Os Artistas Unidos, o Teatro da Cornucópia e outras companhias e produções de todo o país irão preencher a actividade das várias salas do teatro nacional portuense, num calendário que começa esta quarta-feira, com o Teatro Carlos Alberto (TeCA) a acolher a criação At most mere minimum (Quando muito o mínimo).
Trata-se de uma coprodução com a Culturgest e a Capital Europeia da Cultura, estreada em Guimarães no mês de Novembro, e que associa o teatro com a dança, na interpretação de Carla Maciel, Gonçalo Waddington, Sofia Dias e Vítor Roriz.
Mas é o (segundo) regresso ao Porto de Sombras, o espectáculo criado e encenado pelo seu ex-director artístico Ricardo Pais em 2010, que assinala o reinício da actividade do palco da Praça da Batalha, um edifício classificado como património nacional, mas que continua envolto por um inestético “avental” a evitar que os destroços da fachada e da cobertura provoquem danos pessoais - a presidente da administração do TNSJ, Francisca Carneiro Fernandes, anunciou esta terça feira que está finalmente em curso o concurso público para a empreitada de restauro do edifício, que tem um orçamento de 760 mil euros (4/5 dos quais assegurados pelo programa FEDER).
Ricardo Pais foi, de resto, um dos vários encenadores e criadores convidados para a apresentação, ao meio-dia de hoje, da programação do teatro para o primeiro trimestre do ano. Pais explicou que a versão que agora regressa ao Porto é “uma remontagem” deste espectáculo “laboriosamente trabalhado”, que sempre foi pensado como um work in progress. A nova versão apoia-se naquela que foi apresentada, “com grande sucesso”, em São Paulo, no início de 2012, e tem agora em vista a sua nova apresentação, nos dias 5 a 7 de Julho, no Festival Internacional de Teatro de Moscovo – está também ainda em aberto a possibilidade de novo regresso ao Brasil, desta vez ao Rio de Janeiro.
A primeira estreia nacional do ano do TNSJ está marcada para 15 de Fevereiro, com A Estalajadeira, de Carlo Goldoni, numa encenação (e tradução) de Jorge Silva Melo e dos Artistas Unidos. “Um riquíssimo elenco” – notou o director artístico do São João, Nuno Carinhas –, em que se inclui Catarina Wallenstein e Maria João Falcão, Américo Silva e António Simão, cria “uma multidão de vozes e de personagens que se relacionam sem protagonismos no movimento incessante da vida”, escreve Carinhas no texto de apresentação deste produção, que revelará “a perdurável coralidade e modernidade” do teatro do dramaturgo italiano do século XVIII.
No final de Fevereiro (dia 28), o TeCA acolhe a estreia absoluta de Pinóquia, no regresso do projecto Solos, lançado em 2010. Este é um solo da artista plástica, actriz, bailarina e coreógrafa Lídia Martinez, “uma estrangeirada”, que já viveu e trabalhou em Paris e em Nova Iorque. “Em quatro actos, Pinóquia nasce, caminha, perde-se, cai, encontra a serpente, é enforcada, morre de riso, é salva pela fada, envelhece e joga a bola”, assim descreve a criadora este sua adaptação, no feminino, da personagem criada por Carlo Collodi.
Ainda no programa Solos, o recém-desaparecido Manuel António Pina (1943-2012) é o autor de Os Macacos Não se Medem aos Palmos, peça de teatro infantil – tanto quanto se possa chamar assim aos textos para teatro escritos pelo Prémio Camões 2011 – em que o autor volta a colocar “o mundo às avessas”. Esta produção conjunta com o Pé de Vento tem encenação de João Luiz.
A quarta estreia é Fernanda – Quem falará de nós, os últimos? (22 de Março), encenação de Fernando Mora Ramos (Teatro da Rainha) sobre textos da actriz do Teatro Nacional, Fernanda Alves (1930-2000), mas também de Ernesto Sampaio e Herberto Helder. Este espectáculo, que terá em palco o próprio Fernando Mora Ramos com Joana Carvalho, será acompanhado por uma exposição/instalação de Nuno Carinhas com “imagens, sons e imprecações” da actriz.
Entre as várias produções que, ao longo do primeiro trimestre, passarão pelo Porto contam-se também as coreografias de Paulo Ribeiro, Jim, dedicada ao líder dos Doors (18 de Janeiro), e Paisagens Propícias (25 de Janeiro), com a Companhia de Dança Contemporânea de Angola; A Controvérsia de Valladolid, de Jean-Claude Carrière (7 de Fevereiro), uma encenação de João Mota a assinalar os 40 anos d’A Comuna; e Os Desastres do Amor, de Marivaux (15 de Março), que marcará o regresso ao palco do São João do Teatro da Cornucópia.
Ainda no regresso do projecto Solos, assinalam-se as criações Do Precipício Tempestuoso de Ricardo III (21 de Fevereiro), texto e encenação de Luís Mestre, que vem criando com António Durães uma série de diálogos actor-encenador-intérprete; Adalberto Silva Siva – Um espectáculo de Realidade, de Jacinto Lucas Pires e Ivo Alexandre (14 de Março); e Morte de Judas, de Paul Claudel (tradução de Regina Guimarães), com interpretação de Dinarte Branco e voz off de Luís Miguel Cintra (21 de Março).
O TNSJ vai ainda promover o colóquio O público vai ao teatro (9 de Fevereiro), projecto de Alfredo Martins que reúne uma equipa de sociólogos a abordar este tema, que será ainda desenvolvido numa mostra de documentários, Teatro e Comunidade, produzidos pelo PELE – Espaço de Contacto Social e Cultural.
Continuam também as quinzenais Leituras no Mosteiro, às terças-feiras, e vão ser desenvolvidos vários projectos educativos, associados à programação.
Na apresentação deste programa para 2013, Francisca Carneiro Fernandes fez um primeiro balanço de 2012, avançando que foram apresentados 51 espectáculos, que foram vistos por 79.149 espectadores (mais 12,6% do que no ano anterior).
Para 2013, o TNSJ conta com a mesma indemnização compensatória do Estado do ano passado. Mas não sabe ainda se vai poder contar com a renovação do contrato mecenático com a ANA, um dossier que “está nas mãos da Secretaria de Estado da Cultura”, disse a presidente da administração do teatro.

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