Terrence Malick é o mais aguardado

A competição onde estão os habitués, já não se livra: este é o ano de "Tree of Life", a história de uma família do Midwest americano nos anos 50, a partir do ponto de vista de uma criança

Quando, dia 16, às 8h30 da manhã, se fizer ouvir no Palácio dos Festivais os sons em cascata que acompanham as imagens de degraus que conduzem até uma Palma de Ouro - o clip que antecede sempre a apresentação de cada filme a concurso em Cannes -, vamos estar perante um "sinal"? Esse excerto pertence à banda sonora de "Dias do Paraíso"/"Days of Heaven" (1978), de Terrence Malick: "Le Carnaval ds animaux", de Saint-Saëns, com orquestração de Ennio Morricone. E é esse o dia em que Cannes vai ver o filme que Cannes esperou um ano para ver (esteve anunciado para a edição de 2010) e que é, de resto, um dos mais aguardados de 2011: "Tree of Life", de Terrence Malick. Filme que terá esperado muito mais, três décadas: diz-se que em "Tree of Life" - história de uma família do Midwest americano nos anos de 1950, o ponto de vista de uma criança, Jack, que em adulto é interpretado por Sean Penn (e Brad Pitt interpreta o pai do rapaz) - respira algo de um antigo projecto do realizador, dos anos de 1970, Q.

Um dos filmes em concurso nesta 64.ª edição concorre com muito do que é habitual na Croisette. De tal forma que se pode dizer que esta competição, que o júri presidido por Robert De Niro avaliará, peca pela previsibilidade: Pedro Almodóvar, com "La Piel que Habito", a reunião com Antonio Banderas, o actor que Pedro fez estrela, história de um cirurgião plástico que procura os homens que violaram a filha - nas imagens que se conhecem há uma frieza monstruosa que nos remete para um dos filmes mais mal-amados do realizador, "Kika; Melancholia", em que Lars von Trier se atira ao filme-catástrofe, colocando Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg perante a hipótese de colisão da Terra com outro planeta; "Habemus Papam", de Nanni Moretti, ou "Le Gamin au Vélo", dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, realizadores já premiados com a Palma - no primeiro, Moretti, que já foi um jovem pároco em "La Messa è Finita" (1995), é um psicólogo que ajuda o cardeal Michel Piccoli durante o conclave para decidir o novo Papa; ainda, os novos de Aki Kaurismaki ou Paolo Sorrentino - "This Must be the Place", com Sean Penn num velho músico em dificuldades e com um visual que podia ser o de um biopic de Robert Smith dos Cure, e ainda música de David Byrne e Will Oldham.

Duas primeiras obras intrometem-se nos habitués do concurso, Sleeping Beauty, de Julie Leigh, e Michael, de Markus Schleinzer, e veremos o que os programadores nos querem dizer com isso.

Expectativa para o novo de Alain Cavalier, Pater: depois da profusão diarística, íntima, de um cineasta que abandonou o cinema "convencional" (a seguir a "Therèse", em 1986), e de quem no ano passado vimos um vertiginoso "Irène", Cavalier e actor Vincent Lindon filmaram-se ao longo de um ano e inventaram uma ficção; esperemos que continue inclassificável.

"Sarko", antes de Bruni

Um vencedor da Palma de Ouro, Gus Van Sant ("Elephant", 2003), abre a secção paralela Un certain regard com Restless. Jovens e morte, teria de ser: uma adolescente com uma doença terminal, um rapaz que gosta de funerais e o fantasma de um piloto kamikaze da II Guerra Mundial. É nesta secção que estão os novos filmes dos coreanos Kim Ki-duk e Hong Sangsoo, ou Bruno Dumont (Hors Satan: a juventude, a morte e o Diabo).

Fora de competição, as antestreias de "Piratas das Caraíbas: Por Estranhas Marés", de Rob Marshall, "The Beaver", de Jodie Foster, com Mel Gibson, Les Bien-Aimées, de Christophe Honoré (Catherine Deneuve e a filha Chiara Mastroianni a cantarem e assim a encerrarem o festival a 22) ou "Midnight in Paris", de Woody Allen, na noite de abertura, hoje, e no mesmo dia nos ecrãs franceses.

Carla Bruni-Sarkozy, que tem uma pequena participação no filme, irá ou não a Cannes? A resposta foi conhecida ontem: não. Mas que não seja por isso: os Sarkozy (Nicolas e, hélas, a anterior mulher, Cecilia) são o tema de "La Conquête", de Xavier Durringer e Patrick Rotman (fora de competição). Que coloca o espectador à cabeceira de um casamento em crise e de uma corrida pelo poder. Dezenas de livros, entrevistas com jornalistas e participantes do "circo Sarkozy" durante a campanha eleitoral estiveram na base deste retrato de um homem que perde a mulher e conquista o poder. E como Sarkozy destapou sempre a sua vida privada, foi possível chegar à sua intimidade, reconheceu o argumentista Patrick Rotman. Cecilia falou, por exemplo. "Muitas pessoas vão ser surpreendidas pela violência e crueza da linguagem e do "meio"", reconheceu Patrick Rotman à AFP. "É preciso matar o outro e em política é com as palavras que se dispara." Mas, acrescenta: "Não há vontade alguma de denegrir; Nicholas Sarkozy é uma personagem tocante, enervante, sedutora, odiosa. Uma personalidade complexa, contraditória."

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