Ryan Gosling quis que lhe batessem e os apupos fizeram ouvir-se

Pulsão de autodestruição, misticismo é o novo momento da associação Ryan Gosling-Nicolas Winding Refn, depois da fraqueza adolescente que foi Drive. Only God Forgives teve talvez resposta à altura.

Nicolas Winding Refn sente-se um filho a ser questionado — ou será a ser espancado? — pela mamã quando lhe perguntam a razão da violência em Only God Forgives.

Mas aceita resumir, antes de dizer que lá vai ter de voltar a explicar isso à mãe: porque a “arte é um acto de violência”, porque a arte é “penetração” (palavra usada muitas vezes durante a conferência de imprensa de apresentação desta sua nova entrada na competição de Cannes), porque não sendo uma pessoa violenta, oh Deus (outra palavra no léxico de Only God Forgives), é uma forma de exorcizar: há partes do nosso corpo, diz, e terá razão, que foram feitas para a violência da sobrevivência, com o tempo isso foi adormecido, mas o nosso cérebro não se esqueceu e reclama às vezes com fome.

Antes, com a mesma musculatura, o dinamarquês explicara que a espiritualidade e o misticismo foram decisivos na génese de Only God Forgives, quando tudo fez sentido na Tailândia, onde segundo ele essas coisas fazem sentido. Aconteceu no dia em que a sua bebé começou a queixar-se de fantasmas na parede: o hotel chamou o xamã, tudo acabou bem e o projecto ficou caucionado

E eis Only God Forgives em Cannes, dois anos depois do prémio de realização por Drive, de novo com Ryan Gosling praticamente sem diálogos para dizer, mas a querer ir a vias de facto com Deus (e, claro, a querer ser esmurrado). E com Kristin Scott Thomas como mãe devoradora a comparar à mesa o tamanho dos pénis dos filhos. O da personagem de Ryan não é para espantar, diz ela; o do filho mais velho, sim. E foi logo esse que morreu, não o mais novo. A mãe chega a Banguecoque para fazer com que o mais novo, traficante de droga, inicie um plano de vingança.

As notas de produção dizem que Kristin é um cruzamento entre Lady MacBeth e Donatella Versace, mas convém não esquecer que já estava tudo, pulsão incestuosa inclusive, na Angelica Huston de The Grifters (Stephen Frears, 1990, com John Cusack a fazer de filho). Pelo que só é mesmo uma estreia para a aristocrática Scott Thomas. A actriz ainda afecta gestos de pudor quando explica que a linguagem brutalmente explícita que utiliza não estava no argumento, foi uma coisa produzida pela confiança da rodagem, e terá sido ela a forçar a verbalização. Mas soa tão construído como a (involuntária) imitação de Angelica — ou imitação de outra coisa qualquer. A verdade é que passado o momento da brutalidade, dos palavrões ou dos instrumentos pontiagudos cravados em olhos e ouvidos, tudo no filme de Nicolas Winding Refn, gestos, pausas, silêncio, misticismo oriental ou o bas-fond de Banguecoque, só passa o vazio da estetização. Nada se suja, nem o realizador, que olha com a protecção do turista em hotel de luxo. E se Ryan Gosling (não veio Cannes, está em Detroit na terceira semana de rodagem da sua primeira longa, How to Catch a Monster) precisou que alguém lhe brutalizasse a figura, como disse numa entrevista ao Le Monde, e por isso logo alguém se lembrou do Marlon Brando de The Chase (1966, Arthur Penn), cansado da sua imagem, a associação do actor canadiano a Winding Refn é à sua maneira tão infanto-juvenil como o Clube Mickey onde Ryan começou aos 12 anos. Quer dizer: não há nada de visceral nem de autodestrutivo, o resultado é apenas iconografia que continua a ser construída. Como em Drive. Mas há dois anos o filme de Nicolas Winding Refn saciou uma sede, pelos vistos existente no concurso do festival, de coisa para fazer poster beatífico: o filme e o actor certos para um momento de fraqueza adolescente da imprensa, da crítica e, finalmente, do júri. Os apupos a Only God Forgives mostraram que alguma coisa amadureceu.     
 
 

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