"Dicionário Geográfico" de 1758

Torre do Tombo: Memórias paroquiais sobre terramoto 1755 disponíveis na Internet

As memórias paroquiais de 1758 são muito consultadas para resolver conflitos legais entre freguesias DR

Uma das obras mais consultadas no Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (INA/TT), o "Dicionário Geográfico" de 1758, com relatos de párocos sobre a devastação do grande terramoto no país, já está acessível no "site" do organismo na Internet.

A digitalização dos 44 volumes da obra, encomendada na época pela Academia de Ciências de Lisboa, é um exemplo da estratégia da nova direcção do Instituto de "tornar cada vez mais acessíveis ao público os arquivos" da Torre do Tombo.

Em entrevista à Lusa, Silvestre Lacerda, presidente do IAN/TT, justificou que esta estratégia da entidade se baseia no princípio de que "a salvaguarda dos documentos é tão importante como a sua difusão".

"Queremos continuar a digitalizar a informação para facilitar a consulta pública, mas, ao mesmo tempo, estruturá-la, para não reproduzir o mesmo paradigma do papel. Não queremos reunir apenas um amontoado imagens", ressalvou.

Este "Dicionário Geográfico" tem a particularidade de ter sido elaborado com base nas descrições dos párocos das 4.168 freguesias do país, na sequência da devastação provocada pelo grande terramoto de 1755.

Na sequência da destruição, a Academia das Ciências pediu o auxílio da Igreja Católica, que, por seu turno, solicitou aos padres que descrevessem as freguesias antes e depois do terramoto.

O resultado, compilado na altura por ordem alfabética pelo padre Luís Cardoso, é ainda hoje uma das obras mais procuradas no IAN/TT, tendo sido no início deste ano disponibilizada em http://ttonline.iantt.pt (http://ttonline.iantt.pt/dserve.exe?dsqServer=calm6&dsqIni=Dserve.ini&dsqApp=Archive&dsqDb=Catalog&dsqCmd=NaviTree.tcl&dsqField=RefNo&dsqItem=PT-TT-MPRQ#HERE).

Este trabalho de tratamento e integração dos arquivos teve a colaboração da Sociedade Genealógica de Utah, nos Estados Unidos, que realizou a digitalização dos microfilmes existentes.

"A intenção da Academia era saber o estado em que o país ficou após o terramoto, o seu impacto na generalidade do território, mas o resultado acabou por ir mais longe do que isso", explicou à Lusa Silvestre Lacerda.

Os 44 volumes têm informações sobre rios, serras, a história da freguesia, as produções locais, resultando num "retrato bastante detalhado" do Portugal da época.

"Todas as monografias sobre a história local de freguesias do país recorrem a esta informação, que é particularmente rica", avaliou Silvestre Lacerda.

Os documentos são muito solicitados por investigadores das áreas do ordenamento do território e cartografia, professores de história e geografia, mas também por muitas pessoas que têm curiosidade em relação à história da sua freguesia.

As memórias paroquiais de 1758 também são muito consultadas para resolver conflitos legais entre freguesias, por exemplo, relacionados com as delimitações administrativas.

"Estes documentos não têm só uma componente da memória da História, mas uma grande importância nos direitos dos cidadãos, na prova e autenticidade dos registos", salientou o director do Instituto, observando que esta é uma actividade menos conhecida dos arquivos.

"Anteriormente estas pessoas tinham de deslocar-se de todo o país ao Instituto para consultar estes dados e pedir a sua reprodução. A partir de agora todo esse processo passa a ser mais simples, com o seu acesso na Internet", salientou.

De acordo com dados de 2005, a Torre do Tombo recebeu uma média diária de 80 leitores, num total de 20.585 nesse ano, que resultaram em 86.200 requisições aos serviços.

De 2004 para 2005, ainda segundo dados dos serviços, verificou-se um aumento de cerca de vinte por cento na procura de documentos, números que não contemplam as dezenas de pessoas que se dirigem à Torre do Tombo, mas são depois encaminhadas para outros arquivos.

Silvestre Lacerda sublinha que a colocação dos documentos na Internet, além dos ganhos na eficiência e eficácia dos serviços, proporciona uma maior disponibilidade para outros pedidos, "ainda com a vantagem da enorme poupança de papel".

Outros documentos muito procurados na Torre do Tombo são os antigos registos das chancelarias, que contêm todos os actos régios registados, a documentação da Inquisição e, mais recentemente, os arquivos do Estado Novo, particularmente o de António Oliveira Salazar.

No âmbito da estratégia de digitalização da documentação que a Torre do Tombo tem à sua guarda, há outros projectos em curso, segundo o director, nomeadamente dos arquivos do Tarrafal, que será feita em breve em conjunto com o Arquivo de Cabo Verde.

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