Optimus Primavera Sound: um festival com muitos festivais lá dentro

Tanta música: emocionantes Beach House, provocadores Black Lips, excêntricos Flaming Lips, sóbrios Wilco, refrescantes The Chairlift. Muitos festivais no mesmo festival, com confirmações, desilusões e surpresas. Foi ontem. E foi muito bom.

E ao segundo dia fez-se luz no Optimus Primavera Sound. O mesmo é dizer que a identidade do festival, alicerçada em escolhas musicais exigentes, que tanto propiciam o reconhecimento, como a descoberta daquele grupo que não se conhecia, fez-se sentir no parque da cidade do Porto, um espaço elogiado por muitas bandas a partir do palco.

O primeiro dia foi marcado pela descoberta do local e pelo excelente ambiente descontraído, propiciado pela audiência mista de portugueses e estrangeiros. Ontem, sexta-feira, foi outra coisa. Com mais público (no primeiro dia estiveram cerca de 20 mil) e com quatro palcos a funcionar em simultâneo – na primeira noite eram só dois – ou se optava por ver apenas os grupos que já se conhecia ou deambulava-se pelo espaço, vendo alguns concertos na íntegra, mas na maior parte das vezes parcialmente. Escolhemos a segunda hipótese.

Confessamos: o único que vimos do início ao fim foi o dos americanos Beach House. Inicialmente pensávamos ficar até meio, para podermos ver ainda os excelentes The Walkmen, com álbum mesmo agora editado, mas não conseguimos. Simplesmente porque foi brilhante o concerto do duo americano, agora coadjuvado por um baterista. De alguma forma são o tipo de projecto que simboliza na perfeição o Primavera Sound: uma plataforma que impulsiona grupos pouco conhecidos e os vai amparando. No seu caso esse tipo de relação também foi mantida com Portugal. Vimo-los actuar em espaços exíguos como o Maxime em Lisboa, crescer enquanto iam lançando discos e não temos dúvidas que, na próxima, espera-os um palco maior. Percebeu-se isso com toda a nitidez ontem no Porto.

O responsável tem um nome, Bloom, o seu novo álbum, aquele onde aperfeiçoam a sua linguagem, colocando-a ao serviço de canções de grande intensidade emocional. Ao vivo, em vez da fragilidade à flor da pele de outros tempos, impõem agora um tipo de ambiente mais saturado, com voz, teclados, guitarra e elementos rítmicos mais puxados para cima. E depois compõem um quadro cénico simples, quase sempre em contraluz, mas de grande eficácia.

Mesmo quando as canções pediam algum recato, a assistência mostrava saber as letras de cor e batia palmas. Foi emocionante, com Victoria Legrand esticando ao limite os vocais, enquanto a guitarra ecoava uma e outra vez pela tenda, que se revelou muito pequena para tanta gente. Percebe-se a opção de os colocar num palco mais intimista, mas pressentia-se que iria ser um dos momentos chave do festival. Foi pena que mais gente não tivesse desfrutado dele. Mas não temos qualquer dúvida que rapidamente canções como The hours, Wild ou Myth irão ser ecoadas por muitas gargantas.

Outra opção discutível da organização foi a de colocar os portugueses Linda Martini a abrir o segundo dia, às 17h, quando ainda não havia muito público. Se há grupo em Portugal que personifica uma visão “indie” são eles. Seria uma forma de afirmação do grupo, da parte organizativa portuguesa junto da espanhola e do próprio ambiente ‘alternativo’ português junto de uma audiência internacional. Não temos qualquer dúvida de que se tivessem tocado mais tarde teriam sido outro dos acontecimentos do festival. Porque têm público. Atitude. E canções. Assim, a oportunidade perdeu-se.

Foi um dia e noite para muitos gostos. Um festival com vários festivais. Quem gosta de sentido de espectáculo, com alguma ironia e barroquismo à mistura não se deve ter sentido desiludido com o canadiano Rufus Wainwright e os americanos Flaming Lips. O primeiro veio apresentar o novo álbum, Out Of The Game, mas foi quando puxou dos galões do passado que entusiasmou. Teatral, como sempre, dedicou Greek song à Grécia (“vamos todos rezar um pouco por eles”, disse por entre sorrisos), sentou-se ao piano várias vezes, atacou uma versão de Hallelujah (Leonard Cohen) e até foi buscar uma canção do pai, o cantor folk Loudon Wainwright. Apesar de já não ter a mesma vitalidade do início do seu percurso, ainda é capaz de conquistar uma plateia que não parecia ser a sua.

