O cinema de Hollywood e as experiências do underground. Música pop, música clássica e ópera. Impressões de Nova Iorque, Europa, África ou do Médio-Oriente. Espaços públicos e momentos privados.
Tudo isto faz parte do cinema aberto, frágil e apaixonado de Warren Sonbert (1947-1995), que a Cinemateca Portuguesa revela a público português até ao próximo dia 14. Mas quem foi este cineasta que ainda adolescente se destacou com Amphetamine (1966), filme de uma provocadora languidez (rapazes drogam-se e beijam-se ao som de Where did our love go, das Supremes)? Pese embora um intenso protagonismo até anos 1990, e as retrospectivas que o seu trabalho mereceu, quando pensamos em cinema experimental não recordamos o seu nome. Uma injustiça perfeitamente reparável, nas palavras de Jon Gartenberg, organizador do ciclo e arquivista americano da história do cinema e filmes de vanguarda. “A presença da sua voz e visão na história do cinema experimental é inegável, é um autor tão importante como o Ken Jacobs ou Stan Brakhage, sobretudo pelo como modo como explorava a ideia de edição e montagem”. “Carriage Trade” (dia 11, 18h), obra de 1972, que Jonas Mekas apelidou de “filme-canto”, com imagem recolhidas ao na Europa, Ásia, Africa e Estados Unidos, ilustra muito bem esta asserção: “As imagens são de lugares diferentes, mas ele associou-as através do gesto humano, das texturas, das cores. É isso que as põe em relação para criar uma espécie de sinfonia global que era sua visão do mundo”.
Na visão do mundo de Warren Sonbert, homossexual e jovem prodígio do cinema underground dos anos 1960 (gravitou em torno da “família” de Andy Warhol) cabe uma multitude de sons, imagens, referências, sempre justapostas, desvelando-se num processo delicado, evocativo e não linear. A música pop, em particular a da Motown (mas não só) escorre lentamente sobre vários filmes, amplificando sem irrisão o que as imagens figuram: os beijos de Amphetmanine (dia 10, 18h), os gestos dos jovens casais de The Bad and The Beautiful. (dia 10, 18h), um dos melhores filmes do ciclo) ou os encontros e as situações que povoam The Tenth Legion (dia 11, 18h). Já o cinema de Hollywood surge “representado” de um modo mais oblíquo, em fugazes metonímias. Nas imagens dos casamentos e dos casais (um dos motivos recorrente de Warren Sonbert), enquanto promessas de histórias de amor, (de novo) nos gestos (o abraço apaixonado de Amphetamine é uma citação de Vertigo, de Hitchcock) ou na própria estrutura do filme (a montagem de Noblesse Oblige (dia 10, 18h) foi realizada a partir de The Tarnished Angels, de Douglas Sirk)
“Ele estudou muito bem a estrutura dos filmes Hollywood. Era um amante do cinema clássico. Escreveu sobre Hitchcock e Douglas Sirk”, lembra Jon Gartenberg, “mas preferiu trabalhar com um estrutura mais aberta e com a ideia de associação na tradição de Dziga Vertov. Por isso as suas obras, em particular as que fez após Carriage Trade, abrem-se, desenvolvem-se perante nós, sem guião. Há uma tensão equilibrada, uma associação não linear de momentos, um pouco como a vida”.
É frequente encontrarmos num filme imagens de outro filme. Por exemplo, os casais de The Bad and The Beautiful reaparecem em Carriage Trade, as mesmas imagens de desfiles ou espetáculos de circo atravessam Whiplash (dia 10, 18h) e The Tenth Legion. Ver o cinema de Warren Sonbert é aceder a uma memória e a um arquivo. “Sim, é verdade. Nos processos de pesquisa e estudo da sua obra, à medida que fomos vendo os filmes fomos descobrindo e redescobrindo outros. Ele de facto trabalhava a partir de um arquivo pessoal e histórico que era o seu. Por exemplo, as imagens das manifestações depois dos assassinatos do Harvey Milk são imagens que ele fez [com a sua habitual câmara portátil] e isso para mim é um aspecto fascinante”.
Warren Sonbert morreu em 1995, vítima da Sida (e neste ciclo não faltam obras que abordam a sua mortalidade), mas o cinema, intenso e frágil, que nos deixou, permanece eterno. Várias instituições têm colaborado na sua preservação, incluindo a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, mas para Jon Gartenberg ainda há muito a fazer: “Quero reunir e mostrar não só os filmes, mas os artigos que ele escreveu sobre cinema e música. Não só o produto da sua actividade, mas tudo aquilo que a informou. Para tratá-la com a importância que tem, que na minha opinião será a mesma da obra de um Godard ou de um Warhol”.

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