Galina Vichnevskaia (1926-2012), a diva da ópera russa que era conhecida como a “Maria Callas do Bolshoi” e foi mulher do famoso violoncelista e maestro Mstislav Rostropovich (1927-2007), morreu esta terça-feira, aos 86 anos, noticiou a televisão estatal russa.
Galina “morreu na sua casa em Joukovka, nos arredores de Moscovo, acompanhada pela família e amigos”, disse à agência AFP Iulia Ivanova, porta-voz do centro de canto que tem o nome da intérprete, sem indicar as causas da morte, mas revelando que ela se tinha deslocado recentemente à Alemanha para receber cuidados de saúde.
O crítico e colaborador do PÚBLICO Augusto M. Seabra classifica Galina Vichnevskaia como “uma das mais marcantes intérpretes da segunda metade do século XX, e expoente da interpretação da música russa”, destacando, em particular, “o disco extraordinário” com o seu recital de canções de Mussorgsky e de outros compositores russos, recentemente reeditado pela EMI.
Galina Vichnevskaia iniciou a sua carreira em 1944, na terra onde nasceu, São Petersburgo (então Leninegrado). Em 1953 ingressou no Bolshoi, depois de no ano anterior ter vencido um concurso de canto organizado naquele teatro de Moscovo. Foi aí que se fez notar com interpretações de personagens de óperas de Tchaikovsky.
A sua carreira ganhou projecção internacional quando, em 1961, se estreou no palco da Metropolitan Opera de Nova Iorque, numa produção da Aida, de Verdi. Seguiram-se interpretações também muito aplaudidas em Londres e em Milão, em personagens do reportório operático russo e italiano.
Augusto M. Seabra, que não tem memória de que a cantora tenha actuado em Lisboa, chama a atenção para “um momento simbólico” na sua carreira internacional. “Quando, em 1962, o compositor britânico Benjamin Britten compôs o seu War Requiem para a celebração da nova catedral de Cantuária, que tinha sido destruída durante a guerra, fez apelo a três solistas de nacionalidades diferentes, de entre aquelas que tinham sido atingidas pela grande catástrofe do conflito mundial: a soprano russa Galina Vichnevskaia, o tenor britânico Peter Pears e o barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau”.
Galina Vichnevskaia, nascida em 1926, casou-se em 1955 com Mstislav Rostropovich. No início da década de 1970, o casal começou a ser perseguido pelo Kremlin, por causa do apoio prestado a figuras pouco apreciadas pelo regime comunista, como Alexander Soljenitsin, após o lançamento no estrangeiro, em 1973, do seu polémico Arquipélago de Gulag (o escritor chegou a refugiar-se em casa dos dois artistas), e o académico Andrei Sakharov.
Galina e Mstislav tiveram também uma forte ligação com dois compositores que tinham caído em desgraça perante a liderança soviética ainda no tempo de Estaline: Prokofiev e Chostakovitch.
Em 1974, o casal abandona mesmo a URSS para se fixar no Ocidente, tendo morado primeiro em França e depois nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a cantora e o violoncelista tornam-se cidadãos suíços e vêem ser-lhes retirada a nacionalidade russa, que viriam a recuperar em 1990 com a Perestroika de Mikhail Gorbatchov.
Este ex-líder russo reagiu hoje à morte de Galina Vichnevskaia, dizendo à agência Interfax, citado pela AFP, que ela é “uma grande perda para a cultura russa”. “Ela era uma actriz [em 2006, tinha sido a protagonista do filme de Alexander Sokurov Alexandra, que passou no Festival de Cannes] e uma cantora assombrosa”, adjectivo que estendeu ao seu marido, que morreu em 2007. “Eles não eram apenas excelentes no domínio artístico. Eram-no também nos momentos difíceis, quando era preciso ajudar alguém”, acrescentou Gorbatchov, lembrando o concerto que ambos deram em Moscovo, em 1999, em homenagem à sua mulher Raïsa (1932-1999), e também o apoio prestado a Soljenitsin.
Para além do citado filme de Sokurov, Augusto M. Seabra salienta outro título que o realizador russo dedicou ao casal Galina-Mstislav, “o maravilhoso” Elegia da Vida (2006). E recorda outro momento a comprovar “o extraordinário talento dramático” de Galina: a versão filmada da ópera Katerina Ismailova, de Chostakovich.

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