James Gandolfini (1961-2013): adeus, Tony Soprano

O actor morreu subitamente em Itália, aos 51 anos de idade. Será sempre recordado pelo mafioso deprimido que compôs em Os Sopranos.

James Gandolfini “era um génio, um dos maiores actores do nosso tempo”. O elogio ao actor que ficou conhecido como Tony Soprano, falecido na quarta-feira, aos 51 anos de idade, é sentido e vem do homem que lhe deu o papel que mudou a sua vida: David Chase, criador de Os Sopranos, a série que deu o tiro de arranque para a nova “época de ouro” da ficção televisiva americana.

Gandolfini estava de férias em Itália com a família, antes de participar este fim-de-semana num debate no festival de cinema de Taormina, e terá sofrido um ataque cardíaco. A notícia, entretanto confirmada pelos seus empresários e pelo canal HBO, apanhou as redes sociais de surpresa e a quantidade de reacções instantâneas de colegas de trabalho e actores dá bem a medida da sua popularidade.

O actor Jeff Daniels, com quem Gandolfini contracenou numa encenação teatral de O Deus da Carnificina, de Yasmina Reza, chamou-lhe o equivalente, na Broadway, “do tipo que queremos ter ao nosso lado na trincheira”. “ Fizemos 320 representações e ele nunca faltou a nenhuma. Tenho saudades dele como de um irmão.” 

Steven van Zandt, o guitarrista de Bruce Springsteen que interpretava um dos seus acólitos em Os Sopranos, disse ter perdido “um irmão e um melhor amigo”. “Grande parte do seu génio estava naqueles olhos tristes”, disse Chase num comunicado. “Lembro-me de lhe dizer imensas vezes: 'Tu não estás bem a ver, é como se fosses Mozart'. Do outro lado da linha só se ouvia silêncio.”

Gandolfini, no entanto, confessara em tempos à revista Newsweek que não tinha grandes esperanças de ficar com o papel. Quando fez a audição para a série, centrada na vida de um chefe mafioso de Nova Jérsia que começa a fazer psicoterapia, pensou que Tony Soprano iria ser entregue a um actor “mais atraente”. Chase escolheu-o a ele, e Gandolfini foi nomeado para o Emmy de melhor actor numa série dramática por seis vezes durante as seis temporadas que Os Sopranos duraram, entre 1999 e 2007, ganhando três estatuetas.

À imagem do Tony mafioso, o actor era natural da Nova Jérsia, onde a série decorria, e era filho de emigrantes italianos. Licenciado em Ciências da Comunicação, só se interessou tardiamente pela representação, aos 25 anos de idade. Alternando teatro e cinema, foi somando papéis secundários de composição, maioritariamente de gangster, em filmes como Amor à Queima-Roupa, Maré Vermelha ou Jogos Quase Perigosos.
 
Dez anos como Tony
Mas foram Os Sopranos que o catapultaram, literalmente, para o estrelato, num daqueles casos de personagem que se “cola” ao actor. E os seus primeiros grandes papéis no cinema após o arranque da série foram uma subversão dessa imagem. Em A Mexicana, de Gore Verbinski, contracenando com Brad Pitt e Julia Roberts, interpretava um assassino contratado que assumia a sua homossexualidade; em O Barbeiro, dos irmãos Coen, era um empresário de uma cidadezinha dos anos 1950.

Depois do final de Os Sopranos, em 2007, Gandolfini rodou – sempre em papéis secundários – filmes tão distintos como Assalto ao Metro 123, de Tony Scott, Mata-os Suavemente, de Andrew Dominik, 00.30 a Hora Negra, de Kathryn Bigelow, e Not Fade Away, o primeiro filme de David Chase. Terminara havia pouco as rodagens de dois filmes – Enough Said, de Nicole Holofcener, e Animal Rescue, de Michael Roskem – e da versão americana da série da BBC Criminal Justice, que a HBO deverá exibir em breve.

É, no entanto, pelo mafioso deprimido que Gandolfini será sempre recordado. Uma personagem que, ao fim de dez anos, estava contente por abandonar. “Foi uma oportunidade fantástica, mas não me causa muito transtorno que chegue ao fim”, disse numa entrevista em 2007. “Já não sei para onde mais levar a personagem. Passei dez anos no mesmo sítio. Já chega. É altura de ir fazer outras coisas.” 


 
 

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