O arquitecto Álvaro Siza lamentou esta sexta-feira que a Casa de Chá da Boa Nova, Matosinhos, esteja “absolutamente abandonada” e disse já ter entregado o projecto para a sua recuperação, embora a Câmara afirme faltarem elementos para abrir concurso.
“Embora eu tenha ouvido que tomaram as providências de segurança, não vejo nenhuma. Acho que está absolutamente abandonada e se é claro que as obras para recuperar o que ali se fez significam dinheiro, cada dia que passa é mais dinheiro que se vai ter de gastar”, afirmou o arquitecto portuense à agência Lusa, a propósito do edifício da sua autoria e classificado como Monumento Nacional. “O que eu sei é que está a ser quotidianamente saqueado”, acrescentou.
O vereador Fernando Rocha, à frente da autarquia de Matosinhos durante as férias do presidente Guilherme Pinto, garante que aquela que foi uma das primeiras obras do premiado arquitecto “não está ao abandono” e que, neste momento, existe “um polícia municipal permanentemente, dia e noite”, a vigiar aquele edifício que foi objecto de vandalismo e assalto, nomeadamente para o roubo de estruturas de cobre.
Segundo o vereador, “o arquitecto Álvaro Siza apresentou um anteprojecto, mas tem de haver o projecto definitivo e o projecto das especialidades” para que seja possível formalizar o contrato para abrir o concurso público, de modo a fazer a obra “o mais rapidamente possível”.
Álvaro Siza, por seu lado, afirma que entregou “o projecto há muito tempo, bem como um cálculo com a estimativa do custo da obra”. “Por isso, está pronto para ser aberto o concurso, mas não sei quando começa”, afirmou.
A recuperação a efectuar, explicou, “é uma recuperação material, até porque as últimas obras foram feitas há 20 anos e, por um lado, há coisas que já não funcionam ou funcionam mal, como sejam as infra-estruturas em geral”.
“Por outro lado, há novos regulamentos” e esses devem ser adequados ao edifício.
Fernando Rocha recordou que o edifício tem 54 anos e que vai ser preciso refazer “cozinha, casas de banho, rede de frio, rede de exaustão”. “Tudo o que está por detrás e que nós não vemos é que vai consumir o dinheiro”, disse.
O arquitecto que receberá este ano o Leão de Ouro de carreira na Bienal Internacional de Arquitectura de Veneza, em Itália, entregou também um projecto de recuperação do exterior, que afirma que “foi tão maltratado como o edifício”, lembrando que aquilo era “uma colina verde, mas foi transformada em parque de estacionamento”.
Fernando Rocha explicou à Lusa que serão gastos cerca de 300 mil euros na recuperação do espaço envolvente e que a obra “entrou na candidatura das obras da marginal, com financiamento do Quadro de Referência Estratégico Nacional e que já está em execução”. “Não é só para o salão de chá, mas também a envolvente da capela que lhe fica próxima”.
O vereador da Câmara de Matosinhos explicou ainda que “houve um assalto e um incidente de vandalismo” no edifício. “Como acontece quando nos roubam tampas de saneamento, só que com as tampas de saneamento nós vamos ao armazém e pomos outras. Ali, não é bem assim”, adiantou.
O objectivo da autarquia -- que tem sido criticada pela oposição relativamente ao estado do salão de chá - continua a ser valorizar aquele espaço, tendo assumido, em março, estar em negociações com o chefe Rui Paula, dono dos restaurantes DOP e DOC.
Na ocasião, o presidente Guilherme Pinto disse que tinha o objetivo de se aliar a um parceiro que faça Matosinhos “conquistar uma estrela Michelin, que distingue os melhores restaurantes”.
O arquitecto Álvaro Siza, que tem uma estima especial por aquela obra, mas estima também “por outras que correram bem”, esperava que a Casa de Chá da Boa Nova, “sendo uma obra classificada, fosse bem tratada”.
“Mas, hoje, nem mesmo as classificadas escapam aos maus tratos e a este hábito que há de nunca fazer manutenção, começando pela obra pública”.

Comentários