Aimé Césaire, o poeta da Martinica, publica em 1939 o longo poema Cahier d’un retour au pays natal, manifesto contra o colonialismo europeu que é, simultaneamente, um programa estético e político para a criação de um novo homem: o Negro, o ex-escravizado e colonizado. Em 1948, o senegalês Léopold Senghor publica Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française. Outras publicações históricas acompanharam estas, constituindo com elas o núcleo de textos fundadores da negritude, reclamação do fim do colonialismo e do nascimento de novas nações.
Opinião
O revés do pós-colonialismo
Poucos anos mais tarde, o jamaicano Stuart Hall funda, em Londres, os Estudos Culturais, nada menos do que um projecto político de revisão das narrativas até então consideradas da subcultura — e entre as quais se incluíam, entre outros, os textos da negritude. Com a criação deste campo de estudos inovador surge uma forma de reescrever a história dos vencidos (na celebérrima e correcta expressão de Walter Benjamin) que, através de várias expressões contemporâneas ou mesmo posteriores às independências africanas e asiáticas, faria nascer o pós-colonialismo.
O pós-colonialismo deve ser visto no seu duplo significado: como o período histórico que sucede ao colonialismo e cujas últimas datas de referência são, de algum modo, as da descolonização portuguesa e a da “devolução” de Macau à China; e como projecto político nascido no cultural. Autores como Frantz Fanon, Amílcar Cabral, Edward Said, Homi Bhabha, Ngugi Wa Thiong’o são, entre muitos outros e em toda a diversidade que expressam, os fundadores das teorias do pós-colonialismo. Estas, na sua enorme justiça humana, na sua enorme generosidade, na sua visão de transformação social e do bem comum, advogavam a independência de todos os países colonizados, a instauração de regimes democráticos, a revisão das Histórias — das narrativas fundadoras às histórias de arte —, e a convivialidade entre géneros e grupos culturais.
Passados mais de 70 anos sobre o poema de Aimé Césaire, mais de 50 sobre as primeiras independências africanas e, já agora, mais de 200 sobre as independências latino-americanas, poderia parecer que as teses do pós-colonialismo falharam. Contudo, a argumentação dos teóricos pós-coloniais — assente na ideia de que às independências deveria seguir-se uma partilha justa dos recursos e uma ideia de futuro que recusasse qualquer forma de colonialismo interno ou externo — são válidas, mesmo que confirmadas apenas numa minoria de países da América do Sul, em processo na Índia (a maior democracia do mundo), e falhando em grande parte dos países africanos.
O relatório Democratic Reform in Africa, exaustivo sobre a qualidade do progresso nos países daquele continente, aponta o colapso de muitos estados e o controlo dos países por governos oligárquicos, uma implementação de sistemas de fiscalização que vai do medíocre ao bom, uma satisfação muito moderada com as democracias locais — e indica como o maior de todos os incumprimentos as guerras que conduziram à morte de vários milhões de pessoas depois da descolonização e a apropriação dos recursos por uma oligarquia militar ou por governos instaurados através de golpes militares cujos membros depressa se transformaram, por processos quase sempre obscuros, em proprietários e empresários. O que falhou não foi, pois, a generosidade das teses mas sim a crença de que bastaria a auto-determinação para que se criassem modelos financeiros e económicos independentes dos ex-colonizadores e liberdades individuais e mecanismos de representação política democráticos automáticos, sem aprendizagem colectiva, sem regras constitucionais. Por isso estes países foram, numa primeira fase, “colonizados” pelos modelos soviético ou chinês, e, depois da queda do muro de Berlim, pelo capitalismo no seu modo mais bárbaro — aquele que podemos observar em muitas das ex-colónias.
Decorrente deste fenómeno, na última década tem-se assistido àquilo que para o cidadão comum poderá parecer uma vingança dos ex-colonizados no período pós-colonial: refiro-me à aquisição, por investidores africanos, de recursos naturais, empresas, enfim, património substantivo, dos países que foram seus colonos no passado. Se, no caso da relação dos países ibéricos com as suas ex-colónias latino-americanas, este fenómeno da invasão “ao contrário” não parece ser tão traumático, pesem embora episódios como a expropriação, pelo governo argentino, da empresa espanhola YPF (que teve objectivos populistas por parte de Cristina Kirchner), já a percepção desta invasão “ao contrário” tem aspectos de vingança do colonizado em manifestações tão aparentemente cheias de boas intenções como a overdose de acontecimentos do Ano do Brasil em Portugal ou, de forma muito menos inócua, a aquisição monumental de bens, patrimónios e recursos por parte de empresários e empresas angolanas — com a consequência, como atrás se disse, da eventual experiência, pelo cidadão comum, de ser o colonizado de hoje. Sabemos que parte deste fenómeno decorre da globalização financeira que não tem fronteiras e do aproveitamento das fragilidades de muitas economias europeias mais permeáveis a aquisições de “saldo”.
Mas para provar que não foi o pós-colonialismo que falhou há que esclarecer que estas amostras tidas como de uma invasão colonial ao contrário, vindas do Sul, não são da autoria dos povos nem dos países, mas sim de grupos de empresas associados pelo capital a outros grupos ou pessoas que, na Europa, medeiam — como nas antigas colónias os capatazes — os negócios; que, antes de colonizarem os seus ex-colonos, começam por colonizar os cidadãos dos seus próprios países, deixando assim por cumprir uma das premissas fundamentais quer da negritude quer do pós-colonialismo: a independência económica e cultural dos africanos.
Este texto foi publicado no Ípsilon a 26 de Outubro de 2012

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