A 'Bíblia' da arte cokwe em Angola

Estudo histórico da belga Marie-Louise Bastin foi agora reeditado em português. É hoje lançado em Luanda, numa conferência internacional em que se irá falar da arte singular deste povo do Nordeste angolano que também esculpiu o seu Pensador

À imagem daquilo que se costuma perguntar relativamente à cabra prenhe de Picasso e de Rosa Ramalho, será que Auguste Rodin (1840-1917) terá conhecido a estatueta mais famosa do artesanato angolano antes de esculpir o Pensador?

Nuno Porto, professor da Universidade de Coimbra e investigador da arte angolana, acha que não. Admite até que terá sido mais "por analogia" que àquela estatueta tradicional africana se atribuiu o nome da famosa peça do escultor francês. O Pensador, a figura estilizada de um homem sentado que impressiona pela harmonia e simetria das suas linhas, é normalmente identificado como o ícone da arte popular de Angola - algo equivalente ao nosso Zé Povinho, ou ao Tio Sam americano... Não sendo possível determinar no tempo a sua origem, Nuno Porto diz que ela deverá "remontar à época pré-colonial", ou seja, antes do Congresso de Berlim de 1884-5, quando as potências coloniais europeias traçaram o "seu" mapa de África. Mas há também quem veja este Pensador como o resultado da própria presença colonial em Angola, quando, em meados do século XX, no Museu do Dundu, no Nordeste do país, os responsáveis da empresa Diamang incentivaram os artesãos locais a fabricarem essas peças que depois eram exportadas como símbolo da arte nativa.

Independentemente da indefinição das origens, a arte popular angolana tem um perfil bem vincado no nosso imaginário através dessas figuras estilizadas de homens e mulheres sempre próximas da terra, e também através das suas máscaras. Mas à sua divulgação internacional está igualmente ligada a antropóloga belga Marie-Louise Bastin (1918-2000), que na década de 1950 viveu longos períodos no Norte de Angola a estudar a arte local. Como resultado desse trabalho publicou um monumental estudo sobre a Art Décoratif Cokwe, que é ainda hoje vista como uma espécie de "Bíblia" sobre o tema. Editada em 1961, em Lisboa, pela Diamang, mas exclusivamente em língua francesa, esta obra em dois volumes acabou por ter uma circulação restrita nos meios académicos. 

Arte Decorativa Cokwe foi agora reeditado, em língua portuguesa, numa iniciativa do Museu do Dundu, em Angola, e do Museu Antropológico da Universidade de Coimbra, com o patrocínio da ESCOM (Grupo Espírito Santo).

A assinalar o lançamento da reedição, realiza-se hoje e amanhã, em Luanda, uma conferência internacional sobre A arte na sociedade cokwe e nas comunidades circunvizinhas, em que participam vários especialistas angolanos, portugueses e de outros países.

Um continente de arte

Numa introdução ao livro, Manuel Laranjeira Rodrigues de Areia, da Universidade de Coimbra, diz que a obra de Marie-Louise Bastin tem uma "actualidade indiscutível", que resulta tanto do facto de a primeira edição ter tido uma divulgação limitada e se encontrar indisponível, como, e principalmente, porque "nunca ninguém levou tão longe um estudo sobre arte cokwe até à minúcia dos processos sociais e culturais que lhe estão subjacentes".

Ao P2, Nuno Porto - que será um dos oradores em Luanda, onde irá precisamente falar da Arte e etnografia Cockwe, antes e depois de Marie-Louise Bastin - releva o facto de este ter sido um estudo feito num determinado contexto temporal e colonial, mas é indesmentível que "não existe nada que lhe seja comparável", nem sobre as produções culturais artísticas dos outros povos angolanos - que Bastin também estudou -, nem de qualquer outro país africano de expressão portuguesa.

O trabalho de Bastin foi realizado a partir do espólio que a investigadora foi encontrar no Museu do Dundu na província de Lunda Norte, no Nordeste de Angola, perto da fronteira com o ex-Congo Belga (actual República Democrática do Congo), e que é um território especialmente rico em ouro e diamantes (e que esteve na origem da Diamang). É um território maioritariamente habitado pelo povo cokwe, que aí chegou do sul no século XIX. Nas suas páginas, Bastin cita a descrição feita pelos exploradores portugueses Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, quando, em 1787, se encontraram com Ndumba Tembo, um grande chefe cokwe. "Vestido com um tecido listado cingido por um cinto de couro a segurar uma pequena pele de antílope, com uma coroa de latão a fazer lembrar as dos monarcas europeus"... Sobre as criações deste povo, a investigadora (que depois viveria e trabalharia também em Lisboa), escreve que "a arte honorífica do escultor transmite-se, por vezes, de geração em geração nas famílias que a praticam. O essencial deste trabalho é de ordem funcional. O artesão é requisitado para a confecção de figuras rituais, mahamba e máscaras, akixi, mas também de objectos usuais".

A associação da criação artística destes povos com as exigências da sua vida quotidiana está profusamente documentada nas mais de 550 páginas que constituem os dois volumes de Arte Decorativa Cokwe, um dos quais é um extenso catálogo interpretativo das peças que fazem a riqueza desta cultura: cestos, cabaças, cerâmica, potes de mandioca, almofarizes, espátulas decoradas com cabeças de mulher, bastões com figuras de homem, bengalas de aparato, mocas, bastões de autoridade, lanças, machadas e machadinhas, facas, bainhas e espingardas, cachimbos e caixas de rapé, enxota-moscas, cintos, pentes e pregos de cabelo, bancos e cadeiras, assobios, quissanjes e tambores, máscaras e esculturas... Todo um continente de arte.

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