O mapa imaginário de Tó Trips

Existe no dedilhar da guitarra de Tó Trips um mundo de sugestões para repartir.

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Com a guitarra Tó Trips devolve-nos o seu mapa afectivo e convida cada um a procurar o seu Rita Carmo

Imaginem uma ilha, agora deserta, mas onde durante séculos afluíram os mais diversos viajantes, provindos de diferentes paragens. Agora suponham que a esse lugar chegava um dia um guitarrista que, inspirado pelos vestígios deixados por esses caminhantes, começava a tocar intuitivamente e da sonoridade emanava uma emoção primordial, como quem partilha a descoberta de uma nova realidade. 

Foi mais ou menos esse o ponto de partida para Guitarra Makaka, segundo álbum a solo de Tó Trips dos Dead Combo, depois de Guitarra 66 de 2009. Falamos de uma ilha, mas poderia ser de Lisboa ou do Porto. Provavelmente não seria muito diferente. Aqui também há África, Américas e Europa, melancolia e júbilo, jardins exóticos e tardes cálidas passadas à soleira da porta. No fim de contas a música instrumental de Tó Trips é um convite ao devaneio e ao sonho. Cada um será capaz de desenhar nela o seu próprio mapa imaginário. 

Como antes dele fez Carlos Paredes, e como nos últimos anos têm também feito Norberto Lobo ou Filho da Mãe, existe no dedilhar da guitarra de Tó Trips um mundo de sugestões para repartir. Ao contrário do primeiro álbum, que procurava o silêncio e demorava-se na contemplação, aqui existe um sentido de experiência diferente: continua a sentir-se poesia, mas há um outro tipo de respiração, numa relação mais física com a guitarra, com um dedilhar mais incisivo e contínuo. 

Por vezes o som entra em crescendo, atingindo o céu azul claríssimo, outras vezes recolhe-se de forma mais arrastada. Mas em ambas as situações nunca se perde o impacto emocional e a respiração de um músico que parece emergir na sua guitarra, com um lamento aqui, um momento de satisfação ali, um soslaio de nostalgia acolá, devolvendo-nos o seu mapa afectivo e convidando cada um a procurar o seu. 

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