Debaixo da Pele

A experiência de Jonathan Glazer em redor do corpo de Scarlett Johansson é uma afectação. Pode-se imaginar que para a actriz deve haver qualquer coisa de desafiante em passar um filme a tentar ser não uma personagem, mas um “it” - e, na verdade, falhar completamente. Bowie também foi uma “it girl” em O Homem que Veio do Espaço, de Nicolas Roeg (1976), e esse cineasta e essa tradição do cinema britânico (e ainda Ken Russell) são para aqui chamados para filiar o trabalho do publicitário e do realizador de (notáveis) videoclips (Massive Attack, Radiohead...) que adaptou o romance de Michael Faber sobre uma alienígena que anda à caça, através dos corpos dos outros, da sua humanidade. Glazer tornava intrigantemente atmosféricos pedaços de Birth (2004), a sua anterior longa-metragem. Em Debaixo da Pele quer estender a experiência sensorial por todo um filme - anulando, como explicou, os picos e rugosidades de plot do livro. O resultado é um videoclip clínico sem música. Até o voyeurismo pelo corpo de Scarlett (poderia ser uma forma perversa de reforçar a condição de “it girl” de quem ambiciona ser actriz) é bastante domesticado e serôdio. Glazer não tem ferocidade para esse corpo. Nem a visceral excentricidade, para o bem e para o mal, de Roeg ou Russell.

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