João Bénard da Costa morreu hoje, aos 74 anos. Divulgador de cinema, director da Cinemateca Portuguesa desde 1991, Bénard da Costa nasceu a 7 de Fevereiro de 1935.
A Cinemateca Portuguesa anunciou em comunicado que o corpo do seu director, João Bénard da Costa, estará na Igreja de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa, ao final da tarde de hoje. Numa última homenagem ao cinéfilo que dirigiu a instituição desde 1991 (e que era membro da direcção desde 1980), a Cinemateca – que suspende hoje as suas sessões – vai projectar, em data e hora a anunciar, o filme da vida de Bénard: Johnny Guitar, de Nicholas Ray. Num inquérito de jornal em que lhe pediam para dizer qual o seu filme preferido, Bénard respondia: Johnny Guitar, de Nicholas Ray; porque era ele; porque era eu”.
“Os filmes da sua vida e o seu filme da vida não se distinguiam, e traziam sempre ecos afectivos, memórias culturais, reflexos dos debates que também viveu”, escreve a direcção da Cinemateca no comunicado. “João Bénard da Costa viu muitos filmes, todos os filmes, uma vida inteira de filmes, mas também via sempre filmes que mais ninguém via, porque neles descrevia o que lá estava e não estava, isto é, aquilo que não era aparente e óbvio antes de o lermos nos seus textos”.
O texto recorda também que Bénard “sempre deu a ver os filmes que amava e os outros também, porque a História do Cinema é inclusiva e não exclusiva”. E sublinha que ao longo das três décadas em que foi subdirector e depois director da Cinemateca “nunca abandonou esse credo fundamental de dar a ver e de ensinar como se vê. De descobrir e dar a descobrir”.
No início deste ano, Bénard da Costa foi submetido a uma operação a um cancro.
Bénard da Costa, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, foi um dos fundadores da revista "O Tempo e o Modo", dirigiu o Sector de Cinema do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e presidia à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal. Dedicou-se ainda à crítica e ao ensaio, tendo participado como actor em vários filmes, grande parte dos quais de Manoel de Oliveira. Pelo trabalho à frente da Cinemateca, Bénard da Costa foi condecorado em Setembro passado pelo ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, com a medalha de mérito cultural.
Na última crónica que escreveu para o PÚBLICO, datada de 7 de Dezembro de 2008, João Bénard da Costa refere, em tom autobiográfico, já no final do texto, intitulado "Tempo Turvo: regresso a Cristina Campo": "Nesta crónica, se falei noutra coisa, foi só porque me distraí muito. Dos meus defeitos, talvez seja o maior".
Reacções de pesar sucedem-se
O presidente do Centro Nacional de Cultura (CNC) classificou hoje de "perda irreparável" a morte de João Bénard da Costa, apontando-o como "uma referência fundamental da cultura portuguesa". Guilherme d´Oliveira Martins recordou que Bénard da Costa foi "um dirigente activo" do CNC no princípio dos anos 1970 e um "grande escritor". "Era um homem de talento e sabedoria", sublinhou, lembrando ainda que foi, com Alçada Baptista, "uma das almas da revista 'O Tempo e o Modo'".
"A Cinemateca Portuguesa foi a sua paixão. Legou-nos aí um trabalho fundamental", disse ainda, indicando que a "melhor homenagem que lhe devemos é não deixar cair os seus projectos ligados à aproximação do público em relação à história do cinema, que se confunde com a história do mundo no último século. Os seus textos sobre literatura e sobre as artes são referências. Era um grande amigo".
Também o realizador João Mário Grilo lamentou hoje a morte de João Bénard da Costa, "uma figura decisiva na preparação de Portugal para a democracia". "Somos um país carenciado de exemplos de pessoas que sacrificaram a vida por uma causa pública e por valores essenciais", sublinhou João Mário Grilo, enaltecendo a importância de João Bénard da Costa para lá do cinema. "A presença de Bénard da Costa não se esgota aí. Foi uma figura fundamental e insubstituível", referiu o realizador. Para João Mário Grilo, a Cinemateca Portuguesa "é uma das heranças de João Bénard da Costa em Portugal e a nível internacional. Tudo o que aconteceu lá resultou de uma relação de amor".
