Música: o que aí vem

Escolhas de Cristina Fernandes, Gonçalo Frota, João Bonifácio, Nuno Catarino, Rodrigo Amado e Vítor Belanciano

Já foram vendidos 66 mil exemplares do álbum só no Reino Unido DR

Bowiemania
2013 já estava predestinado a ser um ano David Bowie mesmo antes de a notícia anunciada há três dias (um single novo, Where are we now?, que é teaser para o inesperado álbum de originais com saída a 12 de Março) ter feito parar as rotativas. Agora, além do ano da grande exposição - David Bowie is, o acontecimento que o Victoria & Albert Museum inaugura a 23 de Março -, este será também o ano do grande regresso aos discos (há dez anos que o músico britânico não lançava qualquer álbum novo: é como se estivéssemos perante a visita de um cometa).

The Next Day, que foi produzido pelo cúmplice de sempre, Tony Visconti, e gravado em Nova Iorque, é o 24.º álbum da carreira de Bowie, sucedendo a Reality, de 2003. Sairá apenas 11 dias antes da abertura da exposição no V&A, uma reconstituição meticulosa do universo Bowie (mais de 300 objectos, incluindo manuscritos de letras, figurinos originais, fotografias, vídeos, cenários, instrumentos e demais iconografia...) que permitirá ler The Next Day no contexto alargado de uma das mais fascinantes e influentes obras (e personae) da segunda metade do século XX.

O circo de Azealia Banks
Azealia Banks tanto pode tornar-se numa das estrelas mais cintilantes do ano como numa das maiores desilusões. Razão? Excesso de protagonismo ao longo dos últimos tempos, com o que isso significa de expectativas amplificadas quando se prepara para se lançar no formato álbum. Com uma sucessão de singles imparáveis e de mixtapes, desde Setembro de 2011 que tem vindo a dar nas vistas. Falta-lhe o álbum para se credibilizar definitivamente. Argumentos não lhe faltam: uma atitude revitalizante - fazendo lembrar a M.I.A. do início - e uma música de grande dinamismo rítmico, algures entre o rap de Missy Elliott ou a electrónica encardida e urbana dos Buraka Som Sistema. Nascida no bairro nova-iorquino do Harlem há apenas 22 anos, tem o mundo a seus pés: do cantor Kanye West ao fotógrafo Terry Richardson, passando por designers de moda como Nicola Formichetti ou Karl Lagerfeld. O álbum de estreia está a ser registado com o produtor Paul Epworth, o mesmo que esteve por detrás do sucesso global da britânica Adele, mas não é crível que alguma vez venha a conhecer um êxito tão transversal. Como outras divas recentes (de Lana Del Rey a Sky Ferreira) o seu habitat natural é a Internet. Nos últimos dias correu mundo a troca de palavras azedas com outra estrela em ascensão, Angel Haze, e com o blogger Perez Hilton. Nada de mais: faz parte do circo que ela domina na perfeição. O álbum Broke With Expensive Taste sai em Fevereiro.

Um "daqueles" Yo La Tengo
Chegados a 2013, os Yo La Tengo são uma instituição da qual se pode esperar tudo: krautrock, coros doo-wop, punk, country, a tua camisola de Outono. Como não ter amor por eles, se eles estiveram ali quando nos doía a adolescência? Em 1995, com Electr-O-Pura, iniciaram a trilogia de discos perfeitos, que incluiu I Can Hear The Heart Beating As One e And Then Nothing Turned Itself Inside Out. Os discos seguintes - sempre bons - ficaram um palmo abaixo, mas bastaria escutar Is that enough, uma das novas canções, cheia de violinos e melodias de encantar, para que a esperança renasça: Agora a boa nova: ouvido e reouvido Fade, apraz-nos dizer que talvez este seja um "daqueles" discos. Cruzem os dedos (e calcem os All Star mais sujos que tiverem).


 
Os pianos da Casa da Música...
Entre a programação de 2013 da Casa da Música, avulta o nono Ciclo Piano EDP. A presença de personalidades maiores como Grigory Sokolov e Elisso Virsaladze, de um intérprete de pianoforte tão fascinante e imaginativo como Andreas Staier ou de impressionantes talentos da nova geração como Evgeni Bozhanov (na foto) e Rafal Blechacz são motivos de atracção de peso. Mas o ciclo tem várias outras propostas aliciantes. Os seus nove recitais apresentam pianistas de várias gerações com perfis bem diferentes, que trazem na bagagem um ampla gama de repertórios: de Bach a Ligeti, passando pelos mais emblemáticos vultos do Classicismo e do Romantismo. Beethoven será um compositor transversal a vários programas, destacando-se a interpretação das Variações Diabelli, de Beethoven, por Andreas Staier, em Novembro. A sua audaciosa gravação desta mítica obra na Harmonia Mundi recebeu vários prémios e ocupou o primeiro lugar entre as escolhas dos melhores discos de 2012 pelos críticos do Ípsilon.

Em paralelo com alguns gigantes do teclado, o Ciclo Piano EDP dá voz a jovens promissores como o português Saúl Picado, vencedor do Prémio Jovens Músicos 2012 e actualmente em estudos de doutoramento na Universidade de Aveiro com Pedro Burmester, a quem cabe o encerramento do ciclo a 8 de Dezembro. Mentor do projecto Casa da Música, Burmester fará a sua estreia como pianista na "casa de todas as músicas" por si idealizada, constituindo uma ocasião repleta de significado.

... e os pianos da Culturgest
Nos últimos anos a Culturgest tem sido a instituição nacional que mais se tem destacado na programação jazz em Portugal. Em 2013, a Culturgest volta a dar cartas no jazz, destacando-se na sua programação os projectos liderados por três pianistas. O primeiro nome grande a passar pela Culturgest é Jason Moran, a 22 de Fevereiro. O pianista estará acompanhado pelo seu trio The Bandwagon, onde tem a colaboração do baixo eléctrico de Tarus Mateen e da bateria de Nasheet Waits. O trio produz uma música frenética, de enorme inventividade e energia, que atravessa a história do jazz, chegando até a namorar com o hip-hop e a música clássica, com infinita descontracção.

Entretanto, a 9 de Maio, chega um trio liderado por outro pianista, Vijay Iyer. O nova-iorquino tem sido um dos nomes mais consensuais da cena jazz mundial nos últimos anos, estatuto alicerçado pela qualidade dos álbuns mais recentes - Historicity (2009), Solo (2010) ou Accelerando (2012). A música do trio condensa dinâmica e originalidade, confirmando-se também muito versátil (ouça-se a vibrante revisão da canção Galang. de M.I.A.). Ao lado do piano de Iyer estão Stephan Crump no contrabaixo e Marcus Gilmore na bateria. O jazz nacional estará representado por uma das suas maiores figuras: Mário Laginha actua nesta sala a 18 de Setembro, com um projecto inédito. Na formação do trio que terá nesse dia a sua estreia absoluta, o pianista conta com a colaboração de Miguel Amaral na guitarra portuguesa e de Bernardo Moreira no contrabaixo.

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