Steven Soderbergh, que vai mesmo fazer uma paragem na carreira, diz que se por alguma razão ela acabasse agora ele não se importaria que o seu último filme fosse Behind the Candelabra.
Porque isso significaria poder encontrar as mesmas coisas no primeiro filme e no último: intimidade, simplicidade. “São duas pessoas numa sala, basicamente. Isso tem muito a ver com o meu primeiro filme”, Sexo, Mentiras e Vídeo, Palma de Ouro em Cannes 1989.
As duas pessoas numa sala são o entertainer Liberace (Michael Douglas) e o seu amante Scott Thorson (Matt Damon), que o pianista colocou a conduzir o Rolls Royce brilhante que competia com as plumas e fazia uma flamboyant entrada nos seus shows de Las Vegas e que se deitava depois na sua cama.
Foram companheiros durante seis anos, numa relação conjugal toda ela de “interiores”, porque o contingente, sobretudo feminino, de fãs do pianista nunca podia suspeitar da homossexualidade do ídolo. O filme, com argumento de Richard LaGravenese, adapta uma autobiografia de Thorson, e é a história de uma relação que começa numa banheira com champanhe, Liberace com 40 anos, Scott com 18, passa por intervenções cirúrgicas para um deles ficar mais novo e o outro ficar mais parecido ao amante, e acaba mal, com drogas, uma disputa legal que foi resolvida em acordo com algum dinheiro e uns cães. Foi uma história de amor. Em 1987, com sida, Liberace chamaria Scott, para uma reconciliação às portas da morte.
Hoje, quando 13 estados norte-americanos adoptam o casamento gay, Soderbergh diz que percebe que se olhe para o filme como parte de uma sequência de acontecimentos relevantes para a cultura de hoje – Liberace, que ele vê como antepassado de figuras como Lady Gaga, hoje não poderia evitar que a sua homossexualidade fosse identificada. E falando de hoje: Hollywood achou que não haveria público suficiente, só um minoritário, para ver Behind the Candelabra e terá feito as contas e recusou-se a produzir, o que levou Soderbergh a procurar a cadeia por cabo HBO. O que faz com que o filme nos Estados Unidos nunca vá poder chegar a um grande ecrã. Não importa, diz Soderbergh, que é da opinião de que há uma migração de público adulto do grande para o pequeno ecrã, e isso é, segundo o argumentista LaGravenese, uma espécie de grande promessa para o trabalho sobre as personagens sem estar agarrado às contingências da narrativa.
Dito isto, Soderbergh realça que o que lhe interessou foi a “intimidade”, mostrar os efeitos do tempo e de um espaço, fechado, numa relação: o roncar de Michael Douglas a perturbar o sono de Matt Damon, Douglas sem peruca, Damon sem cuecas… Devido, também, ao formato que Soderbergh criou para a rodagem, permitindo aos actores todos os dias terem uma ligação a um site onde podiam ver o que tinham rodado, constituindo-se assim um arquivo do arco relacional entre as personagens, é verdade que o up close and personal com um casal instala-se apesar da tendência para o jogo de máscaras que existe aqui – literalmente, porque houve pelo menos três jogos de próteses para as caras e corpos de Damon e Douglas: quando se conhecem, quando resolvem socorrer-se da cirurgia plástica e depois disso.
Mas se a entrada deste filme na competição de Cannes pode até ser sintomática de uma “nova idade dourada” da televisão, Behind the Candelabra nunca contorna a sua origem: se formos a ver, e isso pode dizer-nos algo sobre a tal “idade dourada”, é um filme que não quebra o molde “behind the curtains” (o candelabro ou o armário…) com que a televisão costuma entregar de bandeja uma ideia de íntimo.

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