Um duelo que é também uma celebração musical

Moullinex contra Batida, DJ Ride contra Branko, Bonga contra Kalaf, Legendary Tigerman contra Carlão. A Red Bull Music Academy Culture Clash chega esta quinta-feira ao Coliseu.

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Batida + Kambas
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Moullinex Live Machine
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A Matilha
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Club Atlas

Esta terça-feira entrava-se no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e ainda reinava o silêncio. Quatro palcos a cada um dos cantos da plateia em fase de montagem, enquanto o palco principal da sala era esvaziado. É ali que vai estar esta noite quem adquirir os bilhetes mais caros, a 30 euros, para a primeira edição portuguesa da Red Bull Music Academy Culture Clash, com direito a participar numa festa exclusiva no fim. Horas antes, às 20h30, quando os espectadores entrarem na sala, dificilmente a reconhecerão. E o silêncio terá sido substituído por grande excitação, com músicos, DJ, cantores ou bailarinos, agrupados em colectivos e sistemas de som, competindo entre si pelos favores do público numa celebração em que som, encenação e performance andarão a par. No final, quem decide o vencedor é o auditório, com o sonómetro a medir os decibéis das ovações.

Os colectivos em combate, que se disputará em quatro rondas, são constituídos por figuras conhecidas da música portuguesa. O Club Atlas, direccionado para o caldeirão global das músicas urbanas, é liderado por João Barbosa, ou seja Branko, tendo ao lado outros nomes da família Buraka Som Sistema (Kalaf, Riot e Pongolove), para além de Carlão (ex-Da Weasel) e Fred Ferreira (Orelha Negra). Na Moullinex Live Machine, que promove encontros entre as electrónicas e o disco ou o rock, juntam-se aos dois representantes da editora Discotexas, Moullinex e Xinobi, os reforços Da Chick e Legendary Tigerman. A Matilha, mais virada para o hip-hop e para o apuro técnico na manipulação do gira-discos, é liderada por DJ Ride, tendo ao seu lado Jimmy P e os MGDRV. Por fim o colectivo Batida + Kambas, que promete ginga na sala e um balanço físico afro-luso, inclui Pedro Coquenão (Batida), DJ Satélite, Karlon (Nigga Poison), os bailarinos André e Gonçalo Cabral e Bernardino Tavaresos, além de Bonga, o grande ícone angolano. Além dos participantes oficiais, haverá também convidados-surpresa; a dirigir e a dinamizar a cerimónia estarão a fadista Gisela João e Alex Teixeira, dos D’Alva.

O conceito, devidamente readaptado, tem origem nas batalhas sonoras dos sistemas de som jamaicanos ou, posteriormente, da cultura hip-hop. "No final espero que ganhe o melhor e que todos continuem amigos", diz-nos entre risos João Barbosa, ou seja, Branko, que não duvida que a ideia tem tudo para entusiasmar. “O mais emocionante é ser ao vivo, no momento, ali. Numa altura em que tudo é tão virtual, raramente existe a oportunidade de partilhar em palco um momento como este. E a participação do público é capital, transmitindo o que sente.” Musicalmente, diz, não serão apresentados temas já conhecidos, pelo menos no formato original. “A ideia é mostrar temas que sofreram recriações ou exclusivos que nunca chegaram a sair oficialmente.”

Um compromisso entre o lado cénico, a performance e o som é aquilo que promete Pedro Coquenão. Para o efeito convidou pessoas de quem é cúmplice, do ponto de vista humano ou artístico. “Sinto o dever de rodear-me de outros artistas em que sinto potencial”, diz ele, falando do angolano DJ Satélite. “Está há um ano em Lisboa e desde então temos falado do som da cidade, das influências e do diálogo com Luanda, e reconheço nele uma consistência inabalável no kuduro ou afro-house. O mesmo com o Karlon. Interessa-me a atitude dele e a sua evolução como artista. O facto de ambos irem apresentar música nova é um privilégio. Os mesmos princípios foram aplicados aos convites endereços aos bailarinos. “A dança sempre fez parte dos colectivos e achei que fazia sentido destacar representantes dessa arte.” Já o convite a Bonga tem história. “É uma lenda, uma figura icónica, como tal convidei-o para ser o convidado secreto, mas depois resolveu integrar mesmo o colectivo e tem trabalhado connosco desde então.”

De todos os envolvidos, DJ Ride é talvez o que está mais próximo da cultura hip-hop em todas as suas vertentes, e assume-o. Mas não se fica por aí, nomeando linguagens como o drum'n'bass ou o dubstep como chaves importantes para se perceber o que o seu colectivo irá proporcionar. No fim de contas vão estar representadas diversas famílias da chamada música de dança portuguesa e essa já é uma grande vitória, resume Luís Clara Gomes, líder da Moullinex Live Machine, que tocará toda a sua música ao vivo. “Mais do que uma competição, o que vamos ter é uma celebração colectiva da música electrónica feita em Portugal”, sintetiza. “São quatro colectivos com sonoridades, estéticas e abordagens à música e ao espectáculo diferentes, e por isso, mais do que um vencedor individual, já existe um vencedor colectivo que é a oportunidade de se criar algo novo sem a atitude predatória dos habituais concursos de música.”

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