Dramaturgo irlandês faria hoje 100 anos

Samuel Beckett: o homem que revolucionou o teatro

Beckett recusava explicar as suas obras e fugia dos jornalistas Fran Caffrey/NewsFile

Limpou do palco tudo o que é acessório reduzindo-o ao essencial. Criou tensão dramática com a inacção e fez do aborrecimento um tema. Escreveu peças sem "argumento", com personagens sem história e sem passado, e instituiu o monólogo. Este minimalismo de Samuel Beckett, que faria hoje 100 anos, revolucionou o teatro há meio século e, concordam especialistas, ainda não foi superado.

Beckett era um homem tímido com o rosto marcado por rugas no final da vida, uma imagem que se tornou um ícone. Recusava explicar as suas obras, tinha pudor em falar da sua vida privada, era intransigente em relação à encenação das suas peças. E isto contribuiu para o mito que se criou à sua volta.

Dublin, a capital da Irlanda onde nasceu mas de onde saiu (viveu em Paris), cobriu-se nestes dias com a sua imagem, e organiza um festival dedicado ao dramaturgo, escritor e poeta irlandês, que escreveu várias peças em francês.

Em Lisboa, o Teatro Municipal São Luiz programou Parabéns Samuel Beckett, com coordenação da actriz Graça Lobo. Vão ser projectados vídeos das suas peças, como Fim de Partida, Dias Felizes, Embalada ou Sopro, pelo artista plástico Damien Hirst. Para falar sobre a vida e obra, juntam-se, às 18h, Graça Lobo, o crítico e poeta Pedro Mexia, Pierre Chabert, actor, encenador e amigo de Beckett, e Derval Tubridy, especialista em linguagem beckettiana e professora no Goldsmiths College de Londres.

À Espera de Godot não é para alguns a obra preferida, mas é para muitos a única que conhecem. Foi esta peça de 1953, a primeira a ser encenada, que mudou o teatro: não se passa nada, apenas duas personagens matam o tempo com repetições, à espera que chegue Godot. Aqui Beckett mistura o music-hall, o burlesco, o vaudeville, Buster Keaton e Chaplin. Quando estreou, em Paris e em francês, o dramaturgo Jean Anouilh escreveu: "É uma obra-prima que vai causar desespero aos homens em geral e aos dramaturgos em particular." O primeiro encenador da peça em inglês, Peter Hall, explica porquê no Guardian: "Godot oferecia um palco vazio, uma árvore e duas figuras que esperavam e sobreviviam. Nós imaginamos o resto. O palco era uma imagem da vida a passar - na esperança, desespero, companheirismo e solidão (...). Desde Godot que o palco é um lugar de fantasia." E de humor, porque Beckett também é um mestre da ironia.

Um biógrafo, Anthony Cronin, chamou-lhe o "último modernista". "Revolucionou o teatro mas ainda não foi revolucionado", diz Julie Campbell, investigadora e professora na Universidade de Southampton, que estudou a influência de Beckett na literatura.

Criou uma linguagem nova

A especialista espanhola María Antonia Rodríguez Gago, também tradutora e professora na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidad Autónoma de Madrid, diz que antes de Beckett era "impensável representar obras de Shakespeare em espaços vazios", como era impensável a proliferação de monólogos. "O mais importante é que une todos os elementos cénicos, a palavra, o gesto, o movimento, as pausas, os silêncios e trabalha-os em uníssono. Era um compositor quase musical e plástico ao mesmo tempo. Levava tudo ao limite, por isso criou uma linguagem nova."

A revolução do dramaturgo, que nas peças dá indicações ao mínimo pormenor e deixa pouca margem aos actores e encenadores para saírem da sua partitura, foi sobretudo o "regresso à linguagem da cena", diz a espanhola.

Estes especialistas - que estiveram em Lisboa a convite do Teatro da Comuna a propósito da encenação de João Mota de Todos os Que Caem - referem a importância de autores que lhe seguiram e que por ele foram influenciados como Harold Pinter, também Prémio Nobel da Literatura, Edward Albee, Tom Stoppard ou David Mamet. Mas nenhum indica um nome que tenha mudado tanto o teatro como Beckett.

Ronan McDonald, autor de vários livros sobre Beckett e director da Fundação Internacional Beckett na Universidade de Reading, explica: "Como disse um dos primeiros críticos de À Espera de Godot, as regras teatrais foram viradas do avesso, a regra teatral foi examinada à luz do aborrecimento, da inacção e a acção necessária no teatro foi questionada. O facto de Beckett ter devolvido ao teatro os seus elementos essenciais deu-lhe um lugar único na história." Na prosa, escritores como John Banville ou J.M. Coetze olharam para Beckett como "um mestre". "O seu uso da vírgula é único", diz McDonald.

No entanto, lembra este especialista, "não podemos esquecer a relação de Beckett com a ética modernista do novo. Uma das características de Beckett é que "reestruturava" as formas e isso é uma das coisas que o tornou tão importante. Hoje a necessidade modernista de ser radical em relação à forma não é a mesma."

Em cada obra uma experiência

De peças com quatro personagens, como À Espera de Godot ou Fim de Partida, a monólogos como Dias Felizes, A Última Bobina de Krapp ou Não Eu (onde a luz incide na boca de uma actriz imóvel) na obra de Beckett há uma progressão no depuramento da linguagem (alguns falam de esgotamento), com textos cada vez mais minimalistas. Em algumas peças, como Dias Felizes e Fim de Partida, Beckett "prende" o corpo dos actores desafiando a mobilidade: na primeira, Winnie está soterrada até ao tronco; na segunda, Hamm é confinado a uma cadeira de rodas.

Em cada obra fez uma experiência nova e pôs em causa o meio para o qual escrevia, dizem, por isso influenciou não só escritores de teatro e de ficção mas também artistas plásticos.

O que parece ter-se "institucionalizado" é a ideia de que Beckett é um autor sério, esquecendo a comicidade de muitas situações que criou, algo que terá sido abafado pelo seu pessimismo. "Não há nada mais cómico do que a infelicidade", diz uma personagem em Fim de Partida. Uma das características do seu humor, tipicamente irlandês, é levar a tragédia para dentro dele. E enfrentar "os nossos medos e pesadelos", diz Julie Campbel. McDonald acha que faz parte "do mito de Beckett" esquecer-se o lado "divertido" da sua obra. "Assume-me que a tragédia implica seriedade - e ele subverte isso." Apesar de o seu humor ser mordaz e negro, considera, Beckett "nunca ri maliciosamente": "É uma gargalhada que vem da infelicidade mas também vem do companheirismo, da injustiça das situações. Há compaixão em muito do seu humor."

E é um autor difícil? "Associamos a dificuldade à complexidade. A dificuldade de Beckett não é a dificuldade da complexidade, mas a da simplicidade. É tão simples que se torna difícil, porque esperamos que haja mais explicação, mais elaboração", diz McDonald. "A alienação do espectador à procura de certeza da explicação pode ser interpretada como difícil. A dificuldade da simplicidade é algo que existe no teatro de Beckett. Se olharmos para a sua obra inicial, muito influenciada por James Joyce, é uma dificuldade muito diferente de uma peça como Passadas ou Não Eu. O trabalho de Beckett vai encolhendo, encolhendo, torna-se cada vez mais escasso, começa a trabalhar em variações de palavras e torna-se muito elementar, simples e bonito."

O crítico americano Harold Bloom, em O Canône Ocidental, escreveu que Beckett "moldou no nosso século o equivalente teatral a Shakespeare". Chamou-lhe o "profeta do silêncio".

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