Corpos em sacrifício, falsas inocências e uma grande, grande, grande peça

joão peixoto

A Ballet Story Victor Hugo Pontes

Island of no memories Kaori Ito

For Rent Peeping Tom

Festival GUIdance, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, 9, 10 e 11 Fevereiro, 22h. Salas cheias

A Ballet Story, de Victor Hugo Pontes, é uma grande peça logo desde os primeiros momentos, marcando de forma indelével o ano e transformando-se no primeiro grande momento coreográfico de 2012. Um corpo deitado numa plataforma ondulada (recuperação adequadíssima do belíssimo cenário de F. Ribeiro, feito para As Três Irmãs, de Nuno Cardoso, que parece suspensa, aguarda que a música invada um espaço sem fronteiras e delimitações.

O corpo do bailarino parece abandonado, e irá parecê-lo muitas vezes, mal disfarçando uma força e uma energia que lhe irá servir, ao longo do tempo, para, com outros corpos, hesitarem numa reacção em massa ou individual a uma composição musical exigente, violenta, por vezes esgotante. Será assim até que os bailarinos desistam de lutar contra a música e recusem, por fim, a pressão que era exercida por uma composição que os manietava.

O diálogo que se vai estabelecendo em palco entre a Fundação Orquestra Estúdio, conduzida por Rui Massena, e o extraordinário elenco de bailarinos - convém fixar-lhes o nome: André Mendes, Elisabete Magalhães, Joana Castro, João Dias, Ricardo Pereira, Valter Fernandes e Vitor Kpez -, oferece-se como um notável exercício de desmontagem do próprio movimento, sugerindo uma coreografia feita a partir da resistência, da exaustão e da superação de dificuldades criadas pela natural execução do movimento. Como se fosse um grande braço-de-ferro entre movimento e música, como se fosse afinal uma continuação de toda a base da dança clássica. A Ballet Story mostra Victor Hugo Pontes a reagir à partitura de David Chesky, recusando a narrativa onírica e a linearidade limitativa pretendida pelo compositor e jogando, a partir da ideia de corpo de baile do bailado clássico, com as ideias de indivíduo e comunidade. Ou seja, oferecendo os corpos dos bailarinos em sacrifício, trabalha as ideias de diferença e norma numa coreografia feita de movimentos que demoram a instalar-se, num gesto de mutação que os vai ampliando, revelando as diferentes camadas que os compõem e que poderão ser usadas como factor de resiliência, gerida a partir da força anímica e filigrânica do movimento em uníssono.

Será, precisamente, por estas razões, que peças como Island of no memories, de Kaori Ito, e For Rent, do colectivo Peeping Tom, falham no seu desejo de instalação de um ambiente, acumulando em vez de subtraírem, como tão bem, e de forma tão pouco evidente, é trabalhado em A Ballet Story. Uma e outra peça, acusando a máquina flamenga de fabricação de objectos indefinidos, onde a dança namora com o teatro mas, sobretudo, onde a premeditação se impõe à liberdade narrativa que querem sugerir. No caso da peça de Kaori Ito, os três intérpretes surgem como figuras-ilhas que procuram materializar conceitos tão vagos, e tão individuais, como medo, memória e indiferença. Mas o modo como o fazem, demasiado caricatural e artificioso, revela um desejo de enclausuramento dessas mesmas definições num corpo falsamente inocente.

Em For Rent podemos até impressionar-nos com o cenário, que reproduz um hotel habitado por diferentes personagens, mas, porque são pouco definidas, esperam que nelas projectemos um conjunto de expectativas, seja no plano narrativo ou visual. Se é conseguido esse enleamento, essa falsa partilha, cúmplice com o espectador, de pouco servirá quando a história que parecem querer contar - feita da errância das personagens e do cruzamento humorado de algumas delas - mostra, afinal, uma máquina a viver da sua própria fórmula: cheia de efeitos visuais, de números de exibicionismo vocal e coreográfico e de um falso desprendimento narrativo.

Tiago Bartolomeu Costa O P2 viajou a convite do GUIdance

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