O diálogo de dois génios desesperados, Van Gogh e Antonin Artaud

Museu d'Orsay inaugura exposição que põe lado a lado pinturas de Van Gogh com os escritos de Antonin Artaud.

Dois génios separados pelo tempo que agora se encontram no Museu d'Orsay, em Paris. Dois homens atormentados que, de formas diferentes, decidiram pôr um fim à vida. Van Gogh/Artaud. The Man Suicided by Society é a exposição, inaugurada esta terça-feira, que confronta a arte de Van Gogh (1853-1890) com a escrita de Antonin Artaud (1896-1948).

Uns dias antes da abertura de uma exposição de Van Gogh em Paris, em 1947, o galerista Pierre Loeb pediu a Antonin Artaud que escrevesse sobre o pintor. Recuperando agora essas palavras, o Museu d'Orsay apresenta 45 pinturas e sete desenhos de Van Gogh ao lado dos textos do poeta e dramaturgo. “Uma proeza”, diz à AFP Guy Cogeval, presidente do museu francês, que conseguiu que as obras viajassem para Paris. Grande parte das pinturas expostas está emprestada por outras instituições como o Museu Van Gogh, em Amesterdão.

O objectivo da exposição, explica Guy Cogeval, é dar a conhecer ao público “duas obras maiores”. “Acreditamos que conhecemos Van Gogh, um dos pintores mais admirados pelo público nos cinco continentes, mas essa admiração repousa em alguns equívocos”, continua o presidente do Museu d’Orsay, explicando que “Artaud escreveu um livro magistral sobre o pintor”. “E esse livro lembra-nos a condição essencial da pintura de Van Gogh, obra de um génio atormentado.”

É sabido que o pintor tinha vários problemas, tendo acabado por se suicidar em Auvers-sur-Oise, em França, a 29 de Julho de 1890. Tinha apenas 37 anos quando pôs fim à vida com um tiro no peito.

“Não, Van Gogh não era louco”, garantia num dos seus escritos Antonin Artaud, que acusava a sociedade de ter levado o pintor ao desespero e ao seu consequente suicídio. “Ele não era louco, mas as suas pinturas eram fogo grego, bombas atómicas, cujo ângulo de visão, ao lado de todas as outras pinturas, eram capazes de perturbar seriamente o conformismo larvar da burguesia”, defendia então o escritor e dramaturgo, que passou anos internado em manicómios.

Talvez por isso, a noção de loucura era um dos temas que mais abordava e Van Gogh uma figura muito presente no seu discurso e trabalho. Ao livro que escreveu sobre o pintor, Artaud deu o título de Van Gogh: O Suicidado pela Sociedade. Antonin Artaud morreu pouco depois da exposição que viu de Van Gogh. Foi em 1948, estava doente, sofria de cancro, mas terá morrido de uma dose excessiva de sedativos. “Porque não somos nós todos como o pobre Van Gogh, uns suicidados da sociedade?”, escrevia então o atormentado dramaturgo.

 A exposição de Paris está aberta ao público até ao dia 6 de Julho.

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