Ao percussionista Nuno Aroso a pop não diz muito. Acha-a demasiado minimal criativamente. Rita Redshoes, por sua vez, escolheu a pop como o seu veículo criativo. A sua formação, porém, é clássica. 3'30'' Percussive Sung Songs nasceu da vontade de "provocar uma intersecção nestas expressões tão paralelas", diz Aroso. Compositores dos quatro cantos do mundo contribuíram com canções. Rita e Nuno interpretam-nas, rodeados de uma montanha de instrumentos.
Nuno Aroso andava com esta ideia há três anos. Um desafio. Uma partilha. Uma ponte entre dois universos. O percussionista queria ouvir o que nasceria quando propusesse a compositores do seu universo, a música erudita, que criassem temas com os três minutos e meio habituais na pop. Vai-se ouvir o resultado, 3’30” Percussive Sung Songs, esta noite, às 21h, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa (bilhetes entre os 11€ e os 13,5€).
Em palco Nuno Aroso e Rita Redshoes, “a pessoa certa”, diz o percussionista, “porque tem uma formação na clássica que lhe permite estar confortável no universo da contemporânea”. E vibrafones, kalimbas, bombos, vasos, bonecos de plástico, um espremedor. “Visualmente é um arsenal um bocado impressionante para aquelas duas criaturas em palco”, ri a autora de Golden Era.
Nuno Aroso é um percussionista com carreira enquanto membro dos Drumming e colaborador do Remix Ensemble, além do percurso mundo fora a solo ou integrado em orquestra, que sempre se mostrou interessado no cruzamento de expressões artísticas – música e literatura ou música e teatro, por exemplo. Agora, será música com música. A sua, a contemporânea, e a pop, que habitualmente pouco lhe interessa. “Há pop e pop e é difícil generalizar, mas de uma maneira geral há ali uma simplicidade e minimalismo criativo que não me interessa”, confessa. Porquê então, algo como este espectáculo em que vários compositores (Oscar Bianchi, Matthew Burtner, Kumiki Omura, Luís Antunes Pena) se limitam a uma fronteira temporal, a que não estão de todo habituados, para criarem 14 canções, “canções com todas as aspas possíveis”, aponta Aroso? Pelo desafio e por curiosidade. “Interessava-me provocar uma intersecção nestas expressões tão paralelas”, explica o percussionista. “Pôr a música contemporânea a ir ao encontro da pop para provocar uma discussão positiva”. Rita Redshoes, nome reconhecido da pop portuguesa actual, não foi uma escolha inocente para colaborar no projecto.
No final da apresentação em Serralves de Estrada de Palha, a banda sonora para o filme de Rodrigo Areias interpretada ao vivo por Rita e Paulo Furtado, Nuno Aroso apresentou-se à cantora. Explicou-lhe, como nos explica agora, que a formação dela na clássica e pormenores de composição das suas canções, que as aproximam da música contemporânea, a transformavam na parceira ideal para o projecto. Rita entusiasmou-se e, nos meses seguintes, foram ouvindo os compositores entretanto contactados, foram trocando ideias e percebendo o que poderiam delas nascer.
“A partilha de pontos de vista foi essencial para este cruzamento, aponta Nuno Aroso. “A Rita está na pop, mas tem uma perspectiva muito especial sobre a música e a criação. Mesmo trabalhando formas de expressão diferentes, temos muitos pontos em comum na forma de pensar a arte”. Para Rita Redshoes, foi como que um regresso, obrigatoriamente transformada pelo percurso musical que lhe conhecemos, aos seus tempos de formação. “Ter estudado e trabalhado [a música erudita], mais a nível do canto dos séculos XVII, XVIII, XIX, permite-me ter a elasticidade vocal necessária para interpretar as peças destes compositores. Voltar aí com a perspectiva que ganhei entretanto foi interessante”.
No concerto ouvir-se-ão então 14 composições. Três de Rita Redshoes (Minimal sounds e dois inéditos), onze outras reflectindo as diferentes sensibilidades e origens dos seus autores. Sem formas demarcadas - o verso-refrão-verso habitual na pop. “A limitação de tempo acaba quase por ser o único ponto de ligação entre as canções”, refere Nuno Aroso. Isso, claro, e a presença dos dois músicos em palco, dando vida entre uma montanha de instrumentos, mais ou menos canónicos, a este diálogo entre dois universos.
Esta noite, há o concerto. Mais para a frente, é provável que o projecto se transforme em álbum. Seria uma pena que aquilo que foi agora criado não se fixasse em disco. Nuno Aroso e Rita Redshoes concordam. A conversa musical entre eles, entre eles e os compositores que com eles trabalharam, correu demasiado bem para que se perca quando o concerto chegar ao fim.

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