É preciso molhar os pés para ver Michelangelo Pistoletto. A chuva que caiu no Norte do país nos últimos dias deixou as plantas molhadas e a nova instalação do artista plástico está no meio de uma horta, em Guimarães. É aqui que está colocada a obra de arte pública encomendada pela Capital Europeia da Cultura em que o criador italiano dá corpo ao manifesto Terzo Paradiso.
A escolha da horta pedagógica para instalar a obra de arte contemporânea foi do próprio artista depois de ter visitado Guimarães pela primeira vez, no final do ano passado. O espaço fica numa zona exterior à cidade, junto do pavilhão multiusos, tendo-se tornado um fenómeno de utilização por parte de uma população urbana à procura de um contacto com a terra. "Há ali uma dinâmica social muito própria e já era um sítio que a cidade acarinhava pela forma como as pessoas podem tratar a natureza", ilustra a programadora de Arte e Arquitectura da Guimarães 2012, Gabriela Vaz Pinheiro.
A peça é composta por cerca de duas dezenas de postes de madeira, que compõem o símbolo do terceiro paraíso pensado por Pistoletto no seu manifesto Terzo Paradiso. O artista reformulou o símbolo do infinito, passando-se de duas para três baías, representando os três paraísos. Ao primeiro paraíso, um paraíso natural que na nossa iconografia acabou com a mordida da maçã, junta-se um segundo paraíso artificial, da tecnologia, que nunca cumpriu as promessas feitas à humanidade. O que ele propõe é que esses dois paraísos se encontrem no meio e gerem uma nova dinâmica social.
A obra para a Guimarães 2012 foi pensada por Michelangelo Pistoletto e executada em colaboração com estudantes da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Por isso, cada estaca que compõe a peça foi decorada de uma forma particular, o que torna única cada uma delas, mas sem perder uma referência de conjunto. "A peça integra-se muito bem naquele ambiente", comenta Gabriela Vaz Pinheiro. "Pistoletto não quis fazer uma peça de arte pública que se auto-impusesse, não é uma peça de rotunda", sustenta a artista que fez a curadoria deste trabalho.
A nova criação de Pistoletto, considerado um dos mais relevantes e radicais artista do pós-guerra italiano, é apresentada esta manhã (11h) e é "uma oferta ao local", explica a programadora de Guimarães 2012: "Pode ter um carácter temporário, se as pessoas se fartarem. Mas pode ser apropriada pelas pessoas se elas quiserem."
As sete mesas
Além de Terzo Paradiso, a presença do artista plástico na Guimarães 2012 contempla também a exposição de uma obra fundamental da sua criação recente. Love Difference, que apresentou pela primeira vez em 2003 quando recebeu o Leão de Ouro pela sua carreira na Bienal de Veneza, vai estar patente até Dezembro em vários espaços da cidade.
Esta é uma série de sete mesas, representando os recortes de sete mares, com que o artista plástico pretende propor uma reflexão sobre o diálogo entre os povos. Daí ter escolhido a forma de mesas, simbolizando o espaço de encontro e de discussão que elas podem ser. As peças de Love Difference têm desde então circulado por todo o mundo nos últimos anos e Guimarães é a primeira ocasião em que voltam a encontrar-se.
Sete espaços da cidade - desde o museu da Sociedade Martins Sarmento ao Tribunal da Comarca - vão receber as obras e até 1 de Dezembro. "As pessoas podem usá-las, sentar-se a ler um livro ou tomar chá", ilustra Gabriela Vaz Pinheiro. Esta possibilidade será sobretudo utilizada pelo serviço educativo da Guimarães 2012, que tem várias actividades formativas previstas para estes espaços.
No dia 8 de Dezembro, os sete mares reencontram-se na Fábrica ASA, onde vão manter-se em exposição conjunta durante uma semana. Essa ocasião será motivo para uma conferência realizada em torno das próprias mesas, que vai juntar sociólogos, artistas, filósofos e o próprio Michelangelo Pistoletto, para discutir as transformações culturais recentes, sob o mote "Being Singular Plural".

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