O Tour é um dos primeiros derrotados com caso Contador

A suspensão do tricampeão deixou o pelotão praticamente em silêncio. Ninguém sabe até onde podem ir os efeitos do castigo ao ciclista

Há um estranho silêncio a pairar no ciclismo mundial. Esperavam-se reacções em catadupa, opiniões pró e contra a mão pesada (ou leve, consoante as interpretações) da Real Federação Espanhola de Ciclismo (RFEC), um grande alarido nos meios de comunicação social e uma verdadeira ebulição em Espanha, mas, um dia depois de ser conhecida a proposta de suspensão por um ano de Alberto Contador e a consequente ausência no Tour 2011 e a perda da vitória de 2010, parece que nada aconteceu. O espanhol reage hoje, a equipa reage hoje, a União Ciclista Internacional (UCI) e a Agência Mundial Antidopagem reagirão não se sabe quando.

E a que se deve, afinal, esta aparente apatia, este pacto de silêncio estabelecido entre o pelotão e os meios de comunicação, sobretudo os espanhóis? Receio das consequências que o positivo de Contador abale ainda mais a credibilidade da modalidade já de si tão debilitada ou simples momento de expectativa para ver quão definitivo (ver caixa) é o parecer da comissão disciplinar da RFEC?

Provavelmente as duas respostas estão correcta, como reconheceu ao PÚBLICO Marco Chagas: "A própria comunicação social e o meio do desporto não se sentem à vontade para julgar este caso. Já começam a faltar argumentos. Os media pensam: "O que é que vamos escrever? Até que ponto é que vamos continuar com isto? O que é vamos dizer mais sobre este homem?"."

E, provavelmente também, haverá uma preocupação bem maior dentro do pelotão: quem é que vai ocupar o lugar de "El Pistolero"? É esse, talvez, o maior revés para o ciclismo, que em menos de uma semana perdeu as suas duas figuras maiores. Se com a despedida de Lance Armstrong o pelotão ficou com um enorme vazio - não há ninguém no panorama velocipédico actual com iguais níveis de popularidade, carisma e espectacularidade -, com o castigo de Contador o aspecto desportivo da modalidade está claramente comprometido.

O ciclismo sobreviverá?

Depois do sucesso que foi o Tour 2010, tido como o mais emocionante da década, muito por culpa da amizade tornada rivalidade tornada inimizade de Contador-Schleck, para 2011 não há "duo-maravilha". Andy, que por direito e por mérito também (o episódio da corrente que custou ao mais novo dos irmãos luxemburgueses a sua primeira amarela é o mais marcante da temporada passada) vai herdar o título da 97.ª edição da Grande Boucle, poderá fazer um passeio tranquilo até Paris. Despojado de uma das maiores rivalidades que a modalidade conheceu nos últimos anos e sem mais candidatos credíveis ao posto mais alto do pódio nos Campos Elísios , o grande derrotado pelos 50 picogramas de clembuterol (um estimulante), detectados na urina do espanhol no último dia de descanso da prova francesa, é o ciclismo.

Marco Chagas não tem dúvidas: a suspensão do espanhol é "um golpe muito rude" tanto para o desporto e para a modalidade como para a própria Volta à França. "A edição do ano passado foi das mais espectaculares dos últimos anos e com a ausência de Contador vai haver um corte de espectacularidade". A dúvida, para o antigo recordista de vitórias na Volta a Portugal, reside no facto de Schleck ser capaz de chegar facilmente ao triunfo: "Se olharmos para os resultados e tendo em conta que o terceiro classificado [Denis Menchov] não vai estar presente [a Geox não recebeu convite para o Tour], será o mais natural. Mas não sei".

Recordando que esta é a segunda vez que o madrileno fica fora do Tour (a primeira foi por decisão da direcção da prova), Chagas reconheceu que a "nuvem" que rodeia o caso pode deixar Contador sem margem de manobra - segundo o seu representante, Jacinto Vidarte, está deprimido e fechado num quarto de um hotel. "Pergunto-me se ele ainda terá alguma palavra a dizer no desporto", diz Chagas, confessando estar preocupado com as consequências que o caso terá a longo prazo. "Se lhe tirarem [ao ciclismo] as principais figuras, será muito difícil a modalidade sobreviver", concluiu.

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