Fausto Bordalo Dias: Montanhas ao alto, mesmo com o sonho adiado

O que se ouviu no coliseu de Lisboa foi uma esforçada e em grande parte bem-sucedida tentativa de igualar a matriz de estúdio, com imperfeições naturais e outras evitáveis Daniel Rocha

Fausto Bordalo Dias
Em Busca das Montanhas Azuis
4 estrelas (em 5)
Lisboa, Coliseu dos Recreios
Sábado, 20 de Outubro às 22h
Sala mais de meia

Sinal da crise, o concerto em que Fausto estreou Em Busca das Montanhas Azuis não esgotou o coliseu de Lisboa. Não que o não merecesse, mas porque “os tempos que atrás de tempos vêm” obrigam a maior contenção nos gastos. E o preço dos bilhetes também não ajudou: entre 30 e 60 euros em Lisboa, entre 35 e 55 euros no coliseu do Porto (onde o disco será apresentado quinta-feira dia 25 de Setembro, às 22h). Depois da “carta branca” no CCB em 2010, onde Fausto mostrou em primeiríssima mão sete das canções do terceiro tomo da trilogia das descobertas (o disco só sairia mais de um ano depois, em Novembro de 2011), este concerto era aguardado com a expectativa de ver e ouvir, em palco, a obra-prima que o disco reconhecidamente é. O desafio era imenso, porque este disco tem teias harmónicas e melódicas bem mais intrincadas do que as de “Por Este Rio Acima” (1982) ou “Crónicas da Terra Ardente” (1994), seus magníficos antecessores.

O que se ouviu no coliseu de Lisboa foi uma esforçada e em grande parte bem-sucedida tentativa de igualar a matriz de estúdio, com imperfeições naturais e outras evitáveis. Por exemplo: a voz de Fausto, claríssima na abordagem das palavras e no tecer das narrativas, chegava à sala em ondas, o que, se por absurdo fosse glosa das viagens marítimas, só prejudicou a compreensão das letras em toda a sua complexidade e subtileza. Mau ajuste do microfone e da intensidade de amplificação da voz, esta falha prejudicou parcialmente o concerto. Os músicos, por sua vez, deram o seu melhor para pôr de pé o que era uma filigrana dificilmente reconstituível em todo o seu esplendor. Saíram-se bem, mais uma vez com as diversas “vozes” a precisarem, aqui e ali, de um equilíbrio mais atento.

Porém, por detrás de tudo isto (que levou a pontuais manifestações de desagrado entre o público), ergueu-se uma obra monumental que resiste a tudo. Desde as primeiras notas da “Aproximação à terra” até à sentida homenagem de “A embala de Silva Porto”, o brilho essencial do disco andou, imperioso, por ali, com momentos memoráveis (“E viemos nascidos do mar”, “Por altas serras de montanhas” ou “De um crescente dourado”, onde fumos e luz amarelada quase simularam uma estranhamente suave tempestade de areia) e outros ainda em busca da perfeição original (como a belíssima “Fascínio e sedução” ou a babélica “Nesta selva do guinéu”). De parte ficaram só algumas baladas, como “A mais débil das lágrimas” ou “Quase em tons de cristal”, para que o espectáculo não fosse demasiado longo. De resto, o disco foi apresentado na sua sequência original, com um “intervalo” em que João Ferreira e Mário João Santos protagonizaram o habitual “duelo” de bateria onde a chula, como sempre, apelou com êxito aos impulsos rítmicos da plateia. O remate com “Na ponta do cabo” (tempestade avassaladora do “Crónicas”) renasceu como desdramatização do drama: o naufrágio tremendo narrado na canção, acompanhado com entusiasmo juvenil pelos músicos, por entre as trovejantes batidas de tambor e paus da sua cadência, deu ênfase à frase final: “Salva, salva o corpo”. Há uma luz na tragédia.

Por fim, ainda os ventos sopravam por sobre os muitos aplausos com que, de pé, a sala aclamou o espectáculo, veio um balde de água fria: Fausto pediu desculpa por não ter podido ensaiar com os músicos a canção mais votada no Facebook para fechar a noite: “Lembra-me um sonho lindo”. Em troca, cantou “Navegar, navegar” (também muito votada, mas menos) e a plateia, conformada mas exaltante nas palmas cadenciadas, teve que trocar o sonho pela navegação. Se fosse uma metáfora da vida que levamos, não podia ser mais adequada: navegamos, sabe-se lá com que rumo, adiando os sonhos. Os navegadores de Quinhentos, mesmo com todas as adversidades, acabaram por chegar a paraísos inimaginados. Fausto, que tão bem os cantou e canta (devia, a este propósito, ser objecto de ensino nas escolas, tão fabulosa é a sua obra) talvez já leve o “sonho lindo” para mostrar no Porto. Mesmo que, na vida real, tal miragem teime em faltar à chamada.

Notícia corrigida às 14h36 de 23 de Outubro: o nome do baterista estava mal grafado

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