Mais de 100 escritores, intelectuais e outras personalidades da política mundial, incluindo quatro prémios Nobel, lançaram esta quarta-feira um apelo para que a leitura, a escrita e o acesso à informação sejam integrados nos pacotes de ajuda humanitária em situações de crise. "Depois de uma catástrofe, também é preciso poder ler, escrever e comunicar", lê-se na petição.
Perante uma grande catástrofe, “as organizações internacionais e governamentais prestam assistência médica, fornecem alimentos dos helicópteros e distribuem roupa nas zonas afectadas, mas devem também garantir a leitura, a escrita e a comunicação", sublinham os primeiros signatários da declaração, lançada pela organização não-governamental francesa Bibliothèques sans frontières (Bibliotecas sem Fronteiras).
A petição “A urgência da leitura”, em fase de recolha de assinaturas, é subscrita pelos prémios Nobel da Literatura Toni Morrison (EUA), Doris Lessing (Reino Unido), J.M. Coetzee (África do Sul) e pelo Nobel da Paz e ex-Presidente da África do Sul Frederik Willem de Klerk.
Segundo a ONG francesa, não está em causa a importância de a maior fatia da ajuda prestada em situações de crise humanitária ser destinada à satisfação das necessidades básicas (água, alimentos, abrigo e cuidados de saúde). Segundo a carta assinada pelo historiador francês Patrick Weil e citada esta quinta-feira pela AFP, os signatários da petição consideram sim que deve ser dada uma maior atenção à mente, no âmbito de medidas de “segunda linha” para ajudar as vítimas a lidar com a catástrofe.
“Com as crises humanitárias, as organizações internacionais devem fornecer alimentação, não só para o corpo, mas também para a mente”, lê-se no texto da petição. A ONG precisa: "Seja através de livros, computadores, formação ou assistência jurídica, o acesso à informação e aos recursos culturais dá poder aos indivíduos e dá-lhes as ferramentas para reconstruir o que se perdeu."
“Actualmente, nenhum dos princípios da ONU que orientam as pessoas deslocadas olha para esta dimensão intelectual de salvação do ser humano em perigo, a necessidade fundamental de informação, diálogo e segurança”, indica a petição.
A Bibliothèques sans frontières recorda casos como o do devastador terramoto do Haiti em 2010 para sublinhar a importância das acções de emergência como a que fez no país, distribuindo livros e outros recursos informativos. Como exemplo a seguir, os signatários do documento elogiaram ainda o papel das bibliotecas chilenas após o sismo de 2010 no país pelo trabalho de proximidade e em parceria com as comunidades locais, bem como a experiência de pesquisa que tiveram "um papel decisivo na sobrevivência das pessoas, na prevenção de novos riscos e no restabelecimento dos meios de acesso à informação”.
Além dos Nobel, o apelo, que tem como mote A leitura e a escrita são essenciais para o processo de cura e reconstrução é subscrito por escritores como Amin Maalouf, Michael Cunningham (vencedor de Pulitzer), Joyce Carol Oates (National Book Award), Erik Orsenna, Tahar Ben Jelloun, Stéphane Hessel, Elisabeth Badinter, Amélie Nothomb ou Jérôme Ferrari (Prémio Goncourt 2012).

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