Público é o que não falta ao excêntrico Wayne Coyne e aos seus Flaming Lips. Quem já viu inúmeras vezes, nos últimos anos, como aconteceu connosco, já sabe o que esperar. Um espectáculo cénico aparatoso, com bolas de espelho, jovens eufóricas dispostas de ambos os lados do palco, confettis e o habitual número do cantor a circular pela cabeça dos espectadores dentro de uma bolha. O que também não muda é a propensão para o líder do grupo se perder em divagações que quebram o ritmo do concerto. A música, essa, tanto vai do rock psicadélico com requintes opulentos ao lirismo mais sôfrego, resultando numa prestação desequilibrada, mas ao qual os admiradores mais empenhados do grupo respondem com satisfação.

Quase nos antípodas estão aqueles que se revêem numa certa pureza rock & roll, temperada por irónica rebeldia. Esses também não se devem ter sentido defraudados, com os americanos Black Lips a levarem a assistência dedicada ao rubro, circulando por cima do público sem ajuda de bolhas, o mesmo acontecendo com os Thee Oh Sees, horas mais tarde, no palco All Tomorrow Parties (ATP), talvez o mais bonito do festival, um verdadeiro anfiteatro ao ar livre, que acolheu com entusiasmo o rock à beira do êxtase dos americanos.

Para visões mais clássicas do universo do rock alternativo, duas bandas afirmaram-se de forma diferente. Os históricos Yo La Tengo, com a habitual dose confinada de ruído e melodia, assente num rock que tem tanto de experimentação como de inteligibilidade, de distorção como de harmonia, propiciando um bom concerto. Já os Wilco, um dos mais esperados da noite, apesar de se sentir que ainda não foram totalmente descobertos em Portugal, deram um espectáculo exigente, não facilitando, variando entre o apelo mais popular e a divagação à beira do improviso, com a música de raiz americana (country ou folk) a encontrar-se com rock ou electrónicas.

Tal como os Flaming Lips também existe uma certa esquizofrenia num concerto dos Wilco, indo da serenidade à catarse num ápice, mas no caso dos segundos essa viagem é feita com elegância. Nada parece forçado, tudo se ajusta, com Jeff Tweedy, a revelar-se um mestre-de-cerimónias adequado para um grupo sóbrio que soube conquistar, sem pressas, a imensa plateia.

Duas das surpresas da noite, para quem não os conhecia, vieram dos War On Drugs e dos The Chairlift. Dos primeiros vimos só um pouco (tínhamo-los visto há duas semanas em Lisboa), mas não custou perceber que deram um concerto hipnótico, enquanto os segundos foram simplesmente brilhantes, em grande parte pela presença contagiante em palco da cantora Caroline Polachek. Com uma sonoridade pop que não tem receio de procurar ângulos inusitados, como se comprova pelo óptimo álbum deste ano (Something), os nova-iorquinos são ao vivo ainda mais vibrantes do que em disco. A sua música tem tanto de acessibilidade como de estranheza e isso em palco é ainda mais visível, com teclados, guitarras e voz a participarem num fluxo contínuo de energia. Foram excelentes.

E o ambiente no recinto? Simplesmente magnífico, colorido e informal, com a maior audiência internacional que alguma vez se viu num festival pop-rock em Portugal. Ao final da tarde, Erlend Oye (Kings Of Convenience), lá andava em reconhecimento, distribuindo sorrisos e mostrando-se contente pelo espaço. Às vezes toda a gente se senta na relva, como aconteceu no concerto dos americanos Tennis, outras vezes, como sucedeu já madrugada fora, dança-se ao som dos franceses M83, que vão da massa ruidosa do psicadelismo rock ao frenesim electrónico, num instante. São outros dos que irão um dia destes regressar para actuar num grande palco.

Hoje, se dois dos inimigos dos festivais (chuva e futebol), não se intrometerem promete ser outro bom dia, com Kings Of Convenience, The xx, Lee Ranaldo, Forest Swords, The Weeknd ou Wavves.

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