"Hoje, é impossível caracterizar o cinema independente”, dizia Richard Peña, na sexta-feira, a um grupo de alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema na Amadora (ESTC). “A perspectiva [do cinema independente] era clara: criar uma alternativa ao que Hollywood oferecia. Foi assim desde os anos 20 até aos anos 80. Depois, os independentes perderam isso, e a vanguarda que existia deslocou-se para as galerias e os museus. Há pessoas que fazem os seus filmes, mas, como movimento de importância cultural, o cinema independente já acabou.”
Para os jovens alunos, o programador foi claro: aquilo que carrega o nome de “independente”, hoje, no cinema norte-americano, são apenas projectos de menor orçamento dos grandes estúdios de cinema. Por outras palavras, mais marketing do que criatividade.
No entanto, Peña é um dos maiores defensores da independência criativa e financeira no cinema. Durante 25 anos, e até ao mês passado, foi director do Film Society of Lincoln Center e do cinquentenário New York Film Festival, duas das instituições cinematográficas mais importantes dos EUA. Ambas são uma oportunidade privilegiada, nesse país, para conhecer autores fora do círculo de Hollywood e promover a sua divulgação. E em Portugal, presente para o simpósio Arte vs. Cultura e Indústrias Culturais, organizado no CCB pelo Lisbon & Estoril Film Festival, Peña veio contar a história de um cinema feito fora dos estúdios em duas masterclasses — na ESTC e na Faculdade de Letras de Lisboa.
Lembrou momentos em que determinados colectivos (Film and Photo League, nos anos 30; NY Newsreel, nos anos 60), etnias da sociedade norte-americana (o cinema afro-americano, “que terminou quando Spike Lee assinou um contrato com a Universal”) ou artistas de vanguarda (Maya Deren e Meshes of the Afternoon, 1943) desenvolviam linguagens contrárias às narrativas comerciais de Hollywood. Mas, hoje, o facto de cineastas apelidados de “independentes” trabalharem para grandes estúdios (Wes Anderson, os irmãos Coen, Gus Van Sant ou Todd Haynes, dizemos) é a derradeira assimilação, por parte de Hollywood, de um gesto recorrente na história. “É tal como o cinema alemão nos anos 20, o único cinema do mundo que lhe fez concorrência. Convidaram Murnau, Lubitsch, Lang — com uma ajuda de Hitler, que os proibiu. Mas olhamos para outros sítios, como Hong Kong ou Austrália, e vemos que todos foram para Hollywood.”
O cinema independente, nos últimos anos, virá sobretudo de outros países da América Latina ou da Ásia, que Peña divulgou com insistência nos EUA. São essas regiões, tal como a Europa, que hoje financiam autores afastados dos estúdios. “Existem pessoas, como Jim Jarmusch, que se separaram da indústria para fazer filmes. Mas qual é o segredo? O financiamento japonês. O último filme americano de David Lynch foi Veludo Azul (1986), os seguintes são produções estrangeiras.” Ao referirmos a Borderline Films, colectivo nova-iorquino que produz as suas obras (Sean Durkin, Antonio Campos, Josh Mond), Peña explica que a integração em Hollywood “seria o melhor para eles, caso venham a ter sucesso [comercial]. Caso contrário, vão ter de parar.”
Menos hipóteses de exibição
Uma nova independência poderia surgir com as facilidades do digital. Mas se o seu fácil acesso traz um aumento de pessoas que filmam, nem todos são autores. “O festival de Sundance recebe quase mil filmes independentes todos os anos. Desses, mostra cem. Outros vinte vêm de South by Southwest ou do New York Film Festival [NYFF]. De todos, talvez dez serão distribuídos, cinco terão sucesso.” A sua distribuição comercial é dificilmente concretizável. “O festival de Varsóvia pediu-me uma retrospectiva sobre os primeiros 10 anos do cinema independente deste milénio. Pesquisei aquele que era apresentado em Sundance e surpreendeu-me a quantidade de filmes de que nunca tinha ouvido falar. E esta é vista como a plataforma mais importante do cinema independente nos EUA.” São os festivais, portanto, que assumem o acolhimento de obras exteriores aos estúdios, com a difícil função de as proteger contra o esquecimento. “Como tantos filmes, o público precisa de guias. Se apresentarmos 350 obras, o que é que o público consegue fazer? [No NYFF,] preferimos uma visão mais restrita, mas que seja mais clara sobre essa multidão de filmes.”
Apesar de a variedade tornar difícil a sua caracterização, Peña realça que o cinema indie pode unir-se à volta de uma dimensão pessoal. “Se alguém fizer um estudo, vai descobrir que há géneros tal como no cinema comercial. Há o das segundas gerações: famílias irano-americanas ou árabe-americanas, com uma luta entre uma geração mais velha, não totalmente estabelecida, e outra mais nova, que quer sentir-se parte do país.” Do mesmo modo, histórias pessoais de amor ou que mostram “uma busca do pai”, e que surgem, nos festivais independentes, “às centenas”. Por outro lado, a atracção pelas vendas internacionais faz com que novos autores optem pelo formato esquemático dos estúdios, “obras cinéticas, viradas para as sensações”, que unem públicos estrangeiros “pela atracção dos efeitos especiais”.
A importância de promover as especificidades de cada país torna-se num trabalho fundamental para um programador. Peña e o Lincoln Center são também responsáveis pela promoção de cinema português nos EUA. “Os dois cineastas mais destacados são talvez João Pedro Rodrigues, cujo cada novo filme é melhor que o anterior, e Miguel Gomes. Gostei muito de A Última Vez que Vi Macau [co-realização de Rodrigues e Guerra da Mata], e também de Tabu, um filme impressionante que teve muito sucesso [no Lincoln Center]. Estou certo que vai ter um enorme apoio do público nova-iorquino na estreia comercial.”
Notícia corrigida no dia 21/11 às 12h24: Corrigida a palavra cinéticas
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