Crítica

Um filme de género autor

Era Uma Vez na Anatólia

Nuri Bilge Ceylan assumindo-se como herdeiro de uma tradição, a do “cinema de autor

O pequeno ciclo que no Espaço Nimas, em Lisboa, organiza em torno da estreia de "Era uma vez na Anatólia" - dia 4, 21h30, "Uzak-Longínquo"; dia 5, 18h e 21h30, "Climas"; dia 6, 18h e 21h30, "Os Três Macacos" - pode servir como desenho do que se passou no cinema do turco Nuri Bilge Ceylan: algo de afectuoso e familiar - embora família e afectos estejam em perda nos filmes - progressivamente substituído por uma estratégia “autoral”.


O intimismo atmosférico de "Uzak" (Grande Prémio do Júri Cannes 2002), com o silêncio da neve em Istambul e o mundo e as relações às escuras, ou o vento de melancolia de "Clouds of May" (1999, ausente do ciclo) tacteavam uma espécie de autobiografia afectiva - actores e cenários eram muitas vezes membros da família e espaços da privacidade deste realizador, engenheiro de formação e ex-fotógrafo de publicidade.

Em "Clouds of May" a personagem era um cineasta, em Uzak um fotógrafo. Em qualquer dos casos métiers que supostamente levam à procura de uma relação com o outro mas que acabam por ser princípios de fechamento, de autismo (o que, retrospectivamente, não deixa de ser irónico tendo em conta o que depois aconteceu ao realizador Ceylan). Em "Climas" era o próprio Nuri a interpretar um marido ensimesmado, pouco atento à esposa, que era interpretada pela mulher de Nuri, a actriz e fotógrafa Ebru Ceylan. Isso convidava a perturbação e alguma auto-ironia (coisa que Ceylan nunca mostrara antes e que não voltou a mostrar depois) a instalar-se no jogo. Mas evidenciava-se também o calculismo de um estratega - como se este cinema começasse a ouvir menos a sua voz e a interessar-se sobretudo em responder com o seu próprio exibicionismo. A caricatura de um cineasta singular de prestígio empolado pelos festivais a filmar de acordo com o que dizem dele chegou a concretizar-se: Os Três Macacos (Prémio de Realização Cannes 2008), penosa decepção de ver um cineasta a assemelhar-se a um decorador de ambientes. "Era uma vez na Anatólia", e as suas três horas de deriva de uma equipa de médicos, inspectores da polícia e suspeitos de assassinato à volta de um cadáver, parece impedir, para já, mais danos colaterais no cinema de Ceylan. Suspendendo até a suspeita de falsidade que pairou sobre o seu trabalho sobretudo quando o filme toca na morte e as personagens ficam por ela tocadas. Mesmo se na primeira hora nada interesse ao realizador mais do que os efeitos das luzes dos carros a serpentearem pela noite ou uma peça de fruta a sofrer os caprichos da água num riacho - é como se, com o seu desenrolar, o plano-sequência se autonomizasse e assim se rasurasse a ligação orgânica e afectiva ao filme e às personagens. Mesmo se o título, Era uma vez na Anatólia, e a tentação de epopeia que aí se lê (e então Angelopoulos junta-se à marca de Antonioni no cinema do turco, como se ele fosse o representante desses deuses na terra) continuassem a dar sinais de uma arrogância sisuda. E dissessem sobretudo da vontade de Nuri Bilge Ceylan se assumir como herdeiro de uma tradição, a do “cinema de autor”. Para a qual contribui, então, com um filme de “género”: “autor”. Como quem disso faz uma recriação.

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