A estreia de Caríssimas Canções foi auspiciosa e um espectáculo de muito bom nível. Sérgio Godinho fez das suas memórias musicais um testemunho vivo de grandes canções. No Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, 31 de Maio, às 21h. Lotação esgotada. 4 estrelas
Sérgio Godinho já avisara que ia cumprir vários desejos ao transpor para palco um lote de canções de outros autores, outras vozes, de vários tempos. Viveu com elas durante anos, escreveu sobre elas e agora finalmente, numa sala repleta (o grande auditório do CCB esgotou para o ouvir) cantou-as para um público como se as representasse. E deixou-as “intactas” (outra promessa, cumprida) mas diferentes. Porque, como ele disse e todos sabemos, “uma versão tem de ser uma outra forma de acto criativo”.
No palco, quando Sérgio entrou sob aplausos, já estavam Hélder Gonçalves, Manuela Azevedo e Nuno Rafael, os músicos e cúmplices desta aventura por territórios alheios. Em semi-obscuridade, iam testando os instrumentos, sobretudo guitarras, teclados e percussões várias (nenhuma bateria, mas os arranjos dispensaram-na com brio). Em noite de canções alheias, Sérgio Godinho começou com uma sua, A última sessão, de Lupa: “Será que ainda/ temos enredo/ pra tanto gosto/ pra tanto medo”? A resposta veio de um “filme” antigo e inquietante, Jim Morrison e People are strange, The Doors na primeira incursão da noite pelo mundo das versões. Love minus zero / the limit, pérola dylaniana de Bringing It All Back Home, deu-lhe réplica: se as pessoas parecem estranhas quando nós somos estranhos (Morrison dixit e Sérgio repete), aqui “o vento uiva como um martelo/ a noite sopra fria e chuvosa/ o meu amor é como um corvo/ com uma asa quebrada à minha janela”.
Sombrio, para início de viagem? Um sombrio enganador. Sampa, declaração de amor de Caetano Veloso a São Paulo, ecoou em português de Portugal sem perder alma nem sentido, enquanto a genial Conversa de botequim, de Noel Rosa, se manteve em “carioquês” por necessidade básica, perdendo-se apenas a articulação das palavras em ousados riffs de guitarra. Vendaval que sou, de Tony de Matos, fez-se balada dramática mas limpa, intróito para o drama maior de Geni e o Zepelim, criação superlativa de Chico Buarque. Sérgio e a banda trataram-na como merecia, e aqui nem uma só palavra se perdeu.
O estranhamente belo Sous le soleil exactement, de Gainsbourg, em bom ritmo, abriu caminho ao momento mais alto da noite: não sob o sol mas sob as trevas, uma versão poderosa d’ Os Vampiros de José Afonso, densa e espectral, um cenário banhado a vermelho e em primeiro plano cantor e músicos como sombras, a guitarra barítono de Hélder a desenhar a melodia a traços negros com uma batida cadenciada de bombo e percussões a completarem uma atmosfera de mistério. “No céu cinzento/ sob o astro mudo…” E no refrão a sentença: “Eles comem tudo/ e não deixam nada”. Ainda.
Mudança de página: Stones e Beatles. Dos primeiros, Mother’s little helper, irónica alusão ao cansaço das donas de casa e às “pastilhas” para o aguentar (“que chatice que é estar a ficar velho”, começa assim a canção), e dos segundos a desilusão amorosa de You’ve got to hide your love away: “aqui estou com a cabeça entre as mãos/ voltado para a parede (…) sinto-me tão pequeno/ toda a gente olha para mim/ em todo o lado”. Tudo isto cantado em inglês, claro, que as canções são para soar como deve ser.
Ainda com os desgostos de amor no ar, novo virar de página: agora para O rapaz da camisola verde, o drama do jovem prostituto imaginado por Pedro Homem de Mello e cantado por Frei Hermano da Câmara, trazido para o CCB num fado-marcha sincopado que arrancou fortes aplausos à plateia. Dores de amor? Seguiram-se estas, sublimes, da chilena Violeta Parra, em Volver a los 17, que Sérgio cantou de forma irrepreensível, fazendo-nos amar ainda mais (se isso fosse possível) a canção. O Carinhoso embalo de Pixinguinha (letra de João de Barro, escrita muitos anos depois de nascida a música) antecedeu Les vieux, de Jacques Brel, de novo “a chatice” de estar a ficar velho mas despida da ironia dos Stones, apenas com a clarividência demolidora do génio belga.
Ainda a memória doía, uma celebração: a do pianista Bernardo Sassetti, que “esteve” ali apesar do seu precoce desaparecimento. Em dias consecutivos (música de Sassetti e palavras de Sérgio, para o disco Mútuo Consentimento), renasceu no palco do CCB apoiado em guitarras, que as teclas do piano, mesmo mudas, subentendeu-as a memória.
Novo virar de página, um corte: o rock de Heartbreak Hotel, Elvis Presley num dos seus momentos mais icónicos, fundo do palco banhado a luz branca, ainda os desgostos de amor, claro, mas em ritmo de esquecê-los depressa. Depois disto, os Kinks e o génio de Ray Davies em Sunny afternoon, história de uma criatura endinheirada a quem o fisco tirou tudo e que, mesmo assim, continua a saborear uma cerveja fresca na tarde ensolarada. Sérgio Godinho vai, entre canções, explicando o sentido delas e, com isso, explica também as suas escolhas. Ao cantá-las, torna-se um pouco seu “autor”.
Fechado o “hotel” de Elvis, acabada a “cerveja” de Davies, que mais dizer? Que sem os músicos, aqueles músicos, uma noite assim não teria sido possível. O público entende e agradece, com aplausos vigorosos, e o espectáculo fecha com um tema bem a propósito: Eu contigo (de Canto da Boca), agora num rock batido e declaradamente feliz.
Claro que a noite não ficou por aqui, há sempre lugar a encores, mas Sérgio não quis que estes se prolongassem para não quebrar o efeito das Caríssimas Canções. Foi então “chamado” ao baile o Conjunto António Mafra e o seu Ora vejam lá (aquele do “segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado… domingo!”) e, para acabar como começou, de novo Sérgio por ele próprio: O acesso bloqueado, novos paralelos com o presente: “Adivinhar o futuro/ é muito duro (…)/ adivinhar o passado/ é mais seguro (…)/ se bem que às vezes o cálculo também saia errado”.
No fundo, se a vida “é feita de pequenos nadas” (e foi Sérgio quem lapidou tal frase de forma definitiva, hoje lugar comum), também é feita de grandes canções. Aqui, Sérgio Godinho e os músicos de que (bem) se rodeou tratam de nos lembrar isso mesmo com muita entrega, boas ideias, bons arranjos e também divertimento. E assim fizeram das canções dos outros a sua casa, com o público por ilustre visitante. Caríssimas canções é uma lição de memória viva, musical e não só. Merecia registo fonográfico.
Estreado a 31 de Maio no CCB, Caríssimas Canções é apresentado no Porto, na Sala Suggia da Casa da Música, no dia 15 de Junho, às 22 h. Não o percam.

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