A arte urbana de peito aberto numa galeria

Dada a encontros fortuitos ou clandestinos, a arte urbana mostra-se até 15 de Janeiro na galeria Vera Cortês, em Lisboa. Com graffitis, stencils, pinturas nas paredes, telas e esculturas de artistas nacionais, "Underdogs". A arte feita na rua já tem uma história.

Para ver a melhor arte urbana portuguesa há, normalmente, duas formas. Ou se está dentro do meio e, com essa vantagem, facilmente se chega aos lugares onde as obras repousam (ruas, edifícios, cidades). Ou, sem mapa, deixa-se ao acaso e o ao tempo a tarefa de ditar os encontros. Enfim, confia-se na generosidade do quotidiano. Ora, a partir de amanhã, e até Janeiro, existe outra forma, mais simples e imediata: "Underdogs", na Galeria Vera Cortês, em Lisboa, com trabalhos de ±, Adres, Kusca, Mar, Obey, Ram, Smart Bastard, Sphiza, Tosco e Vhils (também conhecido como Alexandre Farto).

Não se trata da apresentação de um grupo de artistas ou de uma mera exposição. Antes, do primeiro momento de um projecto com um objectivo específico: criar uma plataforma, no espaço da arte contemporânea, para as novas linguagens da arte urbana. Falamos do graffiti, do stencil e (não sabiam?) da fotografia, da escultura e até do vídeo. E Vera Cortês e Vhils, os criadores de "Underdogs", adiantam outras iniciativas: uma selecção de múltiplos do estúdio londrino Picture On Walls, e um livro, com lançamento antes do fim da mostra, do jornalista e autor Miguel Moore sobre a história destas artes nas ruas portuguesas. "Começa pelos murais políticos do pós-25 de Abril, passa pelo graffiti influenciado pelo hip-hop e chega até à street-art actual e serve para contextualizar o aparecimento dos artistas desta exposição", revela  Vhils. "Eles têm pontos de ligação. Não através do tag ou do graffiti, mas de uma cultura visual comum dominada pela publicidade, a televisão ou a Internet".

A ironia do nome "Underdogs" evoca, sem desgostos, velhas e ressuscitadas fronteiras: "A arte urbana sempre foi marginalizada pelas instituições, vista como uma forma menor de arte, distante das galerias. E [o nome] assume isso. Ao mesmo tempo remete para trabalhos que se fazem há quase 15 ou 20 anos, com investimento próprio dos artistas, sem apoios exteriores". Vera Cortês contrapõe com uma opinião menos dramática: "Não houve durante esse período uma aproximação desses artistas às galerias. Há 15 anos o mercado era muito diferente".

Comunicação e activismo

Com efeito, as parangonas que algumas publicações têm dedicado a Bansky, a estrela britânica da arte urbana (vende em leilões e foi objecto do documentário "Exit through the gift shop", com estreia prevista em Portugal), parecem assinalar o regresso de uma relação pouco animada desde os graffitis de Jean-Michel Basquiat ou Keith Haring, embora não esgotada (se pensarmos no campo da arte contemporânea portuguesa, sobressaem as intervenções de Rigo 23 em espaços públicos). "Underdogs", no entanto, sugere outras filiações - as das subculturas musicais, da street culture, da BD undergound, da arte de protesto - e tem como elemento central um conceito pouco caro à arte contemporânea: a comunicação. "Os artistas que estão aqui usam a rua como suporte. Intervêm num espaço onde passam milhares de pessoas todos os dias, que tem um público gigante. E isso nota-se nas peças. Algumas têm conceitos mais elaborados, a maioria procura comunicar, tem uma mensagem". Ilustram essa urgência os jogos de linguagem dos stencils de ± ("Perda Filosofal"), as figuras poéticas de Adres, ou a recuperação de ícones da cultura portuguesa por parte de Kusca (Camões, Beatriz Costa, Fernando Pessoa).

Outro traço da arte urbana é o envolvimento com as comunidades, a vontade de intervir nos contextos sociais. Vhils quer dar um exemplo e abre as páginas de um catálogo para mostrar o que J.R., artista francês, fez às fachadas de um favela na Libéria: "Pintou-as com os rostos e os olhos dos seus habitantes. Mostrou para o exterior quem são as pessoas que aqui vivem. E criou actividades de intervenção social dirigidas aos habitantes. Nesse aspecto, a arte urbana aproxima-se do activismo. E não me incomoda essa proximidade". O próprio já a experimentou quando integrou um projecto de graffiti no bairro da Arrentela: "Era um dos mais problemáticos da Margem Sul. Reuni-me com o [rapper] Chullage e desenvolvemos um projecto de reinserção para tirar os miúdos da rua. Depois fiz o mesmo na Amadora e no bairro de Alagoas, na Régua, com o Ram e o Mar, onde pintámos o bairro todo. Ainda hoje está como o deixámos, fizemos do graffiti uma forma das pessoas comunicarem com o exterior. E julgo que dei às pessoas um pouco do que ganho e invisto como artista". Mas não deve ser menosprezado um factor, sublinha Vera Cortês: "É obrigatório para este tipo de trabalho o envolvimento da população. Projectos mais alargados implicam uma colaboração entre os artistas e as comunidades".

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.