O repertório do maestro escocês Nicholas Kraemer percorre os últimos três séculos, mas a paixão pela música barroca acompanha-o desde sempre. Começou a sua carreira como cravista, tendo colaborado com personalidades como John Eliot Gardiner e Roger Norrigton, e em 1978 fundou os Raglan Baroque Players.
Da posição discreta de intérprete de baixo contínuo passou à condição de maestro de carreira internacional, detentor de uma apreciável discografia que inclui obras de Vivaldi, Handel, Tartini, Durante, Pergolesi, Haydn e Mozart, entre outros. Actualmente é maestro convidado principal da Manchester Camerata, da Music of the Baroque (Chicago) e da Kristiansand Symphony Orchestra. De regresso a Portugal, Nicholas Kraemer vai dirigir a Orquestra Metropolitana no Fórum Luísa Todi de Setúbal (hoje, às 21h30) e no CCB (amanhã, às 17h) num programa dedicado a Handel (Concerto Grosso Op. 6, n.º 7, e Música para os Reais Fogos-de-Artifício), Rameau (Suite da ópera Dardanus), Vivaldi (Sinfonia RV 146) e Bach (Sinfonias das Cantatas BWV 42, 196 e 31).
Tendo em conta que a Metropolitana não é uma orquestra especializada no Barroco, que tipo de trabalho pretende desenvolver?
Ultimamente dirijo mais orquestras modernas do que agrupamentos com instrumentos de época, mas o facto de ter trabalhado muito no campo da música barroca no início da carreira dá-me uma ideia muito precisa da sonoridade e do resultado que quero obter. É essencial que esta música seja interpretada de forma transparente, com uma energia rítmica estimulante e com a variedade de articulação que estamos habituados a ouvir nos instrumentos originais. Já dirigi a Metropolitana noutras ocasiões, sempre com estes objectivos em mente.
Refere-se a O Messias, de Handel, que fez em 2010 no CCB?
Sim, mas já tínhamos colaborado no passado, creio que em obras de Strauss e música contemporânea. Gosto de incluir quase sempre alguma peça barroca nos programas, pelo que já tinha desenvolvido algum trabalho nesse sentido. Ao longo dos últimos dez anos, a orquestra foi-se tornando cada vez melhor e O Messias foi maravilhoso. Fiquei muito satisfeito, pois nem toda a gente tinha experiência neste tipo de música. Havia pessoas que sabiam o que eu estava a pedir, mas outras estavam um pouco intrigadas. No entanto, quando temos o concertino e os chefes de naipe certos, o feeling propaga-se e funciona.
Quais são os maiores desafios deste programa?
A obra de Rameau, pois a música francesa é completamente diferente e difícil de interpretar para quem não está familiarizado com o estilo. Aspectos como o balanço rítmico, a ornamentação, o tempo, certas convenções de escrita têm um carácter próprio. Nunca fiz música francesa com a Metropolitana, é um desafio.
Porque deixou de dirigir ensembles com instrumentos de época nos últimos anos?
O meu grupo [Raglan Baroque Players] terminou há dez anos, pois não tínhamos concertos suficientes. O mercado da música barroca está cada vez mais concorrido. As orquestras barrocas têm os seus próprios maestros - são eles que fazem a identidade do grupo - pelo que é muito difícil actuar como maestro convidado, ao contrário do que acontece com as orquestras modernas. Nesse campo tenho muitas solicitações e posso fazer também música dos séculos XIX e XX.
Quais são os compositores mais próximos da sua sensibilidade?
Sinto muitas afinidades com Haydn e Mozart. Do século XIX gosto de obras de pequena escala como as Serenatas de Tchaikovsky ou de Dvorák. Raramente trabalho com orquestras de grandes dimensões, não faria uma Sinfonia de Mahler. Aprecio a música contemporânea, mas, mais uma vez, prefiro grupos pequenos. O mesmo sucede com a ópera: dou prioridade à ópera de câmara, bem como a Handel e Mozart. Gosto da intimidade, de poder dialogar com as pessoas. Numa orquestra sinfónica há muito menos oportunidades para isso.
Reparte a sua actividade entre a Europa e a América. Há muitas diferenças no tipo de público e na vida musical?
Não é assim tão diferente. Na América as pessoas são muito entusiásticas, aplaudem de pé, gostam que os músicos falem com a audiência. Mas a música quebra barreiras, portanto não se notam muito as diferenças de nacionalidade. A afinidade com os repertórios é que pode ser diferente.
De que forma a música clássica pode chegar a públicos mais jovens?
Em geral, os jovens vão mais a concertos pop e as pessoas mais velhas a concertos de música clássica. Por vezes invoca-se o argumento dos preços, mas um concerto pop, ou um desafio de futebol, podem ser mais caros do que um concerto de música clássica. Não creio que a captação de novos públicos passe por colocar uma peça pop no programa. O que tento como maestro é tornar a música atractiva para o maior número de pessoas. Programas pedagógicos para crianças são uma via, mas mais importante do que levar os jovens aos concertos é ensiná-los a tocar um instrumento. Estive na Venezuela e foi fantástico ver como funciona El Sistema [projecto que visa reabilitar jovens de meios sociais desfavorecidos através da música e que deu origem à Orquestra Simón Bolívar de Gustavo Dudamel]. É um processo que pode ser aplicado em qualquer país. Na Escócia, funciona com bons resultados.
Foi cravista antes de se tornar maestro. O que o atraiu no instrumento?
A escolha teve a ver com a minha paixão pela música barroca, mas nunca fui um cravista solista. Um recital a solo faz-nos sentir muito sós, prefiro partilhar o palco. Como dirijo frequentemente a partir do cravo, acabo por conciliar os dois mundos.
Tem planos para gravações?
Se alguém me fizer a proposta, não recuso, mas não gosto muito de gravar em estúdio, prefiro que os concertos sejam gravados ao vivo e que esses registos se tornem um diário. A interacção que se cria na sala de concertos é insubstituível.

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