Duas horas e meia de uma consagração demasiado adiada

Ornatos Violeta
5 estrelas (em 5)
Coliseu de Lisboa
Quinta-feira, 25 de Outubro
Sala esgotada

Em notável clima de festa, os Ornatos Violeta subiram ao palco na primeira de três noites no Coliseu dos Recreios, em Lisboa (seguem-se outras tantas no Porto), como se os anos tivessem decidido ignorar a banda e a encontrassem no preciso sítio onde a tinham deixado. O público, esse, é que ultrapassa largamente o que tinha ficado lá atrás. Uma noite para não deixar morrer.

Em Dezembro de 2000, um ano após a edição de “O Monstro Precisa de Amigos”, os Ornatos Violeta tocavam na Aula Magna, em Lisboa. “Ouvi Dizer” e “Capitão Romance” eram canções capazes de levantar coros emocionados e com as quotas da devoção em dia, mas nesse concerto – que, viemos a perceber, seria um dos últimos da banda antes de lhe ouvirmos o anúncio do fim – havia um ambiente electrizante no ar, como se algo de maior estivesse em construção diante dos nossos olhos. A sensação era a de que aquela banda estava prestes a dar um passo de gigante, a tornar-se um desses casos raros em que a popularidade não apressa o passo até deixar a qualidade pelo caminho. Os Ornatos pareciam à beira da explosão. E, afinal, o que nos saiu em sorte foi a implosão.

Nesse percurso sólido e crescente que se avizinhava, a consagração seria naturalmente a subida ao palco dos coliseus de Lisboa e do Porto. Aconteceu, estranhamente, quase 12 anos depois. E não graças a uma escalada de credibilidade assente na insistência e na gravação de novos discos, mas antes na absoluta ausência. Talvez por isso, os nervos – que terão certamente existido – não eram facilmente discerníveis. O ambiente que estava à espera da banda, e que se prolongou por mais de duas horas e meia de concerto, foi de uma celebração, de uma festa que tinha ficado por cumprir. Este concerto era algo que era devido: a eles e a nós.

Aqui, apetece traçar inclusivamente um paralelo com os ingleses Blur: também os Ornatos Violeta parecem ter regressado à vida apenas para poderem morrer como deve ser. Em vez de a separação chegar em clima de total ressentimento, fazê-lo como uma memória doce. De certa forma, é também o que aqui que se passa com estes concertos: a reposição de memórias que, por um desvio do destino, não chegaram a ser fabricadas no tempo próprio.

E aquilo a que quinta-feira à noite se assistiu no Coliseu dos Recreios foi de uma generosidade rara: a interpretação quase integral dos dois álbuns de estúdio – “Cão!” e “O Monstro Precisa de Amigos” – mas também uma viagem aos arquivos, capaz de resgatar tanto “Pára-me Agora”, o inédito das sessões de “Monte Elvis” (título de trabalho do terceiro álbum que não chegou a existir), quanto “Sacrificar”, canção tão mas tão do início que foi escrita e cantada originalmente por um outro vocalista, chamado não Manel mas sim Ricardo.

Com a entrada em palco e as primeiras palavras de Manel Cruz enquanto ajeitava a guitarra – “boa noite, vamos a isto?” – ficava claro que a sessão não viveria de espalhafato. Nada de cenários sofisticados nem de convidados estratosféricos. Apenas um excelente concerto de rock, com o condão de, por um par de horas, iludir a linha temporal, sugando a última década e fazendo-nos sentir que ontem foi o dia que se seguiu a Dezembro de 2000. Essa era, na verdade, a grande dúvida: se a relação de público e banda com o reportório não tresandaria a naftalina, se não era já demasiado tarde para que tudo não assumisse um balofo tom nostálgico.

Esse receio esfumou-se logo que se ouviram “Para Nunca Mais Mentir” e “A Dama do Sinal”, a primeira pertencente à galeria de um rock anguloso e de tendências épicas de clara génese pós-“OK Computer”, a segunda vinda do álbum de estreia, de uma banda que insuflava de energia adolescente uma música parida pelo funk-rock (não por acaso, houve Faith No More no PA antes e depois do concerto). Nesses regressos ao primeiro disco (“A Dama do Sinal”, “Um Crime à Minha Porta”, “Mata-me Outra Vez”), talvez precisamente por essa forma mais exaltada de juvenilidade (histórias de hormonas a ferver e amores de vida ou morte), era quase impossível não olhar para o palco e ver um bando de miúdos a divertir-se com canções espantadas de alguma vez terem saído da garagem, ocupados com os mesmos instrumentos com que quase todas as bandas nascem.

Aos cinco Ornatos Violeta (Manel Cruz, Peixe, Elísio Donas, Nuno Prata e Kinorm) teria bastado passar pelos temas dos dois álbuns para fazer feliz um público sedento de lhes pôr os olhos e os ouvidos em cima, mas o empenho em oferecer algo de verdadeiramente excepcional levou-os a incluir no alinhamento exemplares da sua pré-história – “da altura em que íamos para a Nazaré, em 93”, lembrou Manel Cruz –, tão depressa baladas tensas versando sobre seres com dois chifres, como imediatamente antes funk ska rockabilly numa esfuziante mescla de estilos muito pouco preocupada em soar coerente. O verdadeiro momento inesperado, inclusivamente para a banda, aconteceria com a subida ao palco de um anónimo com idade para não ter visto os Ornatos na sua primeira vida e que pediu para tocar com a banda Deixa Morrer. E assim foi, guitarra nas mãos e o momento de uma vida, sem enganos, com direito ainda de dedicar a canção “à Beatriz”.

Os momentos de euforia (particularmente “Chaga”, “Coisas e Bigamia”) foram-se acumulando até ao final do tempo regulamentar, culminado com os dois temas que não poderiam faltar: “Ouvi Dizer” e “Capitão Romance” (magnífica canção portuária, deliciosamente napolitana). Depois, os encores voltaram a estar livres de obrigações de palco. Primeiro, uma visita prolongada por “Cão!” (“Punk Moda Funk”, “O Amor É Isto” e “Homens de Princípios”), um inédito e a majestosa “Tempo de Nascer”, o tema da compilação “Tejo Beat” que antecipou “O Monstro...” e que é talvez a melhor das canções do grupo; depois, uma sequência de micro-canções (“Raquel”, “Marta” e “Chuva”) e a modorrenta “Como Afundar”, ajudada por uma melódica a cirandar “Moon River”, de Henry Mancini.

A despedida final, juntando as pontas, o fim e o início, “Pára-me Agora” e “Dias de Fé”, as habituais epilepsias punk-circo que também os Blur cultivam, a voz rouca, os instrumentos estafados e a certeza de que poucas vezes a partilha da música se faz num tal estado de comunhão.

Nesta sexta-feira e sábado, no Coliseu dos Recreios, e depois dias 30 e 31 de Outubro e 1 de Novembro, no Coliseu do Porto, a festa prossegue. Mas a memória da despedida está finalmente criada. Agora é só não a deixar morrer.

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