Em declarações à Lusa, o fundador do Fantasporto, Mário Dorminsky, destacou o "trabalho notável" de João Bénard da Costa.
O actual vereador da Cultura na Câmara de Gaia descreveu João Bénard da Costa como "alguém que de facto marca o cinema português", nomeadamente pela sua ligação à indústria cinematográfica e pelo seu profundo conhecimento do sector. "Foi com muita pena que tive conhecimento da morte dele, lamento profundamente", disse.
Mário Dorminsky afirmou que há na Cinemateca Portuguesa "pelo menos duas ou três pessoas" capazes de substituir Bénard da Costa. Na opinião de Dorminsky, a nova direcção da Cinemateca "poderá quebrar o enguiço em relação à criação da Cinemateca do Porto". "É um processo que vem desde os anos 70. Luís de Pina [ex-director da Cinemateca Portuguesa] era absolutamente contra e Bénard da Costa contra era", recordou, realçando que declarações do actual ministro da Cultura levaram a crer que seria possível instalar a Cinemateca do Porto na Casa das Artes.
O crítico de cinema Jorge Leitão Ramos afirmou hoje à Lusa que João Bénard da Costa foi o responsável por "uma geração inteira de cinéfilos ter descoberto mais cinema". O crítico do "Expresso" recordou que conheceu Bénard da Costa nos anos 1970, quando este dirigiu o sector de cinema da Fundação Calouste Gulbenkian.
"Foi aí que organizou o primeiro grande ciclo dedicado a Rossellini, com sessões que esgotaram durante semanas e havia filas de jovens para entrar à sorrelfa", disse Jorge Leitão Ramos. "Hoje se calhar é difícil perceber isto, mas na altura não havia vídeos nem DVD. Ver um filme do Hitchcock era naquela noite ou nunca e houve um geração inteira de cinéfilos que descobriu mais cinema".
Para Jorge Leitão Ramos, João Bénard da Costa foi ainda "o melhor crítico de cinema da história do cinema em Portugal", deixando textos em catálogos da Cinemateca, como os dedicados a Luis Buñuel, Fritz Lang e, mais recentemente, a Manoel de Oliveira, um dos realizadores que mais defendeu.
O produtor Paulo Branco também lamentou, aos microfones da Antena 1, a morte de Bénard da Costa: "Foi um divulgador, um impulsionador, um protector. Ele foi tudo no cinema em Portugal. É uma pessoa que foi imprescindível para que possamos hoje em dia ter o conhecimento da obra cinematográfica da maior parte dos grandes autores do cinema mundial". "A minha existência no cinema deve-se a João Bénard da Costa", sublinhou o produtor, citado pela Lusa, referindo que foi graças a Bénard da Costa que "muitas gerações viram cinema em Portugal". "Ele institucionalizou a Cinemateca, que foi essencial no fascínio que o cinema exerceu sobre nós", disse ainda Paulo Branco, citado pela agência noticiosa.
O ensaísta Eduardo Lourenço lamentou igualmente o desaparecimento de João Bénard da Costa resumindo numa breve declaração a ideia que tinha do presidente da Cinemateca: "Morreu o senhor Cinema Português".
Eduardo Lourenço lembrou que conheceu Bénard da Costa quando colaborou na revista "O Tempo e o Modo", na qual o presidente da Cinemateca Portuguesa "era um dos principais animadores, ao lado de António Alçada Baptista". Desde então, o ensaísta, embora residindo em França há muitos anos, acompanhou o percurso de Bénard da Costa, e tornou-se amigo da família. Destacou ainda que Bénard da Costa "foi também um grande ensaísta e revelou-se, no últimos anos, um cronista de rara qualidade".
