Fizemos a viagem toda desde a canícula da tarde, que pedia sombra e bebidas refrescantes, até ao fresco da noite, que acabou longa, longuíssima, com a multidão que vive por estes dias em Cem Soldos a pedir mais ritmo, mais música, mais Batida.
As bebidas foram sendo bebidas. A sombra, essa, nem sempre foi possível procurá-la. A música não o permitiria. Ontem, o Bons Sons teve o seu dia mais forte e mais preenchido. A partir do momento em que os Gala Drop, à tarde, no pico do calor, trouxeram transe afro-beat e vibração kraut ao Palco Eira, tanto se passaria em Cem Soldos. Sexta-feira, vimos realmente muito.
Cada concerto foi uma viagem: os You Can’t Win Charlie Brown de harmonias folk a despedirem-se com uma versão de “I’m waiting for my man”, dos Velvet; António Zambujo a cantar perante uma rua lotada para lhe ouvir a voz justa com as palavras e essa ideia bonita que é uma bossa popular portuguesa; os Linda Martini a partir tudo, como habitualmente, para prazer dos fãs, muitos fãs, que lhes sorvem os versos e o estremecimento eléctrico; Tigerman de dedo no ar convocando todos a viajar no seu “Big black boat”; a batida dos PAUS a ribombar e Makoto, o baixista, navegando como Cristo do rock’n’roll sobre os ombros da multidão; e a Batida, Batida mesmo, a encerrar a noite com uma viagem vibrante pela história da música angolana. Tanta coisa, boa gente. Tanta coisa boa no segundo dia do festival Bons Sons, na aldeia de Cem Soldos.
Legendary Tigerman começou por se desculpar. O cabeça de cartaz de sexta-feira, culpa de um acidente nas férias por África, tinha as costas em mau estado e ordens médicas para se moderar. Mas uma one man band alimentada a blues e rock’n’roll nunca se controla totalmente. A energia desta música não o permite.
Acompanhado virtualmente por Asia Argento, logo no início, em” Life ain’t enough for you”, ou mais tarde, pelo vozeirão soul de Lisa Kekaula cantando nos ecrãs “The saddest thing to say”, Legendary Tigerman na verdade, não se conteve. Acelerou na estrada rock’n’roll aberta por Bobby Troup (“Route 66”, pois claro) ou por Eddie Cochran (“20 flight rock”), foi bluesman de guitarra slide gemendo fantasmagorias, foi rock’n’roller conduzindo o concerto como mestre-de-cerimónias soul e, quando chegaram clássicos como “Naked blues”. Quando acelerou o ritmo, pés no bombo em batida feroz e guitarra sacudida com fervor, e se ouviu o grito que define um homem – este, “I’m a bad luck motherfuckin’ rhythm’n’blues machine, let’s go!” (fomos todos com ele, claro) –, nesse momento, o público dançava, Tigerman gritava e parecia tão desenvolto e pouco controlado quanto nos habituou.
Faltava o “Big black boat” anunciado por kazoo, outra canção para dança punk servida por um bluesman, e fechava-se em beleza a segunda noite de Cem Soldos. Fechava? Longe disso. Tigerman era o cabeça de cartaz, mas o que seguiria, essa ideia de génio chamada Batida, foi, se não mais, igualmente entusiasmante. Foi, aliás, uma das marcas do dia.
Quer nos deparássemos com um homem e sua viola campaniça na Igreja de São Sebastião – dessacralizar é preciso e Carlos Batista dessacralizou de forma convincente perante uma igreja lotada que o acompanhou com palmas e felicidade –; quer seguíssemos as canções, o acordeão e a simpatia de Celina da Piedade; quer se ouvisse um António Zambujo que o público, embevecido pela voz quase sussurrada e pelo olhar terno para as pequenas coisas da vida (que são todas as que interessam) não queria que abandonasse o Palco Giacometti; quer sentíssemos a electricidade transbordante dos Linda Martini, que são uma máquina de palco e um fenómeno de devoção (o Palco Eira lotou, as gentes cantaram tudo o que havia para cantar), e fôssemos assaltados por aquelas guitarras enraivecidas, maturadas na dimensão Sonic Youth, ou pelos gritos de uma insatisfação constante, impossível de conter (todos juntos no final: “Foder é perto de te amar, se eu não ficar perto”) – qualquer que fosse o rumo, a estética ou o tom, havia algo a fruir, a admirar, a aproveitar.
O Bons Sons foi ontem um maná. Começou à tarde com os Gala Drop a terem perante si a mais curiosa disposição de público que já vimos. Uma dúzia aglomerada em círculo, uma dezena em fila horizontal ao palco, outra em fila vertical ao mesmo: flocos de gente marcando todo o lugar onde havia sombra que protegesse do calor sufocante. E terminou de madrugada, já depois de os PAUS terem feito a sua cavalgada de ritmo e de groove tremendamente físico – as ancas bamboleiam em frenesim, o cérebro divaga com as vagas de sintetizador e isto, parafraseando-os, é sempre um bem-entendido –, com um festim de história e de música chamado Batida.
Um concerto dos autores de Dance Mwangolé não é simplesmente um concerto. É uma vibrante celebração musical, uma performance activista, um festim de ritmo e de dança. Os sons da Angola da década de 1960 e 1970 transformados matéria do presente: o ritmo electrónico dos musseques, o kuduro agora globalizado, entra na dança, as imagens de arquivo projectadas ganham cor de pinturas tribais e, enquanto a dikanza (conhecemo-la como reco-reco) e as congas se lançam à base rítmica popular da música, a batida electrónica e as vozes (ora hip hop apontado ao coração do poder angolano, ora chamamento para repetir por quem ouve – “Yumbalá!”) transformam esta música numa síntese de tempos e estéticas irresistível.
Frente ao Palco Lopes Graça, ancas meneavam o melhor que podiam, crianças mexiam-se, homens feitos em tronco nu entregavam-se a toda aquela luxúria rítmica. Houve “combate” entre dançarinos e dança de máscaras tribais, houve homenagem a Luaty Beirão, o Ikonoclasta, membro de Batida que é actor importante na mobilização da sociedade civil angolana e nome deveras incómodo para o poder de Eduardo dos Santos, houve uma celebração imensa da vibrante cultura musical angolana que contagiou a multidão que assistia. No final, Pedro Coquenão, Birú, Catarina Limão e restantes comparsas reduziram tudo ao essencial: só as vozes, a dikanza e as percussões. “Batida!”, gritaram, primeiro. “Cem Soldos”, gritaram por fim.
Terminava o segundo dia de Bons Sons e o público estava de papo cheio. Legendary Tigerman, Linda Martini, António Zambujo, PAUS, You Can’t Win Charlie Brown, Gala Drop, Batida. Uf… Cansaço bom.
O festival prossegue hoje com Maria João & Mário Laginha como cabeças de cartaz. Termina amanhã com concertos de Vitorino, Aldina Duarte ou Passos Em Volta.

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