Crítica

Duas Mulheres

Duas Mulheres

Ponto prévio: era tão bom que tantos cineastas (e não só portugueses) fossem capazes de filmar como João Mário Grilo, colocando a câmara e a "mise-en-scène" ao serviço da história que se quer contar, com uma sobriedade tanto mais admirável quanto rara. Não estamos a falar de mero funcionalismo anónimo, e no entanto, "Duas Mulheres", primeira ficção de longa-metragem do cineasta, professor e crítico em dez anos, é um filme estranhamente frio e distante, exercício aplicado e cerebral mais do que o drama vibrante que se esconde por entre o guião. Na verdade, a chave é a personagem central, Joana, psiquiatra com dificuldades em extravasar as suas emoções, casada com um financeiro poderoso mas perturbada por uma jovem "call girl" que surge nas urgências e com a qual desenvolve uma relação lésbica. Beatriz Batarda é impecável na gestão das emoções complicadas que o papel lhe pede, mas a câmara de Grilo não é capaz de a acompanhar na transição da frieza para a sensualidade, e fica sempre a sensação de que está mais interessado nisso do que no complexo xadrez político-económico que o guião de Tereza Coelho e Rui Cardoso Martins desenha sem esforço. Isso faz de "Duas Mulheres" um filme que não cumpre por inteiro as suas promessas e deixa um travo meio amargo através de alguns "saltos" narrativos um pouco abruptos e, sobretudo, da dispensável coda final.

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