Por seu lado, o crítico literário e professor universitário Manuel Gusmão lembra os textos sobre cinema de Bénard da Costa que revelavam "uma cultura muito vasta, uma compreensão dos mecanismos da ficção cinematográfica admirável". "O modo como ele falava de filmes que para ele, como para mim, como para outros passavam a ser aqueles que nunca esquecemos e que revemos vezes sem conta. Somos capazes de repetir às vezes diálogos inteiros de cor. É o que se passa por exemplo com Johnny Guitar de Nicholas Ray ou com O Rio de Jean Renoir."
Academia de Belas Artes manifesta pesar
A Academia Nacional de Belas Artes manifestou hoje pesar pela morte de João Benard da Costa, descrevendo-o como uma "grande figura da cultura portuguesa". Numa nota enviada pelo presidente da Academia, António Valdemar, o presidente da Cinemateca, Bénard da Costa é recordado pela "notável proficiência intelectual e cívica que marcou decisivamente várias gerações". Valdemar aponta ainda que Bénard da Costa pertencia há muitos anos à Academia Nacional de Belas Artes, instituição cuja colaboração "honrou".
Por seu lado, o director do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), José Pedro Ribeiro, afirmou hoje que a morte de João Bénard da Costa "é uma perda bastante grande para o cinema". "O que representou para o cinema é único", sublinhou José Pedro Ribeiro à Lusa, referindo o "relacionamento fantástico" entre o ICA e a Cinemateca Portuguesa. "A responsabilidade que virá para o sucessor será muito grande. A fasquia está bastante elevada. Caberá a essa pessoa continuar um legado que fica para a história", disse José Pedro Ribeiro.
João Bénard da Costa, que morreu hoje aos 74 anos, era "um cineasta que não praticava", disse à Lusa a presidente da Associção Portuguesa de Realizadores (APR), Margarida Gil. "Quando soubemos que ele estava doente, foi sempre impossível conceber que poderia morrer. Fica um vazio enorme no cinema português", disse a realizadora.
Margarida Gil recorda que foi na Cinemateca que se estreou como realizadora e que de Bénard da Costa "se esperava sempre uma opinião". "Havia uma grandeza na dimensão do João Bénard da Costa que era semelhante aos realizadores que ele trazia", referiu.
Figuras políticas reagem ao óbito
O líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, qualificou de "perda enorme para a Cultura portuguesa" a morte do director da Cinemateca, João Bénard da Costa, hoje ocorrida.
Essa perda, assinalou Rangel, atinge "em particular" o cinema "mas não só, por exemplo também a pintura", área em que Bénard da Costa também se evidenciou.
"Trata-se também - disse ainda o cabeça-de-lista social-democrata às eleições europeias - de uma perda enorme para quem o seguia semanalmente, durante anos, nos vários meios de comunicação social, com crónicas absolutamente fascinantes".
Na opinião do dirigente social-democrata, a "Cinemateca Portuguesa tem aqui uma perda irreparável. Se há pessoa que se confundia com o cinema em Portugal, e com a Cinemateca em particular, era João Bénard da Costa".
O embaixador de Portugal na UNESCO, Manuel Maria Carrilho, sublinhou que "ninguém compreendeu e explicou melhor o cinema universal e português" do que João Bénard da Costa, director da Cinemateca Portuguesa, hoje falecido, aos 74 anos.
Em declarações à Lusa, o antigo ministro da Cultura descreveu-o como "um grande cinéfilo", explicando que usava aquela palavra no sentido em que a usou o ensaísta Eduardo Prado Coelho. Bénard da Costa "era alguém que vive, ama, escreve e sonha através do cinema. Alguém para quem o cinema é a lente do mundo e da vida", aprofundou Manuel Maria Carrilho, sobre o sentido daquela definição.
