Quando os Panteras Negras pegaram em armas pela igualdade

Dois ex-dirigentes do Black Panther e um militante que esteve quase 30 anos em regime de solitária numa prisão norte-americana estiveram no Porto a recordar o legado do movimento que inflamou a juventude negra dos EUA na década de 1960

Uma impressiva pantera negra, em tamanho natural, adorna o passeio fronteiro ao estádio do Boavista, no Porto. Numa noite da semana passada, quem ali passasse um pouco depois das onze da noite, poderia ver um homem dos seus 70 anos montado na dita pantera, de braços abertos e rindo à gargalhada, enquanto outro, bastante mais novo, deitado com as costas no chão, o fotografava.

O homem sorridente chama-se Robert King e não é um veterano adepto do Boavista em romagem sentimental. Na verdade, o próprio facto de ser ainda capaz de se rir com um riso tão contagiante é digno de nota. King passou metade da sua vida na prisão, incluindo 29 anos em regime de solitária. Nunca ouvira falar do Boavista nem da sua claque, os Panteras Negras, mas divertiu-o vir encontrar no Porto o símbolo do seu antigo partido, o Black Panther Party, a organização de jovens negros americanos que, na segunda metade dos anos de 1960 e no início da década seguinte, deixou o FBI de J. Edgar Hoover à beira de um ataque de nervos.

O homem deitado no chão é Ricardo Gouveia, nome civil do muralista e artista de intervenção Rigo 23, há muito radicado em São Francisco, Califórnia, EUA. A ele se devem os contactos que permitiram a vinda a Portugal de Robert King e de dois outros activistas dos Black Panther (BP), nada menos do que os ex-ministros da Informação e da Cultura do partido, respectivamente Billy X Jennings e Emory Douglas. Este último é também um artista conceituado e o principal responsável pela poderosa dimensão gráfica dos BP, divulgada em murais e através do jornal do partido, que chegou a distribuir 250 mil exemplares por semana, embora os militantes inscritos nunca tenham ultrapassado os cinco mil.

Jennings, cujo "X", tal como o do célebre Malcolm X, evoca o tempo em que os escravos negros não tinham direito a nome de família, tornou-se uma espécie de arquivista do partido. Criou um site (www.itsabouttimebpp.com), com mais de cinco milhões de visitantes, e está empenhado em garantir que "os miúdos de hoje saibam o que realmente aconteceu" naqueles tempos.

Todos eles vieram a Portugal participar num programa dedicado aos Black Panthers pelo Museu de Serralves, integrado no ciclo de actividades que acompanha a exposição Às Artes, Cidadãos!

Além de uma retrospectiva da obra gráfica de Emory Douglas, Serralves apresentou um ciclo de filmes sobre os Black Panthers, que incluiu vários documentários filmados na época.

O ciclo integrou ainda alguns filmes recentes, como In the Land of the Free, de Vadim Jean, com narração de Samuel L. Jackson, que conta a história dos "Angola 3", um trio de ex-militantes dos BP encarcerados durante décadas na prisão Angola, no estado da Luisiana, que se chama assim por ter sido construída nos terrenos de uma vasta plantação onde outrora trabalhavam escravos negros vindos da ex-colónia portuguesa.

Os três de Angola

Dado que os presos são hoje obrigados a trabalhar nos campos que continuam a rodear o edifício, King argumenta que na prisão da Luisiana se continua a praticar "escravatura legal". E sabe do que fala, já que ele é um dos "três de Angola". Passou 29 anos em regime de solitária, acusado por uma testemunha de ter colaborado na morte de um outro detido.

O facto de o crime ter sido assumido por outro preso, que ilibou King, e de a testemunha em causa ser virtualmente cega, como veio posteriormente a demonstrar-se em tribunal, não o impediu de ser condenado. A sentença só foi revista em 2001, e King viu-se obrigado a declarar-se culpado de conspiração criminosa para conseguir o acordo judicial que levou à sua libertação.

"A prisão é a pior coisa do mundo, e estar em regime de solitária é uma humilhação, uma coisa na qual não se deve ver nenhum tipo de glamour". Confinado à sua cela de três metros por dois, 23 horas diárias, durante mais de dez mil dias, passava o tempo a ler, quando o deixavam, ou a jogar xadrez, num tabuleiro e figuras construído em papel. "Lia para me entreter, sobretudo textos teóricos e obras de Direito". Tornou-se, na verdade, uma espécie de advogado amador, auxiliando outros detidos a apresentar queixas.

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