: “Gooolo da equipa do regime sírio”, escreveu Abu Bilal no Facebook.

Mas esta não é uma opinião unânime, e houve futebolistas que fizeram questão de lembrar a situação que o país atravessa. “Quero oferecer esta vitória e este troféu ao povo sírio. Agradeço a deus por termos sido capazes de dar uma alegria às pessoas que estão a sofrer”, sublinhou Omar Al Soma, avançado que joga no Kuwait, citado pela agência Reuters.

A vitória da equipa orientada por Hosam Al Sayed no Campeonato da Ásia ocidental não travou a morte de civis na Síria. Não fez esquecer (como se tal fosse possível) a situação que assola o país. Mas, por alguns - breves - instantes, levou um raio de esperança aos milhares de sírios que lutam dia a dia pela própria vida. Foi só futebol, mas também foi muito mais que isso.

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