Destacou ainda que foi um "excelente" director da Cinemateca Portuguesa, com quem teve "o gosto de trabalhar durante os anos em que se abriu o Arquivo Nacional de Imagens e Movimento e o projecto de requalificação da Cinemateca", na Rua Barata Salgueiro, em Lisboa.
"Deve-se muito a Bénard da Costa", salientou ainda o embaixador de Portugal na UNESCO, apontando que o director da Cinemateca "é, sem dúvida nenhuma, uma figura de referência da cultura portuguesa".
Ressalvou que apesar de não ter sido o fundador da Cinemateca Portuguesa, "foi o consolidador do ponto de vista da instituição, da estrutura, dos meios e do pessoal qualificado".
"Também é bom lembrar que foi um grande escritor", concluiu Manuel Maria Carrilho.
Traços de uma vida
João Pedro Bénard da Costa nasceu a 7 de Fevereiro de 1935, em Lisboa, e cresceu entre a casa da Avenida António Augusto de Aguiar e os Verões na Arrábida – sobre os quais escreveu longamente nas crónicas do PÚBLICO. Na Universidade começou com o curso de Direito, mas rapidamente mudou para Histórico-Filosóficas. É desse tempo que vêm algumas das suas mais fortes amizades, figuras como Pedro Tamen, Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva, Nuno Portas, Manuel de Lucena, Francisco Sarsfield Cabral, Paulo Rocha.
Entre 1957 e 1960, Bénard, já apaixonado por cineastas como Rosselini e Bresson, dirige o cineclube Centro Cultural de Cinema e também a Juventude Universitária Católica (1958/58). Casa-se em 1958, um ano antes de terminar a licenciatura. É depois de conhecer António Alçada Baptista que surge a ideia de criarem uma revista. O primeiro número de O Tempo e o Modo sai em 1963 com Alçada como director e Bénard como chefe de redacção e, mais tarde, Vasco Pulido Valente como subchefe.
Em 1965 Bénard faz parte do grupo de 101 católicos portugueses que assinam um manifesto contra a guerra colonial (grupo que incluía também Francisco Sousa Tavares, Sophia de Mello Breyner, Ruy Belo, Lindley Cintra). Três anos depois sai da Igreja Católica – estava-se em Maio de 1968.
No ano seguinte, é convidado para a secção de cinema no serviço de Belas Artes da Gulbenkian (onde já era investigador no Centro de Investigação Pedagógica) e organiza ciclos inesquecíveis, começando ao mesmo tempo a dar aulas de Cinema no Conservatório. No início dos anos 70 dirige o Centro Nacional de Cultura.
Em 1980, Vasco Pulido Valente, então secretário de Estado da Cultura, convida-o para o cargo de subdirector da Cinemateca Portuguesa, então dirigida por Luís de Pina. Depois da morte deste, Bénard assume a direcção, em 1991, cargo que manteve até ao fim da vida – um trabalho pelo qual foi condecorado, em Setembro passado, pelo ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, com a medalha de mérito cultural.
Foi só quando os problemas de saúde de Bénard se agravaram, no ano passado, que o subdirector Pedro Mexia assumiu a direcção interina. Antes disso, em 2006, nas vésperas da sua licença especial para continuar na direcção depois da idade da reforma, Bénard escreveu numa crónica que corria o risco de ser “abatido no activo”. Um abaixo-assinado pela sua continuação começou imediatamente a circular na Internet e a então ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, acabou por lhe renovar a licença especial.
Em 1990 foi galardoado com a Ordem do Infante D. Henrique pelo então Presidente Mário Soares. Em 1997, Jorge Sampaio, nomeou-o presidente da Comissão do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades. E em 2001 foi galardoado com o Prémio Pessoa.
Bénard da Costa escreveu vários livros, entre os quais Muito lá de casa e Filmes da Minha Vida/Os Meus Filmes da Vida. As crónicas no PÚBLICO mereceram-lhe o Prémio João Carreira Bom.
Notícia alterada às 18h20

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