Nem Stone Roses, nem Justice. A festa foi dos Buraka.

O modelo está consolidado. Seis anos depois o Optimus Alive é uma aposta ganha. O espaço do passeio marítimo de Algés não é extraordinário, mas é funcional, apesar da sobreposição de som entre os três palcos ainda se fazer sentir por vezes. E o cartaz, de ano para ano, demonstra solidez, com a aposta em grupos firmados – alguns deles, veteranos, capazes de apelar a um público mais transversal – e gente nova que emergiu há pouco.

O primeiro dia da edição deste ano era aquele que suscitava menos atenção, mas o espaço esteve repleto (cerca de 40 mil pessoas), o que faz prever uma enchente no domingo, com Radiohead, e mesmo hoje, com os The Cure. E quem foram os grandes vencedores da noite de ontem? Sem dúvida os portugueses Buraka Som Sistema que mesmo actuando no palco secundário, que se revelou muito pequeno como seria de esperar, arrasaram. Num dia de sonoridades dançantes foram eles os único que verdadeiramente colocaram toda a gente em euforia.

Em relação ao início da digressão em torno do álbum “Komba“, encetada no final do ano passado, há um grande salto qualitativo. As novas canções estão perfeitamente integradas no alinhamento e, claro, o público também já as conhece. O resto está mais do que testado: frenesim rítmico, cada vez mais orgânico, graças à presença de duas baterias, entrecortado por efeitos e soluções electrónicas e pelas interpelações dos três agitadores vocais.

Na parte final, como já se tornou hábito nos concertos do grupo, o palco foi pacificamente invadido por dezenas de pessoas, mas nem era necessário esse gesto simbólico para valorizar a aliança entre palco e plateia. Ao longo do concerto essa ligação foi mais do que evidente, com toda a gente a saltar ao som de “(We stay) up all night”, “Kalemba (wegue wegue)” ou “Wawaba”.

No palco principal, dos três nomes mais sonantes (Stone Roses, Snow Patrol e Justice), acabaram por ser os últimos a revelar maior eficácia. Mas também não foram além disso. Dentro do género “música de dança para massas” não possuem ainda o sentido cénico dos compatriotas Daft Punk, apesar do imponente jogo de luzes e do som contundente, nem a funcionalidade dos Chemical Brothers, mas não se saem mal da recriação da sonoridade electrónica corrosiva de temas como “D.A.N.C.E.”, “New lands” ou “Phantom”. Para quem já os viu em espaços fechados e mais pequenos, como nós, fica a ideia que é aí o seu verdadeiro habitat. Naquele contexto, a energia dissolve-se.

Às tantas estávamos a ver os Stone Roses, regressados das cinzas do final dos anos 80, e a pensar que teriam ganho se tivessem actuado no palco secundário como aconteceu o ano passado com os irmãos de estética Primal Scream. Ali, no palco principal, perderam-se, com a maior parte das canções a serem recriadas de forma baça, sem nervo, frescura, poder de síntese.

Sim, o cantor Ian Brown desafinou imenso, mas nem é por aí. O problema é que magníficas canções como “Made of stone”, “She bangs the drum” ou “Waterfall” vivem de um equilíbrio precário entre impulsos rock e um balanço sensual, que o grupo já não consegue agarrar, perdendo-se em deambulações e solos inúteis que em vez de acrescentaram qualquer coisa, apenas deitam a perder o essencial. Nem os muitos ingleses presentes parecem ter ficado convencidos com a prestação de um grupo que marcou a cultura pop do final dos anos 80 e início dos 90.

Antes tinham actuado os Snow Patrol, uma espécie de réplica de rock de estádio dos Coldplay ou dos Killers, que por sua vez já são dos U2 – de longe, os melhores, de todo este conglomerado – mas em versão ainda mais morna. Foram aplicados, como são normalmente este tipo de bandas, mas também quase sempre previsíveis, com canções pop de sentido épico que, mesmo assim, não chegaram para entusiasmar por aí além a multidão.

Quem entusiasmou, e muito, o público mais juvenil, foram os americanos LMFAO, apesar da sua música ser um pacote de truques para provocar festa. Melhor estiveram três senhoras (Santigold, Plannintorock e Zola Jesus) que actuaram na parte final da noite. Vimos apenas fragmentos das três, mas ficou a ideia que Santigold cresceu ao vivo (coadjuvada por uma banda e duas cantoras de apoio) conseguindo impor um clima de festa tribalista com laivos de rock. Tanto a americana Zola Jesus como Janine Rostron (Planningtorock) habitam universos electrónicos sombrios, sendo pena que tivessem actuado à mesma hora em palcos diferentes. A pequena Zola teve mais assistência, conseguindo impor a sua electrónica marcial, mas Janine também não se saiu mal, com uma pop electrónica de sentido performativo capaz de aliciar quem ficou para a ver.

Death In Vegas, Dum Dum Girls ou Danko Jones foram alguns dos outros nomes que actuaram no primeiro dia de um festival que, hoje, prossegue com The Cure, Morcheeba (em substituição de Florence & The Machine), Tricky ou James Murphy e, amanhã, com Radiohead, The Kills, Mazzy Star ou Metronomy.

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