Daqui a precisamente uma semana, na próxima quinta-feira, arranca no Porto o Optimus Primavera Sound. No segundo ano da extensão do festival nascido em Barcelona, veremos consagrados como Nick Cave & The Bad Seeds, Blur ou My Bloody Valentine, descobriremos nomes como Melody’s Echo Chamber, Savages ou White Fence.
Quando os espanhóis Guadalupe Plata subirem a palco, às 18h, na próxima quinta-feira, dia 30, já um mar de memórias terá sido construído do outro lado da Península Ibérica. O Primavera Sound catalão arranca oficialmente quinta-feira no Parc del Fórum e a cidade mobiliza-se. Pelo menos, a nova cidade que nasce naquela vasta área urbana enclausurada entre a cidade e o Mediterrâneo por onde passarão, até domingo, centenas de bandas.
Quarta-feira, as portas do parque abriram-se para oferecer ao público concertos gratuitos dos ingleses The Vaccines ou dos bascos Delorean. O festival, como sempre, abrindo-se à cidade que, ali, é dele indissociável. É o que nos diz desde Barcelona o artista e músico João Paulo Feliciano, director artístico e cenográfico do Optimus Primavera Sound e que, este ano, colaborou também na concepção da edição catalã. Lê-se quinta-feira no El País: No "ano da crise, um mais, o ano do IVA e da contínua quebra do indústria dos concertos, o Primavera esgotou as entradas e pode conseguir uma assistência histórica. O festival cresce em todos os sentidos: aumentam as actividades paralelas, o número de palcos supera o dos anões de Branca de Neve e tudo leva a pensar que o número de visitantes estrangeiros revigorará um festival que, tal como o Sónar, a outra grande referência [de festivais] de Barcelona, não seria viável sem a contribuição do público forasteiro”.
Joaquim Albergaria, baterista dos PAUS (tocam sexta-feira em Barcelona, passando também pelo Porto, sábado, 1 de Junho, às 20h), descreve directamente da capital catalã um festival em que "não há avalanche de brinde nem joguete ou touros mecânicos", antes "palcos mais pequenos apontados em criar outros focos de destaque ou em diminuir a distância entre a música e quem quer ouvi-la". Nesse sentido, destaca, "é um festival exemplar", povoado por um "público fiel" com "pintas tão diferentes quanto o número de línguas que se vai ouvindo" e "que confia no gosto da organização" - "é assim que vem crescendo e que vai crescendo". No cartaz de Barcelona encontramos nomes que passarão também pelo Porto, como os Blur, Nick Cave, os My Bloody Valentine e, naturalmente, dadas a diferença de dimensão, dezenas de outros mais: dos Animal Collective aos Tinariwen a Kurt Vile.
Aquilo que é hoje este festival está intimamente ligado aos seus doze anos de história (e à sua pré-história). João Paulo Feliciano conta que quando conheceu Gabriel Ruiz, director do festival, foi-lhe apresentado com um dado biográfico, o da sua actividade enquanto fundador dos Tina & The Top Ten, banda do rock sónico português da década de 1990. Gabriel Ruiz não se conteve: “Joder!” Fora ele o promotor que, em 1994, levara os Tina & The Top Ten à Sala Apolo – a mesma que recebeu nos últimos dias os concertos de aquecimento de Primavera Sound. Ao contar esta história, Feliciano pretende ilustrar que a génese daquilo que é o festival, dedicado às margens e de conceito musical firmemente delineado, já estava em embrião muito antes da sua primeira edição. E nele está a cidade ela mesma e o Parc del Fórum onde hoje se realiza: “um parque urbano empalado entre a cidade, a parte mais contemporânea de Barcelona, e o azul do Mediterrâneo. Um contraste quase duro entre as formas dos edifícios e o mar plano”.
No Optimus Primavera Sound portuense trabalha-se para conseguir uma relação de natureza semelhante mesmo. O essencial na montagem de um festival deste tipo, acentua João Paulo Feliciano é “o local em que acontece, porque é que acontece, o que pretende ser e como é que as pessoas que o organizam o vêem no contexto global e local”. Depois, vem tudo o resto, tudo igualmente importante, “da escolha do cabeça de cartaz à cor das braçadeiras que prendem os cabos”. No que à música diz respeito, essa identidade pode ser ilustrada com palavras de Joaquim Albergaria, que reflecte sobre a presença nos cartazes da edição catalã e portuense de nomes fora do universo anglo-saxónico, ou seja, bandas portuguesas como os PAUS ou The Glockenwise, espanholas como os Guadalupe Plata ou tuaregues como os Tinariwen: "O festival sempre se preocupou em abrir os braços e os ouvidos a nova música, viesse de onde viesse". Neste preciso momento, há "uma sincronia entre o aumento de qualidade fora do eixo Reino Unido/Estados Unidos e o interesse e facilidade da comunidade global melómana em querer conhecer a diferença".
Em Barcelona, o Primavera Sound começa quinta-feira a ser vivido em pleno. Para a semana, será a nossa vez. À escala da cidade. Feliciano, que se interroga se os festivais não começam a ser grandes demais, que responde “não sei” e acentua não saber mesmo responder – “how big is too big?” [“quão grande é demasiado grande?”], pergunta a si mesmo -, adianta que, de 2012 para 2013, “a escala do Optimus Primavera Sound é exactamente a mesma na disposição ou no número de palcos”: “Se as coisas estavam bem, mantêm-se. O layout é muito confortável. É possível fazer o festival todo sem ter a sensação de exaustão”.

Comentar