Óscares: o silêncio é de ouro, mas não é de agora

Jean Dujardin recebeu a Palma de Ouro pela interpretação que homenageia Rodolfo Valentino, muito popular nos anos 1920 Jean-Paul Pelissier/Reuters

O Artista é um filme (quase) mudo, a preto e branco e em formato 1.33:1, que não se usa nos dias que correm. Tudo como se estivéssemos em 1927 e o cinema não tivesse sido invadido por explosões e planetas estranhos em 3D. É uma história de amor pela indústria que fez Hollywood olhar-se ao espelho e gostar. Chega aos Óscares como favorito, mas este regresso à época de ouro não é muito novo.

O entusiasmo com o filme de Michel Hazanavicius começou a construir-se em Cannes, onde estreou, no ano passado, e tem vindo a contaminar a crítica, o público e a própria indústria – ainda que os resultados de bilheteira estejam aquém do frenesi mediático. Está nomeado para dez Óscares e, apesar de nunca uma “carta de amor” ao cinema ter ganho as muito desejadas estatuetas douradas, o fascínio com O Artista pode fazer história.

Eva, a obra-prima de Joseph L. Mankiewicz (1950), é o mais próximo que a Academia norte-americana esteve de distinguir com o Óscar para melhor filme uma obra que a confrontasse com o espelho. De resto, é preciso voltar a 1930 para descobrir o último filme mudo a ser nomeado nessa categoria: O Patriota, de Ernst Lubitsch. Era apenas a segunda edição dos Óscares e a Academia já se derretia pelos talkies.

O silêncio foi de ouro – para usar a expressão repetida até à exaustão com O Artista – apenas em 1929, na primeira edição dos Óscares, quando Asas, de William A. Wellman, e Aurora, de F.W. Murnau, ganharam as duas estatuetas que então existiam para distinguir os melhores filmes. A celebração do passado, da “época de ouro” de Hollywood, ficava arrumada à primeira e avançava-se a passos largos para o futuro: o som.

O Artista faz esse percurso: mostra-nos uma estrela do cinema mudo em toda a sua glória, George Valentin (Jean Dujardin), e a penosa queda para a condição de inadaptado que lhe é imposta pelo progresso. A narrativa arranca em 1927, um ano depois da morte de Rodolfo Valentino, o actor homenageado através do protagonista, George Valentin, e um dos nomes mais populares do cinema nos anos 1920, protótipo do amante latino na tela. E vai até 1932, quando o cinema falado já tinha tomado conta das preferências.

Dose de glamour para tempos difíceis

Passaram-se 80 anos e nunca um filme obrigou tanta gente a olhar para trás. Saudosismo? Pode ser. Mas também uma certa ideia de glamour que, em tempos difíceis, convém recuperar. Tal como no final dos anos 1920. “Quanto mais difíceis são os tempos, mais desejamos pelo ilógico de Sentir”, escreve Tina Brown. A directora da Newsweek concentra numa penada o glamour – e a melancolia – que nos comove em O Artista: “um filme mudo a preto e branco criado por um realizador francês sobre um ídolo de cinema cortês chamado George Valentin, cuja carreira implode quando os talkies o tornam obsoleto. Valentin é salvo pelo amor de uma jovem estrela, sem medo do futuro”.

Maureen Dowd, cronista do The New York Times, considera que existe ainda uma outra razão pela qual O Artista se impõe como um regresso ternurento ao passado, muito para lá dos aspectos mais formais da técnica: “Os sons do silêncio são uma lembrança obscura agora, como o mistério, a privacidade e prestar atenção a uma coisa – ou uma pessoa – de cada vez.” Ou seja, é o cinema a transportar-nos para um mundo que já não existe. O que não é novo. Mas talvez seja mais um sinal da fadiga proporcionada pela hiperactividade dos dias de hoje.

“Afinal, todos os cépticos estavam errados, foi inteligente fazer um filme mudo em 2011, como um antídoto à nossa praga moderna de tagarelice inútil. É um estranho paradoxo que a principal característica da tecnologia seja a possibilidade de falarmos, mas normalmente sem o som das vozes humanas. No caso de O Artista, o silêncio não é só de ouro, é uma lembrança de quanto podemos articular sem palavras. Se tirarmos a linguagem, os cenários verdes e os óculos 3D, os sentimentos – orgulho, vaidade, inveja, medo, amor – podem ser mais primários e fascinantes”, escreve Maureen Dowd.

Mais silêncio

Mas apesar de este regresso ao cinema mudo e a preto e branco (e aos 22 frames por segundo, em vez dos normais 24, para lhe dar aquela sensação de aceleração da imagem) ter sido estrondoso – o filme já ganhou três Globos de Ouro e sete Baftas –, O Artista não fez sozinho a viagem ao passado. Ao longo dos anos, foram muitos os títulos a recuperar técnicas caídas em desuso, por força do progresso, e a aplicá-las a novas histórias. E talvez se possam encontrar alguns exemplos inesperados, inclusive na cinematografia infantil.

Dois casos: as sequências iniciais de Wall-E e de Up – Altamente, animações de 2008 e 2009 da Pixar, não têm diálogos e são muitas vezes referidas como duas das mais belas aberturas da história do cinema. Depois, há filmes como Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, que ao contrário de O Artista nos mostra uma estrela do cinema mudo que ficou por salvar; A Última Loucura (1976), a sátira de Mel Brooks que se denuncia logo no título original (Silent Movie); ou o mais recente Três Tempos, do chinês Hou Hsiao-hsien, que em 2005 concorreu à Palma de Ouro em Cannes.

A tarefa torna-se mais complicada se, depois dos filmes mudos da era moderna do cinema, nos pusermos a contabilizar os que foram realizados a preto e branco depois do aparecimento do technicolor. O que se pode dizer rapidamente é que o último filme a preto e branco a ganhar o Óscar para melhor filme (e mais quatro estatuetas) foi O Apartamento, de Billy Wilder. Foi na edição de 1961. O que, de resto, obriga a sublinhar que O Artista foi filmado a cores e depois passado para preto e branco em laboratório pelo director de fotografia, Guillaume Schiffman. (A Lista de Schindler, de 1993, que também ganhou o Óscar para melhor filme, é predominantemente a preto e branco, mas tem elementos de cor.)

Vença ou perca, O Artista não se esgota nos Óscares. A porta que abriu em 2011 será aproveitada este ano por Silent Life, filme escrito e realizado pelo russo Vlad Kozlov, que se debruça sobre a vida de Rudolph Valentino, a estrela do cinema mudo que morreu em 1926 e é homenageada no filme de Michel Hazanavicius. A produção, norte-americana, dura há quatro anos, com um elenco que inclui Isabella Rossellini, Galina Jovovich e Monte Markham, e que começou por ser uma curta muda e a preto e branco. Estreia em Agosto.

Notícia actualizada às 16h38: acrescenta informação sobre A Lista de Schindler

O PÚBLICO vai acompanhar todos os preparativos para os Óscares ao longo desta semana. No domingo, dia 26, acompanhará a atribuição das estatuetas douradas em directo e ao minuto com a sua equipa de críticos e jornalistas. Acompanhe tudo no ípsilon.

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