Crítica

Uma voz off sempre on

A Manhã do Mundo

Na última década a avaliação da literatura, pelo menos em Portugal, tem sido reduzida a uma questão de "voz": um escritor tem de ter uma voz, não meia, não duas, não três, apenas uma. A propalada voz é quase sempre tomada pelo seu mínimo denominador comum: a melopeia que cria, o ritmo, a pontuação, as imagens que usa. De certo modo é como se se reduzisse a literatura ao seu aspecto formal imediato.

Mas "a" voz, neste sentido estrito, talvez seja sobrevalorizada. "A" voz é também a dimensão das frases que se usa (uma espécie de força de pulso, de rédea que um escritor tem sobre o seu próprio ritmo), o peso que atribui a cada palavra (o uso ou não de adjectivação, por exemplo), a noção de tempo que encerra (quando é que o presente de uma personagem é consequência do passado, por exemplo). E a "voz" pode e deve ser igualmente os temas mais caros a um autor, ou mesmo a sua capacidade de fazer cada personagem "falar" (respirar) de forma autónoma - não são raros os casos em que todas as personagens "falam" como o narrador, o que é sinal de que a "voz" abafou as personagens.

Não se pode dizer que Pedro Guilherme-Moreira, neste romance de estreia, não tenha uma "voz". Há um tema que atravessa todas as personagens, uma espécie de desespero comum a todas, de procura do momento em que se virou à esquerda quando se podia virar à direita e depois vive-se com as consequências. Há uma linguagem que podíamos apelidar de "cinematográfica", não só porque se seguem várias personagens entrecortando passado e presente de cada uma até os seus caminhos se cruzarem, mas também porque o próprio narrador, ao descrever algumas cenas, diz que a câmara agora segue para aqui ou para ali.

Nesse sentido quase se podia dizer que este narrador é uma voz "off" do cinema, que facilitam o avanço da narrativa ou promovem elipses ou fazem comentários sobre o que acabámos de ver. O problema é que esta voz nunca está "off" - não há um momento em que dê sossego às personagens e as deixe viver a sua vida, não há um momento em que deixe o leitor em paz para adivinhar o que se segue ou julgar o que está a ler. Não, esta voz - que demonstra constantemente a sua magnanimidade com as dores das personagens - está sempre presente. "A Manhã do Mundo" é, inicialmente, a história de cinco pessoas (Thea, Mark, Millard, Alice e Solomon) que saltaram das Torres Gémeas no dia 11 de Setembro de 2001. É igualmente a história de Ayda e do seu marido - ela uma mulher despedaçada por um segredo que se revela a meio do livro, ele um homem despedaçado pelo comportamento auto-fágico dela. Haverá, mais à frente, um twist narrativo que não vale a pena descerrar, para não estragar o pequeno prazer de quem lê pela primeira vez.

Histórias em que as personagens se cruzam são o pão-nosso da contemporaneidade. Nada contra. O problema está na falta de confiança da "voz" e no seu julgamento moral - note-se que desconfio que todos os grandes romancistas são moralistas; contudo, o que os torna grandes (julgo) é não conviverem bem com o seu próprio julgamento.

Veja-se a abertura do capítulo zero. Thea apresenta-se e diz que "por causa de uma provável sucessão de eventos" saltou. Depois lê-se: "A anatomia da minha motivação ser-vos-á franqueada adiante". Ora, é óbvio que a anatomia da motivação de uma personagem será franqueada adiante - difícil seria que antes de abrir um livro a anatomia da motivação da personagem já estivesse franqueada. E mesmo que ao encerrar o livro a anatomia da motivação da personagem não tenha sido franqueada isso não é obrigatoriamente um problema - presumo que Kafka e Beckett concordassem comigo. A frase serve para dizer ao leitor: "Olha, vão acontecer coisas. Não vás já ver a Anatomia de Grey, fica aqui só um bocadinho". Toda a literatura joga nisto, nesse alimentar das expectativas do leitor, de o manter tenso, à espera que caminhos paralelos se toquem. Contudo, não é preciso expô-lo de forma pornográfica para cada personagem - e frases como aquela aparecem a torto e a direita em todas as personagens. Sabemos que os livros só se resolvem no fim e que nos cabe aguentar a caminhada. Ou se tem a coragem de impor isso ao leitor ou não se tem.

No quarto parágrafo desse mesmo capítulo escreve-se que "poucos se lembram de que era uma bonita manhã de sol com aquela frescura que permite respirar melhor a promessa de felicidade. Para as vítimas desse dia, tal não foi irrelevante". Este tipo de acumulação de lugares-comuns em jeito de frase não abona em favor do tema. E também se poderia dizer que é estranho ver Thea dizer o que é ou não relevante para as restantes vítimas desse dia. Há um problema com a voz do narrador que nunca se decide entre estar com as personagens e evitar julgamentos ou ser omnisciente.

Exemplo da página 25: Ayda, no dia 12 de Setembro, enraivece-se com os que saltaram das Torres. Diz o narrador que ela "haveria de pagar um preço muito alto por tamanha insensatez". Mais uma vez a frase tenta manter o leitor atento (embora revele demasiado) mas acaba por fazer um julgamento precipitado: por que raio é insensatez? Ou, sendo-o, por que não optar por deixar a personagem exibi-la e o leitor apreciá-la? Ou simplesmente modular a voz do narrador, de modo a entrar e sair dos personagens - tarefa árdua, é claro.

Estes não são casos isolados. Falta a Pedro Guilherme-Moreia a noção de que informação pode ser transmitida, quando e como. Apenas duas páginas à frente o narrador comenta a vida de Mark e da mulher, qual ditirambo da bondade: "Mesmo que a vida lhes corra sem tumultos, vão demorar anos a perceber que o essencial não está no caldeirão, mas na cápsula do lar, num invólucro que exclui o ego dos outros". Porquê? Quem disse? Vem em que manual?

E é pena porque o que nos é posteriormente dado a conhecer das vidas das personagens mostra-nos que haveria um livro aqui. Alice, a menina prodígio negra que fugiu de tudo para poder ter vida, que se entregava a homens mas não se deixava penetrar, merecia mais tempo, mais espaço, mais fala. Pessoalmente gostaria de ter conhecido melhor esta mulher. (Não é piada.) Ayda, com todo o seu sofrimento, merecia mais tempo e menos julgamento. O marido, que se recusa a ir para trabalho enquanto o filho não acorda e fica a passar a mão pelos caracóis do filho (uma imagem comovente) idem. A história de Millard, o paquete cuja mulher foi atropelada, idem - e valia a pena ter insistido em todos os pequenos detalhes da via sacra que passou com a mulher.

Era aí que residiria a força do livro, não no twist narrativo, não na voz off que se impõe às personagens. Havia uma história aqui e foi desperdiçada.

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