Os The Men de “Leave Home”, o álbum que os revelou o ano passado como tresloucados e insaciáveis seguidores do mote Stoogeano “search and destroy”, serenaram. O título explica a mudança: “Open Your Heart”.
Mas que quer dizer serenar no contexto dos The Men? Apenas que as canções têm formas mais definidas e que, em vez do poder alucinado do hardcore – subliminar em “Leave Home” -, a banda nova-iorquina andou a ouvir “Back in the USA”, dos MC5, em doses cavalares. A serenidade é, portanto, relativa. Eles continuam a berrar como se cantassem sem amplificação (e portanto é preciso gritar muito e o mais possível), continuam a erguer muralhas de ruído quando menos se espera, continuam a pregar o rock’n’roll como linguagem tanto mais efectiva quanto mais próximo estiver do abismo. Neste “Open Your Heart” onde se ouve blues de tremolo e slide com passagem pela galáxia Spiritualized (“Country song”, chamam-lhe) e “spoken word” meio bêbabo, meio “beatnick” em “Oscillation” (e lá chegará no final a citação aos “Silver Apples”); neste álbum que começa com rock’n’roll absurdamente clássico que convoca os Flaming Groovies e Johnny Thunders para a festa (“Turn it around”, grande canção) e que, depois de nos massajar o cérebro com bem-vindo minimalismo eléctrico (“Presence”), com instrumentais recheados de linhas de guitarra aprovadas por Tom Verlaine, e de, heresia, tentar um country-rock à séria (mas construído sobre cimento urbano e não com vista para as montanhas), terminará com uma imensa deflagração de electricidade, confirma-se que sim, os The Men podem ter diminuído um pouco a sofreguidão e o prazer de chafurdar no ruído, mas não passaram a ser meninos. É como dizia um homem sábio: os The Men passam o disco a flirtar com a vertigem que sentem à beira do abismo e, no final, tomam a decisão certa. Dão um passo em frente. No planar que se segue, vêem mais longe que nunca.

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